É esta poesia amarga
Que me tortura e afaga.
É a poesia de desdita
Que me implode e me grita.
É a poesia auto- de- fé
Que me mata e põe de pé.
Nuno Rocha Morais
É esta poesia amarga
Que me tortura e afaga.
É a poesia de desdita
Que me implode e me grita.
É a poesia auto- de- fé
Que me mata e põe de pé.
Nuno Rocha Morais
Stabat filius
E era a mãe que sofria. Cruz e noite.
Fechava-se, o seu riso diluía-se.
O filho ouve na voz da mãe
O lastro escuro de uma resignação,
Sulcada por veios grossos de amargura,
Tudo afinal a apodrecer em enganos –
A mãe coragem está cansada, tem medo,
E a idade do medo é sempre menina,
E eu tento fazê-la rir,
E espero ter guardado em mim,
Depois de anos a fio com esse riso a pegar em mim,
Um riso suficientemente poderoso
Para, com uma gargalhada ex machina,
Agora a salvar. Dorme, mãe, dorme um sono pequenino.
Revoada potente e luminosa, hoste dourada
Percorrendo corredores, recantos, desvãos,
Onde costumam esconder-se todos os medos,
Desencantando as sombras dos seus terrores.
Mãe tamanhinha, de idade menina
Ingénua, empreendedora, curiosa, dinâmica, incansável,
Determinada. Não suspires, mãe, de tanto mudar cansada,
Pela expiração da mudança.
Nuno Rocha Morais
Onde pasta o último cavalo.
Atrás do prado, naufraga, afoga-se,
Soçobra o último sol
E nunca mais haverá um sol
Com face de prado e cavalo que pasta.
Amanhã, nascerão ali prédios,
Semeados por arquitectos,
Regados por homens de mãos grossas,
Impessoais, neutras, precisas
E, plantas concisas, brotarão os prédios.
Depois virão as mulheres
Que penduram nos prados dos fins de semana
Os seus alvos, perfumados esforços
Ou regam as suas enfermiças plantas,
Pálidas, sem vigor que cedo morrerão.
Afinal, o que é isto de Natureza?
Nuno Rocha Morais
E consumimos ainda sonhos ancorados
As estrelas foram dependuradas nos tectos
Os punhos foram decepados
Os passos mais ousados encarcerados nos canis e abatidos
Depois foram as notas do tambor roubadas
Aquelas notas verdes e rodopiantes
Que algumas mãos de noite enterraram no silêncio dos tímpanos
E o sangue que chegou ao coração
Trouxe ordens impressas
As pombas viram as suas asas transparentes
Substituídas por ossos negros
E na vida abriu-se um sorriso que durasse
Com um estilete
Nuno Rocha Morais
A verdade é que estou perdido.
Cada coisa que te digo
É uma declaração de guerra,
Ou nada do que te digo interessa,
E o silêncio é dar margem
A uma margem que cresce.
Marcaria encontro contigo, dentro de ti,
Para te perguntar onde estás –
Se ainda aceitasses ver-me.
Diria que te amo
Se aceitasses ouvir-me.
Dir-te-ia que estou aqui
Se ainda me aceitasses dentro de ti.”
Confundo as identidades
Da estrela da manhã e da estrela da tarde
Posso imaginar que os meus olhos
Estejam agora húmidos com a confusão
De um cão que não entende as palavras,
Mas apenas o tom.
Posso conceber que essa ternura perplexa
Cause repulsa, mas não a entendo.
Tudo o que te possa dizer
Te soará a declaração de guerra
Ou, pior ainda, a capitulação
Neste jogo de identidades que se desfocam,
Num combate de sombras
Entre forças que se desprendem.
E o silêncio é dar margem
A essa margem que cresce.
Em breve passará um rio, soará a noite,
E será o mundo.
Nuno Rocha Morais
Entro nessa penumbra
Que, tonitruante,
Paramenta o espaço.
O entendimento de muitas metáforas
É pó, nada mais do que pó.
Pão, vinho, cordeiro –
O que significam estes símbolos
Onde Deus vai acordando
Como uma flor dormente?
E quem é esta gente, o rebanho,
Que conflui para os cânticos
Como um rio lento e seguro?
Uma estranha felicidade
Incensa as suas vozes incompreensíveis.
Há muito que guardo Deus
Como um livro fechado,
Órfão da fome que alimenta
E da ressequida sede que dessedenta.
Nuno Rocha Morais
Paguei já demasiado:
Depois extinto, já nem cinza.
A luz que não ilude os olhos,
A luz, ainda outra forma de escuridão,
Este sofrer de não entregar a dor no verso,
Mas apenas vê-la reflectida nele,
Ampliada, propagada em quem me lê
A morte imperceptível.
Quanto ainda me resta pagar?
Nuno Rocha Morais
A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...