sábado, 23 de maio de 2026

Dizes:

“Oxalá as cerejas fossem como os morangos silvestres”,

e o mundo abre-se em dois cachos

pendurados na alegria,

com os caroços da atenção

deitados fora pelo vermelho.
Dizes dos morangos

como se diria da dor

de os partilhar, selvagens.

Dizes da loucura silvestre

dos lábios percorridos 

pelo sumo agreste

da fusão das cores.

Esqueces-te, porém, que as cerejas

terminam o difícil trabalho

de serem felizes

no dia que agora se encerra. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 16 de maio de 2026

Toda a música
Traz uma memória própria,

Sábia de quanto esquecemos.

O seu fluir cristaliza

Num breve fulgor.

Toda a música 

 

Transplanta para nós

A memória de que ela é tempo,

Essa música que adormece, cumprida, 

É a nossa reconciliação 

Com o silêncio.



Nuno Rocha Morais

sábado, 9 de maio de 2026

O fado deixa-nos 

Abandonados na praia,
As notas quebrando-nos os olhos,

Lágrimas pelos olhos adentro.

No céu, apaga-se a geografia dos astros,

Saudade súbita

De algo ainda próximo,

Mas é a saudade futura presente.

O fado desatando o coração,

O fado abrindo uma gaveta

Antiquíssima e poeirenta

Onde reencontramos um pouco de nós.


Nuno Rocha Morais

sábado, 2 de maio de 2026

Eis uma sede súbita de poemas –

Sede, não um pião vindo dos astros,

Não um raio, divino de vontade.

Percorro as sarças de palavras crepusculares,

Onde as espigas estão nuas e a terra 

Exausta de cores.

Mas eis um pórtico

Onde as águas correm

Eis uma espiga que, de vários ângulos,

Brilha em fulvos diversos.

Eis o reflexo ilegível, eis o poema, 

Refracção do dizer, momento

Em que, realmente, o poeta já não diz nada.

O poema é o incerto despertar

Do caminho na bruma,

Sem partitura ou norte,

A distância é ilegível,

Olhando para trás, a estrada

Antiga e fluente dorme,

Cansada do rumo e do tempo.


Nuno Rocha Morais


sábado, 25 de abril de 2026

Liberdade. Será que a posso amar
Se nunca aprendi a perdê-la?

Não posso dizer que a liberdade

Seja a ave, quase ponto indefinido, no céu...

Ou um vento anárquico que remexe nas árvores...

Não posso dizer sequer Liberdade

(Palavra de arestas tão gastas)

Porque nem sequer a sei dizer, 

Dizer verdadeiramente – Liberdade!

Liberdade, será que te posso conhecer,

Será que te posso amar

Se nunca te perdi? 


                                Nuno Rocha Morais

sábado, 18 de abril de 2026

 On the road com Kerouac

 

Nada mais do que a batida

De um saxofone pela estrada

Interior. A América cresce 

Ao ritmo da voz negra

De um branco numa sala traseira.

A estrada protege-nos o rosto,

Afinal é o ponto da perda,

O lugar onde tudo se reflecte

No espectro dos pássaros da tarde.

Droga-te com estas palavras

Que roçam o asfalto da vida.

A loucura é o nível mais alto

Do mundo a curva de um trópico

Rumo à Terra do Fogo:

Burn, burn, burn

Like fabulous yellow roman candles

Exploding like spiders across the stars.

E arder não é mais do que uma pradaria

Soprada pelo sol da noite que floresce.

A estrada segue sobre rodas

Em direcção ao inferno, uma densa 

Eternidade amortalhada penetra

Na boca em transe, suspensa

Na limpidez de um grito harmónico.

O Mississippi lava a América,

O seu corpo em carne viva. Agora

A estrada é água, cola-se à transparência

E move-se por entre um barco que voa

Na crescente ausência do espaço.

