domingo, 29 de novembro de 2015

 Atravessei a sucessão de cavernas
E eram as conchas das suas mãos.
Não sabia que a escuridão
Denunciava o seu desvelo.
Ignorei o carpir das pedras,
Saí indemne para a luz
Ignorando que a sua alegria
Me recebia, radiosa;
Apenas sentia, obscuramente,
Que todos os perigos eram meus aliados,
Que todos os alarmes me eram fiéis;
Elas intercediam, secretas e fui hóspede
Das malas-artes da fadiga extrema
E o vinagre bastou para me matar a sede.
Eu sabia, de ciência cega,
Que a força das mães me erguia
Para o alto, para o humano,
Sem incomodar os anjos.

Nuno Rocha Morais

domingo, 22 de novembro de 2015

O cerimonial da manhã,
O mundo que invade
A noite da casa,
Compondo-se, traço a traço:
O cheiro do café,
O cheiro aveludado da fruta
Quando se entra na sala,
Cheiro macio como se pele,
A luz que se vai rasgando
E quanto mais se rasga,
Mais se tece,
Os pássaros pelas pautas da manhã –
O mundo num incêndio de ritos.
No entanto, eu espero outro mundo,
Um mundo perdido, submerso
Na ausência dessa mulher
Que jamais poderia ter ficado aqui.
Mas eu espero-a,
Faço do silêncio uma profecia,
Uma curva pela qual ela virá,
Uma maré que atravessou luas
E, onda a onda, aporta na praia.

Nuno Rocha Morais

domingo, 15 de novembro de 2015

FALA DE JASÃO A MEDEIA


“— Já nenhuma razão te assiste, ó vil
Assassina da tua própria carne.
Os deuses que te deram a beber
A sede da vingança não te ajudam:
Guiam agora o gume desta espada,
Cujo fio é justiça infalível.
Não te temo, ó mal livre e desgrenhado
Feiticeira da sombra e da serpente,
Pois quanta dor podias dar já deste.
Toda a morte possível devorou
A fonte já esgotada do meu peito.
Não te dará o medo mais poder,
Nem poderá abafar todo o meu ódio.
Subirei os degraus como a maré
Certa do seu destino e morrerás,
Medeia, e guarda algum te salvará…
Amei-te, mas o amor é como as dunas
E, lentamente, cede à mão do vento,
Vendo-se outros cabelos, outras mãos;
Amei-te, mas é breve a travessia
Desde a luz do amor ao carvão do ódio.
Sim, morrerás, Medeia, morrerás
E não terás descanso sepulcral,
Nem sequer na raiz do esquecimento.
O teu nome há-de ser todo o veneno
Que tão odiadas faz as vis serpentes”.
     
     Nuno Rocha Morais

domingo, 1 de novembro de 2015

Resposta a um certo Kaspar Hansa


As tentações que ofereço são risíveis,
Não sei corromper, sendo eu tão corruptível
Pela minha credulidade consciente.
Não sei ser de outro modo:
Já me chamaram bom,
Mas creio que isso é um equivoco
Tão grande, tão grande
Como me julgarem dissimulado,
Maléfico, inofensivo.
Todos são, em algum momento,
Eleitos, chamados,
Mas só o inevitável me elege.
Sou um homenzinho de gostos simples,
As horas do dia que prefiro
São a manhã, a tarde e a noite.
Tenho o coração tão vazio
Que nele não me cabe sequer
O sopro de uma desilusão.

Nuno Rocha Morais

sábado, 24 de outubro de 2015



Embora me quisesse prender a outros dias,
Nunca sair de lá, Houdini ao contrário –
Ficar é bem mais difícil
Do que conseguir sair.
Se virem a minha amiga Joana,
Digam-lhe, digam-lhe só, sei lá,
E se a virem, ela, bem colocada
Na literatura brasileira, interceda por mim
E peça, lá no empíreo, perdão a Vinícius
Pela barata imitação.
Se virem a minha amiga Joana,
Digam-lhe que na minha alma entraram
Muitos funerais, mas não falo da morte
E lhe ofereço um ramo de saudades,
Flores um tanto escuras;
Se virem a minha amiga Joana,
Digam-lhe que lhe sinto a falta
Digam-lhe que lamento, mas entendo e não entendo.
Se a virem, digam-lhe que me faz falta, enfim,
Um pouco da sua alma
E que não sou justo com outros amigos meus
Por lhe sentir a falta assim.
Se virem a minha amiga Joana,
Digam-lhe que isto vai, um dia de cada vez,
Às vezes mais, mas só por engano.
   
Nuno Rocha Morais

sábado, 17 de outubro de 2015


Retorno aos teus braços,
Relembro a presença da luz.
Apago as guitarras chorosas
Que o dia fez desaguar em mim,
Esqueço as fendas de viver a morte
Por onde me vou esvaindo,
A presença cada vez mais silêncio.
Retornei, vesti outra vez aqueles velhos hábitos,
Habito de novo aqueles olhos felizes.
Sem estrelas, sim, mas com sonhos.
Regressei à minha infância de sempre,
A infância de onde nunca parti,
Mas que partiu de mim (parece que isso se chama crescer)
E depois tive que assinar cada dia
Com uma gota de sangue,
Mas agora voltei e adormeço no teu nome:
Mãe.

           Nuno Rocha Morais

domingo, 4 de outubro de 2015












Aquelas luzes todas,
Aquele movimento confuso, larvar,
Aquelas paredes onde se encerra
Uma incerta meia-dúzia,
Ocupada com os seus instrumentos de precisão
Para a omnipresença e a omnisciência,
Aquela cidade justa é a humanidade.
À volta das paredes, não menos humanos
São os milhões de ilhas
Formadas por pessoas que se agarram
Enquanto morrem
Abandonam-se entre si,
São indiferentes a toda a indiferença
Que os rodeia, os das ilhas
E os da cidade.
Preferem a companhia das baratas,
O amor dos escorpiões,
A confiança devotada por serpentes.

     Nuno Rocha Morais

     

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...