O ar que respiro,
Respira-me:
Metade do ar é tempo.
Nuno Rocha Morais
E é rapaz, donzela,
Planta, e ave, e peixe nas ondas,
Mas de ti nada se perde:
És sempre tu e serás tu,
E assim cumpres a mais alta lei.
Nuno Rocha Morais
Eu sei, este tempo morrerá aqui
E os mortos escurecerão a terra.
A vida ensina a morrer:
Com as estações e os cães,
Também esses que amamos,
Sempre breves, fugazes
E que a morte arranca aos nossos solos,
Como ervas daninhas,
E é a morte já em nós,
Semente dolorosa.
Eu sei, morrerei
Cansado de tanto ter já morrido.
Nuno Rocha Morais
Fiz de perder-te um jogo,
Uma construção abstracta
Cujo governo uma parte de mim
Recusou e combateu.
Os dois partidos travaram
Uma sangrenta e confusa batalha,
Retiraram-se e ambos
Proclamaram a vitória,
Chorando em segredo a derrota
Neste amor sem quartel.
Nuno Rocha Morais
O vento range memórias de amarras
E o sal traça o odor de epopeias marítimas.
As ondas que desmaiam na praia
Guardaram o som das bombardas,
O seu arder, o seu alarde.
Gaivotas com corpos de nuvem
Repetem gritos de alvas velhas velas.
As rochas, primeiro erguer
Da pátria no horizonte
Conservam ainda o ancestral sonho,
Estendem os braços verdes para o mar,
Apontam ainda o rumo.
Nuno Rocha Morais
Aqui, não há razão sequer para ter um nome.
O que se sente é como os ventos –
Muitos não vêm nos dicionários,
Anónimos iludem todas as redes conhecidas.
Também desconhecida esta gratidão
Pelo rosto da manhã a cada janela.
O ar cristaliza o silêncio das ruas
E parece deixar sal nos olhos,
Que se julgam, também eles, sujeitos ao Outono,
Uma tentação fácil quando estão cientes
De que pouco podem mudar, só ser mudados.
Agora, os corações são frágeis, zumbem muito,
Vivem ofegantes como se trouxessem
Noticias do reino dos mortos
E agora entregam-se, também eles,
Como frutos da época, tocados,
Bicados pelas aves de muitas noites,
Ou sentam-se com velhos e pombos
Em jardins públicos, sob um sol flébil,
E ouvem, à capella, o Outono e a tarde.
Nuno Rocha Morais
Poemas dos dias (2022)
Para, como as baleias, virem morrer
Nas ternas praias que a elas se estendem,
As ondas que, na ira do amor,
Explodem contra falésias e recifes.
Nuno Rocha Morais
Ó Natureza onde a alma
Já não é ponto isolado,
Rodeado por silêncios ignaros,
Ó Natureza, também eu
Recebo a fertilidade que a ti desce,
Vinda dos ventres das estações,
Também eu venço estios e invernias,
Também me desfolho e enfloro.
Sou natureza, ó Natureza,
E dentro da estação que sou
O ciclo das estações.
Nuno Rocha Morais
Outrora, quando o tempo
Do sonho e da realidade,
Acreditava-se que o homem poderia
Ser fiel, mas como,
Se dentro de si próprio
O homem possui inúmeros senhores?
A quem ser fiel?
Ao feudalismo do coração,
Ao imperialismo da razão,
Ao consumismo da experiência?
Nuno Rocha Morais
Não há um mesmo chão
Para cada um de nós;Há um, de forma diversa,
Para cada um de nós,
Cujo reflexo da gravidade
É o seu peso no pensar,
No sentir, no imaginar,
Mediante as elevações que concede.
Pelo amor, um e outro chão
Nivelam-se,
E um guia o outro no chão de cada um:
Apenas o amor é chão neutro
E partilhado e nesse chão
Os dois chãos se comungam
Tornando-se amor.
Nuno Rocha Morais
Luz insone e constante
Que narra a tua memória.
Por onde se desperta,
Onde é que a folhagem do sono acaba,
Vencer este sono sonâmbulo
Que és tu, apenas tu?
Tu não és o tanto – és o tudo
E nunca o tudo poderá ser tanto como tu,
Farol narrando o rumo na bruma,
Tu serás sempre o chamamento do fim.
Dividido, soltando sonhos na deriva do ar
Deixo cair a cabeça no incerto amplexo do sono.
Nuno Rocha Morais
O centro do sol
Oferece-nos vogais.
Pelo espaço oscilam
Linhas invisíveis.
Daquela que seguirmos
Herdaremos um dia.
Nuno Rocha Morais
Queimadas as encostas
Por onde a cor descia
Em amplas jazidas,
Desertas as vilas,
Ébrias de vazio,
Pacientes, insidiosas
Memória nómada no pó,
A lei do silêncio,
Um silêncio que arde na paisagem
Como choro contido,
Rios que morrem em charcos,
Lentamente reduzidos a areia,
Um cansaço que calcina todo o céu –
Decido – Emigro de mim.