Assim se atravessa a eternidade,

Na dissolução do Grande Golfo da Noite,

Nos quilómetros desolados da paisagem,

Nos espaços azuis rasgados pelo céu,

Como se a página fosse o Vale do Mundo.

Estremece-se com a intuição do tempo

Ao receber o mundo em bruto. A nudez.

O lugar comum, but no matter,

The road is life.

Nunca se morre o suficiente

Para se poder chorar, dirias,

Guardando a vida na mão como um bocado de lixo.

Das borboletas ainda brotam nuvens,

Afinal é possível que a poeira suba até às estrelas

Que trespassam a escuridão.

Lonely as America,

A throatpierced sound in the night:

A tua solidão explode com o som entrecortado

Do saxofone borbulhando ondas

De música brutal. A estrada do som

A estrada dos santos,

A estrada dos doidos,

A estrada do arco-íris,

A estrada interminável,

Um demoníaco reflexo da noite negra

No asfalto. Os sonhos terminam,

O mundo espraia-se, trémulo,

Palpita pela estrada fora,

É a ira que chega à velha dança.

Um rochedo explode em flor, o abismo oscila

Ao mais pequeno toque,

É um precipício seráfico e frenético.

Tudo vibra, a grande serpente emerge

Na imobilidade dos gestos,

Um insecto sai da tarde americana

Picando a realidade, a estrada está prestes

A sair da América, de toda essa terra bruta

De pessoas dispersas na imensidão.

No regresso, resta apenas

Percorrer a virgindade da berma. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 11 de abril de 2026

Vou folheando a memória,
Onde as datas são o eco

Das areias exauridas

Mas jamais mortas.

Releio rumores de mim,

Mas algo se perdeu

Entre os olhos presentes

E as palavras de sentido perdido,

Onde a profundidade é incompreensível:

Ler estas palavras é pedir-lhes silêncio.

Tudo se perdeu, apenas as ondulações

Transbordantes de dor ou alegria

Falam ainda com a mesma voz. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 4 de abril de 2026

 Primaveras anónimas,

Apostando serenamente nas cores

Moldáveis para que cada um

Construa o seu próprio florescer.


Nuno Rocha Morais

sábado, 28 de março de 2026

Sento-me aqui contigo,

Ignorando o trânsito
Enquanto como transeuntes passam

Perguntas sem resposta

Ou demasiadas respostas

Para uma só pergunta.

Estamos aqui, devagar, a ser

A alegria toda

À sombra do sacrifício.

Ambos sabemos – não vais ficar

Mas aqui estou, aqui fico,

Feliz enquanto estou

Dentro dos teus dias. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 21 de março de 2026

O poema como um sismógrafo de ilusão,
Em cujas palavras vazias de som

Se adivinha o coração suspenso.

O poema como um arar sem revolver,

O lugar de ligar luas longínquas,

Lugar de imaginar um coração:

Poema – câmara de caminhos

Desaguando em múltiplas distâncias. 



Nuno Rocha Morais

sábado, 14 de março de 2026

Aforismo

Memórias de flores não povoam jardins



Teus olhos, Honorine, cruzaram oceanos,

Longamente tristes, sequiosos,

Como flor aberta na sombra em busca do sol.

Vieram com o vento e com as ondas

Em música e cantos de sereia,

Através dos campos e bosques da beira-mar,

Vieram até mim estudante triste

Dum país do Sul.


Nuno Rocha Morais 

sexta-feira, 6 de março de 2026

Guerra para acabar com as guerras ?

Não há Deus no “no man's land,”

Religião alguma aí se vende.

 

Alcandorado em preces pelos séculos,

Deus morreu no terror de homens - tubérculos.

 

Onde homens não subsistem, morre Deus

Flutuando em vazios, vazios céus.


Nuno Rocha Morais 

  

sábado, 28 de fevereiro de 2026

O céu tão límpido, vazio

E a terra tão cheia –

Por toda a parte,

A construção da vida e da morte.

