segunda-feira, 8 de junho de 2015

O PRÍNCIPE FELIZ



Pelo vagaroso céu, o Inverno sobe,
Convoca todos para a câmara de um envelhecimento.
O Sol resume-se ao rubi do punho da espada do Príncipe Feliz
E o diurno céu regressou às safiras dos seus olhos.
O ouro do dia já não cobre o Príncipe
E, aos seus pés, uma andorinha,
Alígera felicidade,
Instinto que o amor deteve.
O Inverno avança, o ouro dos dias
Caiu nos fogos das casas,
O Príncipe empobreceu,
A andorinha morreu,
Devassada, consumida.
E só agora, dirimido na sua beleza,
Mero coração de chumbo,
Irrigado por todo o amor da andorinha,
O Príncipe é verdadeiramente feliz.



Nuno Rocha Morais

domingo, 7 de junho de 2015







Canta, traz-me a serenidade
De uma qualquer serenata,
Um som qualquer, assobio,
Motor, dor que se esgueira
Por entre os lábios da contenção,
Algo que faça recuar estas paredes,
Canta ou conta fábulas,
Abre portas rangentes de mistério
E antiguidade nas lendas,
Canta ou rememora,
Que o brilho de uma evocação
Ocupe algum som,
Canta ou fala ou grita até,
Para que em mim a maré
De uma paz imensa desça,
A paz de um sonho de silêncio.


Nuno Rocha Morais

domingo, 31 de maio de 2015

ring ring ring ring ring Catholic bells !» W.C.W

Domingo num país distante                     .
Não falo a língua,
Mas, de súbito, ouço sinos,
Sinos por toda a manhã,
Sinos de igrejas que não descobri,
Ocultas durante a semana.
Não sou católico, mas é domingo
E por fim eis uma língua
Que posso entender:
Sinos, sinos, sinos.
E assim chegam até aqui os meus lares -
Posso ouvir os meus vivos
E, sobretudo, os meus mortos
Nestes sinos, na alegria destes sinos.
Não sou católico, mas ouço-os catolicamente
Porque os meus mortos morreram
Aconchegados na sua fé
E creio que a agonia
Lhes foi menor por isso.
Ouço-os agora nestes sinos,
No gáudio de sinos, revogando
Martírios, fogueiras, cancros.
Os sinos brincam, como cardumes,
Misturam-se com pombas, corvos, almas,
E são como um aceno dos meus mortos -
Que chegaram bem, que valeu a pena,
Que é tudo verdade.
Ámen.


Nuno Rocha Morais



terça-feira, 26 de maio de 2015


Gostaria agora que fossemos velhos,
E velha tu, junto de mim,
Passando a mão pelas dores
Que por fim foram douradas,
E que se tornaram parte da carne.
Gostaria de olhar para o teu rosto
Sulcado por muitos tempos
E ver nele, quase completa,
A minha vida.
Passou a estridula adolescência
Do corpo, do desejo,
Mas algo da alegria dura para sempre,
Mesmo se a chama se inclina,
Um pouco melancólica.
Abdicando do tempo, não da experiência. –
Se nos fosse concedido um absurdo.
Finalmente aqui estão duas vidas
Que, uma na outra, sabem algo sobre a vida.
Fica. Sem ti, terei vivido
Como alguém que não foi convidado.



                                                                                 Nuno Rocha Morais

sábado, 16 de maio de 2015

Dieta Mediterrânica



Os domingos cheiram a assado –
O meu passado gosta sempre de falar no presente  -
A mãe levanta-se cedo –
O meu pai e a minha mãe
São figuras de alegria, de riso,
Tal como muitas das presenças invisas, fantasmas,
Que me criam ainda –
Deita o azeite na terrina,
Depois o lombo e mais azeite sobre a carne,
Que escorre movido por uma espécie de ternura –
E depois as batatas velhas
Que a minha avó encerrava,
Em jeito de ouro inca, em três leiras
E distribuía depois pelos filhos,
Herança, transmissão de sangue.
E as oliveiras do quintal
Amamentavam-nos com um azeite muito ácido
E dos outros avós, limões e ovos.
É assim na minha família
A dieta mediterrânica.


Nuno Rocha Morais





domingo, 10 de maio de 2015

Cresce dentro de mim, despercebido.
Maternalmente, alimento esse estame
E o hóspede usurpa o códice de cada célula,
Que sujeita ao assédio da sua fome.
É uma omnipresença que se torna carne,
Como um destino, avatar exacto, matemático.
Vegeta e mineraliza.
A sua liberdade estende-se, ilimitada
Até onde vai o meu corpo.
Cresce, fetal, no seu incunábulo,
Cerra os pequenos punhos
Até que tenha força bastante
Para ser dor, gnose, nome – cancro.



Nuno Rocha Morais

sábado, 9 de maio de 2015

Certidão de nascimento



A folha de papel que tenho à frente,
Lavrada pela mão mecânica
E indiferente de escrivão, sou eu.
Nela sem emoção alguma, soa
A meia-noite e quinze
De um dia trinta e um de Dezembro.
Mas já estão alguns nomes
E entretanto esses nomes cresceram
Como trigo e encheram-se de amor
Ao crescerem comigo, são mel, cera, tecto.
Como um portulano, esta folha
Exibe as conjunções de vidas
Banindo o arbitrário do humano.
Não podia ser senão assim.
Mas a letra de máquina ignora tudo.
No entanto, esta folha de máquina sou eu –
Com duas gralhas, mas sem erros de ortografia,
E isto deixa-me tranquilo.


Nuno Rocha Morais 

Filosofia   É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...