quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

 


Dias solidificados num hábito,

Num hábito a que chamam,

Segundo o habitual mecanismo das horas,

Amor ou sonho ou trabalho.

Um hábito a que chamam vida,

Tiquetaque dos passos,

Sempre os mesmos

Do sempre mesmo hábito,

A dormir para cumprir

O hábito de acordar,

Um hábito a que chamam vida,

Até terem um enfarte de regularidade,

Até chegar a morte,

Já um hábito,

O plácido ponto final

No requerimento do corpo,

Cumprindo a burocracia da carne.

 

Nuno Rocha Morais


domingo, 9 de janeiro de 2022

 

O teu corpo é matéria simples

Além do bem e do mal:

E não é o crime que das tuas mãos

Faz quasares.

E não é o teu nome indomável

Uma imprecação ou blasfémia.

E aquilo a que chamam leito envenenado,

A pacificação, o bramir,

Não é a impaciência infernal

Que sobe até às almas e tudo devasta.

Tu não és o grau último da perdição,

Não és o ribombar do apocalipse

Apenas porque o teu corpo é medida humana.

Também os corpos pesam o quilate do amor.

 

Nuno Rocha Morais

domingo, 2 de janeiro de 2022

 

Tanto tenho morrido para sempre

Mas ainda volto pelas portas entreabertas

Do crepúsculo

Pela luz pálida, cadavérica

Moribunda

A luz que me conhece

Que me acompanha pelas ruas

Onde sou leve como ninguém

Pois que ninguém me reconhece

E chego junto de ti

Venho dizer-te – Tenho morrido tanto

E é para sempre

Receio não ter-te amado até ao mais fundo

Da minha força e ela secou

Quase me desvaneço Falo-te

Pacífica mulher de Vermeer

Talvez fluir de outra vida já

Já não me reconheces

Sou agora outra margem

Só os mortos me reconhecem

 

Nuno Rocha Morais


sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Hoje, é dia de Natal e, não sei,

Talvez estivesse só,

Se não fosse uma gaivota

Que repete círculos

Num céu estranhamente baixo,

Ela, como eu, longe do mar.

Ando por estas ruas distraídas

Que hoje me levariam a qualquer vida,

Ruas leves, à deriva, sem deus,

Um deus dissoluto, disperso em rituais,

Intocável a qualquer prece.

Há uma solidão que se espraia em mim,

Como um baldio, um descampado,

A infância faz força, pressurosa,

Contra o pensamento.

Não a deixo vir.

 

Nuno Rocha Morais


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

 É certo que tudo aconteceu

No teu corpo, na tua alma,

Mas não eram teus, corpo e alma.

Digamos que se tratou de um cenário

Para que por ele as coisas passassem;

Passaram corpos, passaram anos.

Para o sofrido, esperaste propósito,

Mas não para o feliz, de que te apossaste.

Viveste tudo como teu, mercenário,

E, no entanto, agora,

Não sabes o que será de ti,

Prestes a devolver corpo e alma.

Em breve, ser-te-ão desconhecidos.

Não és senhor sequer do que viveste.

 

Nuno Rocha Morais



sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Não te deixei partir,

A raiz da memória

Enclavinha-se, funda,

Na terra, mão

De uma infância,

Fustigada pelo terror,

Que interfere.

Não te deixo dissolver

Na paciência da terra,

Algo em mim te aperta,

Te estreita, a mão

De quem também morre

                                              Para te embalar

                                              Num acalanto terrestre.

 

                                                       Nuno Rocha Morais

domingo, 12 de dezembro de 2021


Conheces agora a minha pobreza,

Conheço agora o teu juízo –

Muita coisa a juntar-nos,

Não vá isto ser coisa nenhuma,

Pétalas putrescentes,

Cortina afinal sobre plateia vazia

E nós, inincontráveis,

E nós, a escuridão imóvel,

E nós, nem sequer perdidos,

Nem sequer nada.

Oxalá de nós alguma coisa,

Nem que seja só a força de uma repulsa

A distinguir a pele

Do que nos repele.

Ao menos isto – na minha casa,

O silêncio calçou a ausência

Das tuas sandálias

No nervo central de um corredor.

Dorme sobre o que não lembras –

O passado pode ser tão avaro,

Tão incerto como o futuro.

 

Nuno Rocha Morais


Filosofia   É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...