Que mundo poderemos ainda erguer

Deste espaço envelhecido?

Deste espaço que não é multiplicável,

Só dentro dos olhos

O horizonte cresce

E é infinito.


Nuno Rocha Morais 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Confissão de abandono

Neste momento exacto,

Se a exactidão é possível no tempo,

Sou um buraco de mim.

Deixa-me acontecer paradamente

Nos meus pequenos sonos de pó,

Nas pequenas redomas da minha solidão.

Não sei se o verão trará lugar para mim

Ou se esse lugar serão os teus braços.

Sou agora um tronco de árvore,

Um silêncio de pé.

Não me peças que disseque o meu olhar,

Se queres fazer algo por mim,

Diz ao dia que não insista mais comigo.

Fechei.

 

Nuno Rocha Morais

 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

Vem do largo, vem do mar, o vento longo,

Vem pôr cadências no teu cabelo,

O vento largo, o vento longo.

Entanto, o silêncio exíguo,

A luz sulfurosa num voo sucinto,

O céu incipiente, os rudimentos da manhã.

O que respiro não é livre.

O que chega já não é o mundo.

Aqui e agora imóveis – no preciso instante,

No ápice da agonia, que vem do fundo,

De um mar afogado num signo.


Nuno Rocha Morais
 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Companhia

 Livro,

Companheiro de chuva,

De céu puro,

Quantas vezes segui o fio

Das horas nas tuas páginas.

Quantas vezes me li,

Te vi o meu reflexo;

O que eu abri do mundo.

 

Silente, vivo,

Lá está, tranquilo,

Aguardando-me,

Correr de regato ávido. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 31 de janeiro de 2026

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro.
O odor das orquídeas não é o mesmo,

Morreram com a extinção do fogo.

Tudo é cinza, espaço em nunca convertido,

Tudo é um apenas olhar do corpo sobre o ido

Fulgor das fracas palavras que ficaram.

Hoje nada parece suster a respiração

Do teu folego rente à pele

Dos dias. Tudo é, no voo do sol da tarde,

Apenas um ardor desfalecido. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 24 de janeiro de 2026

Indagações no exílio

 

Velha proa harpa dos ventos
que mares tangem tuas cordas


O mar antigo contido

numa estrofe de Camões?

 

O mar dos mercadores

mar negreiro

cavado nos porões?

 

O mar das searas concretas

mar das ceifeiras

mar dos poetas

o mais vasto mar da marinhagem

que nada teve nunca?

 

Velha proa harpa dos ventos 


Nuno Rocha Morais

sábado, 17 de janeiro de 2026

Quando a escrita a si mesmo se molda

Muito britânicos, fomos tomar café de monóculo.
Galinhas rasgavam de som as horas, algures.

Havia sonhos muito decotados, muito seios,

Havia candeeiros onde as mãos se substituíam.

Alguém escrevia com bolas de ténis

Um guarda-chuva bebia conhaque com um peru.

 

Escrita automática
Esgrima autónoma

Auto escrita automática

Atemática escrita

Estro astro

Bestial escrita

Antónima escrita 


Nuno Rocha Morais

sábado, 10 de janeiro de 2026

Mundividências


 

I. Espera e confia

  Assim, a chacina

  Custa menos.

 

II. Para este mundo já não há

    Argumentos ou atenuantes.

 

III. Só pela dor o mundo

      É evidente.

 

IV. Ó vida,

     Diamante de esponja. 



Nuno Rocha Morais

sábado, 3 de janeiro de 2026

O momento mais puro

Guardei-o sempre em mim

Por medo da pureza.

Fui antes duro e execrável,

Abri os braços à ira, rédea solta,

Como só assim o amor

Fosse suportável, humano.


                    Nuno Rocha Morais
 

Dizes: “Oxalá as cerejas fossem como os morangos silvestres”, e o mundo abre-se em dois cachos pendurados na alegria, com os caroços da aten...