domingo, 24 de setembro de 2023

Temos apenas os sonhos

Em que somos reais

Da face visível da lua.

Porém, talvez do outro lado,

Tu me ames

E o crepúsculo desabe sobre as águas

Plácido, entregando-se

Numa certeza feliz.

Assim também nós,

Dentro dos corpos buscando a ceifa

Em lunações maduras,

Estações humosas.

Talvez do outro lado da lua

Os regressos e os caminhos

Já não estejam desencontrados,

Talvez do outro lado, talvez aí.

No entanto, esse lugar

Está no centro do tempo que morre

Sob o tempo em que vivemos.


Nuno Rocha Morais

 

 

  

quinta-feira, 14 de setembro de 2023


 Tu e eu – isto, sob o sol imperturbável,

As noites mais longas, os dias mais inúteis,

E mais nada, só isto, sem elegia,

Tudo lentamente engolido pelo passado

E, sob a leve película da memória,

Quando mais se diria de água,

Afundam-se contornos indistintos, esbracejando,

Tu e eu, enquanto nos habituamos

À nossa condição de náufragos – e afogados.

O amor foi como uma carta,

Igualmente frágil, amarrotado,

Extraviado, deixa o desespero

À cabeceira do fim, que está atrasado,

Se demora, talvez nunca chegue.

Há afinal tanta coisa que não acaba,

Tantas cartas que se continuam a escrever

Muito depois de a mão ter detido

O seu percurso, muito depois de o campo

Estar lavrado, queimado por geada –

Há afinal o próprio amor que não acaba

E murmura tanta coisa que não é sequer memória.

Dirás: viveste afinal quando

Tínhamos prometido morrer?

Não faltei, perjuro, à minha morte,

Esteve sempre contigo.

Que fará de nós o absurdo orgulho

De alta escola, o que de nós

O amor irreparável?



Nuno Rocha Morais

sábado, 2 de setembro de 2023

Em xistosa voz sem pranto,

Falo de partir pelo asfalto

Que alguma tarde me ofereça

Para o outro lado do longe:

Acontece que me canso

Da minha irredutível imperfeição,

Destes erros que insepultos,

Erram em mim e me apontam

E me acusam da sua perdição.

Basta, basta. Falo de me evaporar

De deixar secar em mim o homem,

De deixar mirrar toda a humanidade

Para que, enfim, se possam encontrar

Alguns cristais de divino.


Nuno Rocha Morais

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

 Aprenderei primeiro os meus passos,

A equilibrar-me no silêncio.

Depois, apagarei tudo quanto for sagrado,

Porque nada pode ser sagrado,

Pedirei vento para apagar círios

E pedras para apagar pálpebras

Embriagadas de fé sem razão.

Caminharei, em seguida, junto à praia,

Aprenderei a construção do fogo

Que o mar traz no seio do seu sal,

O fogo na boca, sobretudo na boca.

Irei depois para ti,

Com o meu nome quase vulto,

A carícia quase rumor

E a voz uma noite escuríssima,

Com a lua obnubilada.

Envolto em tanta treva,

Iluminarei, então, toda a nudez oculta.


Nuno Rocha Morais

domingo, 13 de agosto de 2023

 

Pelo poema ressoa,

Cava, a dor do mundo,

A densidade de um excessivo haver

Ou o peso de tanta falta.

 

Nuno Rocha Morais

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


segunda-feira, 7 de agosto de 2023

 Quem és, ó tu

Que povoas o meu verbo?

Presença de um espelho,

O verso caminhante

Que consigo mesmo dialoga?

Quem és? Um sinal dos deuses,

Um chamamento, o arauto

Alguém sonhado?

Quem és, ó tu

Que iluminas o discurso,

Sereno ouvinte,

Paciente estação?

Serás tu o poeta que todo o verso

Na sua torrente cria?

 

Nuno Rocha Morais

sexta-feira, 28 de julho de 2023

Viagem


A noite cai como uma carta.

Viajo no comboio, viajo na noite,

Viajo dentro de mim, pensando-me.

O comboio galga os minutos da distância

E a natureza que, recusando-se

A ser vencida pela máquina

Corre sempre, perseguindo-se a si própria.

Paisagens de sombra e a imaginação delas sobrepõem-se.

A noite cai como uma carta

E perco-me na sua boca

Aberta e negra no horizonte.


Nuno Rocha Morais

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...