domingo, 22 de outubro de 2017


Qualquer coisa basta para nos destruir,
Coisas mínimas, como uma pergunta,
Uma carta que se espera e não veio,
O ângulo em que uma palavra cai sobre nós,
Coisas que tangem os nossos limites
E forçam e rebentam a sua resistência tersa.
Tudo, por muito pequeno ou pouco que seja,
É o bastante para nos destruir.
Não podemos esperar que os nossos limites
Constituam as regras do jogo.
É assim que vivemos,
Continuamente transgredidos.

Nuno Rocha Morais

domingo, 15 de outubro de 2017

“Da cinza à pedra” Notas literárias de Nuno Rocha Morais


Lembrar só que não há lugares comuns. Que são lugares comuns o amor e a morte e o mar e o verão e as amoras e os bosques e um pardal – são palavras. Mas a nossa experiência delas obriga-nos a mudar as palavras, os seu sentido, sobretudo em palavras como amor e morte. Quando encontramos os conceitos, fora das palavras, a acção pura, então, as palavras enchem-se com uma emoção, um rosto, um instante, uma memória, e só então sabemos o que realmente significam amor e morte ou mar ou verão ou amoras ou bosques ou pardal. E então é preciso pensar tudo de novo, dizer tudo de novo, passar, como escreveu Roberto Juarroz, a lista das coisas, e sentir então o sentido. As palavras encontram-se fora das palavras, fazem-se de fora para dentro e vêm de dentro para fora, quando sabemos o que significam. Uma palavra é uma experiência – não é uma sequência de sons inocente à qual foi convencionalmente atribuída uma significação estável. Uma palavra é tudo menos estável – muda connosco. O sentido que damos às palavras é a melhor forma de vermos como mudámos. Experienciar uma palavra implica repensar todo o vocabulário, descobrir como estão tão vazias tantas outras palavras. É isto que constantemente nos lembra a poesia. Se quisermos ser animados pela mesquinhez utilitarista é para isso que “serve” a poesia.


domingo, 1 de outubro de 2017

Os espelhos dissecam-me.
Perco-me, perco-me
Como um relâmpago
Entre as palavras azuis da noite,
Perco-me no teu olhar chuvoso,
No teu corpo de nuvem voluptuosa,
Perco-me quando durmo,
Nos sonhos que me acordam,
Perco-me no sul dos pássaros
E na teia dos caminhos.
Perco-me na música
Que me dissolve,
Perco-me na terra
Que roda nas estações,
Perco-me e nem o meu nome
Será bastante para me encontrar.

Nuno Rocha Morais

domingo, 17 de setembro de 2017

Sempre que me vias,
Eram os teus lábios
Em festa de riso,
Os teus olhos infestados
Por uma alegria verde;
    Era eu a sentir-me grande,
    A sentir a unanimidade
De ser inteiramente eu,
Eram as minhas feições calcinadas,
Que adquiriam alígera coloração
De ser eu reconstruído.
Sempre que me vias,
Era eu surpreso pela correspondência
Entre a tua alegria
E a minha imagem.

Nuno Rocha Morais

domingo, 10 de setembro de 2017

Sobre o mar, a noite começa a ser
Uma espécie de possibilidade.
A tua mão escreve com as ondas
Nervosos postais,
O teu cabelo esvoaça ao encontro da brisa.
Juntos aqui, junto ao mar,
Quem é cada um de nós,
A que outro se mistura,
Com o ocaso, a brisa, o rumor?
Continuas a escrever.
Em mim pousa a profunda calma do mar,
Há feridas antigas que voltam para dentro,
E desaparecem, não deixando sequer cicatriz.
Ouvi-te realmente dizer
Que esta é a paisagem de seres feliz?

Nuno Rocha Morais

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Quanto ouças de mim seja fuligem.
Nada mais é preciso: amei-te, desprezo-te.
Tudo é inútil o bastante.

Nuno Rocha Morais

domingo, 23 de julho de 2017

Não, Cristo, não mais sofras por mim,
Não morras mais por mim.
Liberta-te do mármore, da madeira,
Dos silêncios dos templos
Esquecendo que és fruto divino, Cristo, salva-me.
Não mais te deixes crucificar,
Deixa que os homens mesmo se crucifiquem:
Só assim eles aprenderão.
Deixa, Cristo, que nós saibamos mais do que metáfora
Os pregos devorando a carne,
Deixa que ouçamos a alma gritar contra nós
“Porque me abandonaste?”
Deixa que exactamente aprendamos, Cristo
O Gólgota que dentro de nós dorme,
Deixa que as lágrimas devorem os olhos –
A guerra no Monte das Oliveiras,
Deixa, Cristo, que nos reneguem,
Que nos dêem a beber o fel,
Deixa que saibamos o peso da cruz,
O peso das lágrimas de Madalena,
Deixa, Cristo, que aprendamos tudo por nós.
Só assim teremos merecido a alegria da morte.

Nuno Rocha Morais

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...