Além dos montes está
O longe de ser já outro.
Nuno Rocha Morais
Torna plenas, próximas
As coisas,
Todas estas formas de silêncio:
A pedra, a gaivota, o rio,
A rua, o mar.
É esse silêncio que urge ouvir
E compreender.
Nuno Rocha Morais
Não: descansa.
Não mais amargura.
Dissolveu-se a imagem do velho
Que junta à fonte o seu choro
Jovem poderosamente.
Cada vez que a tua mão
Desenhar o meu rosto,
Há - de haver uma palavra, um verso,
Lugar de cantar, não de fugir,
Lugar de me perder para me encontrar
Em novo espanto.
Não: descansa.
Nuno Rocha Morais
Eu disse que te amava
Sob a respiração do luar
Respondeste
O céu estilhaça-se
À passagem dos corvos
Eu repeti a ardência nos olhos
Das palavras e disseste
A noite solidifica-se na voz
Eu soltei a minha voz
Afirmaste
A Primavera rompe-se
No amargor inclinado das flores
Exasperei-me nada compreendendo
De quanto dizias
Por detrás de cada palavra
Há apenas vácuo de sentido
Sentenciaste
Fui-me embora arrastando
Os juncais da mágoa
Ainda te ouvi
O regresso é a justificação da ausência
Nuno Rocha Morais
Canto de tordo – atento!
Se agora era o acaso fora,
Estava já escuro dentro.
Já muito escuro para a ave,
Embora no bosque voasse
Mudando o pouso para a noite,
Embora ainda cantasse.
O último dos raios de sol
Que a oeste estava morto
Para uma canção mais vivia
No peito deste tordo.
Lá ao longe, no escuro erguido,
A música no ar –
Quase um apelo a que entrasse
No escuro para chorar.
Mas não, eu procurava estrelas...
Nuno Rocha Morais
Bendita a morte,
Maldita a vida,
Se consciência de acabarmos.
Nuno Rocha Morais
Deixo que a tua fala me toque,
A fonte e me descubra
Onde eu não existia
Persiste a tua imagem
À tona das sílabas de um adeus,
Que se espaçam e endurecem.
Deixo-me arrastar para o nascimento
Irresistível para que a tua fala me convoca,
Desaguando na luz brutal
O primeiro calor demonstra no meu corpo,
O meu sangue exprime-se, delimita
A sua primeira morada dentro do amor.
Nuno Rocha Morais
As contracções,
A ira de Deus,
O sangue da maçã mordida,
A serpente enroscada
No pescoço que aperta
E aperta,
A fractura da identidade,
A deriva pelo medo.
A luminosa e uterina treva
Que se desvanece
E dá lugar à escuridão da luz
Do primeiro dia.
Criado para apenas perceber
O lacunar silêncio
De tudo o que se perdeu.
Nuno Rocha Morais
Imortal
É toda a vida
Que não temos.
2.
Sem ensaios
A nossa morte.
3.
Suspeita quando o teu corpo
Te disser que é só sono
E o sono, sempre,
Que ainda não é manhã.
4.
As formas do tempo:
Coisas, nós,
Princípios e fins.
5.
Rasgámos
A seda do eclipse.
A treva é ainda maior.
(Aparentemente, um poeta é uma entidade que gosta da morte.
A cada poema, parece que renasce a contragosto, parece perguntar: para quê, porquê perturbando-me, criando-me? A resposta, ainda ninguém a ouviu. Ou ouviu-se variamente e a verdadeira, ou verdadeiras, se as há, estão perdidas nesse transe de confusão.)
Nuno Rocha Morais
A pressa desconstrói ritmos,
Cadências à sua imagem.
Deixo-me conduzir
Pelo rancor das ruas
E que a memória seja fera.
Passo pelas estátuas e a sua reticência,
Sei que não sou mais do que isto,
Como tantos outros – um par de olhos
Devolutos, pelo rancor das ruas.
Cada fissura é o meu destino,
Cada desabamento traça o meu curso,
Mas isto não significa que eu esteja escrito.
Nuno Rocha Morais
Lançar nas palavras
A voz da Paz Verde
Impedir que dissolvam o céu
Por entre as largas gargantas do fumo.
Com as sílabas de cada gesto,
Mas gestos que caibam nas mãos,
Construir a Paz Verde.
Deixar que os pequenos veios
Da Paz Verde
Irriguem a cegueira do betão.
Algo de raiz pura e animal
Se acende no peito. Será
A Paz Verde?
Nuno Rocha Morrais
Como se criada, emergindo
As casas e as ruas e as gentes
Dos limbos hibernantes da noite.
A liberdade, aqui, não é o vento
Acelerado pelas gaivotas,
Nem tão pouco as águas que findas,
Se transformam, no oceano,
Em tempo sem margens.
Apenas as pedras são livres,
Mudas nos redis das suas histórias,
Tempo sem morte, mas idade,
Eloquência sem palavra.
Nuno Rocha Morais
A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...