quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Lá fora, o enredo violento

Da chuva e do vento,

Como sílabas furiosas

De uma história de amor.

Cá dentro, tilinta a substância

De copos e risos e uma alegria

Quase compulsiva,

Esta vontade de inventar estrelas,

Perguntam-me por ti,

Incessantemente, em revoadas,

Perguntam-me por ti, perguntam,

Perguntam e eu não sei

E apercebo-me do súbito silêncio

Dentro de mim

Numa noite de Natal.


Nuno Rocha Morais
 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

 Chegou não sendo ninguém,

A figura vazia, o peregrino

De nenhuma fé,

Nenhum rasto deixavam 

Os seus passos sobre a neve, 

As suas mãos não poderiam

Mover sequer uma folha.

Chegou a uma vida

De absoluta indiferença,

O inverno era o mais frio

Em muitos anos.

Dormiu em camas várias

Sonos emprestados;

Olhar apenas sentado

Era a única possibilidade de viver.

Deixou-se cair para render

Homenagem ao abismo,

A maníaca hora das refeições,

Os solitários agarrando-se

Ao seu vazio como única sobrevivência,

Em tudo isto, ninguém.


Nuno Rocha Morais

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

 

A casa gorgoleja, estala, range,

Estuda-me com ruídos estranhos

Que me rondam como animais –

Numa reacção física, regougam, rosnam,

Porque aqui o estranho sou eu,

A minha respiração é uma interferência

Na ordem do som e do espaço.

Na noite seguinte, os ruídos cessaram

Ou tornaram-se uma voz familiar,

Uma presença tutelar,

Como o perfume e a respiração

Do sono ao meu lado.

Agora que não falamos a mesma língua,

Passamos o dia inteiro na penumbra

À procura numa cama de uma raiz comum,

De um sinal de encontro, de reunião;

O amor tem tudo de uma investigação filológica,

Excepto as palavras, que enlouquecem ao segundo dia

Como insectos enclausurados,

Para morrerem ao terceiro.


Nuno Rocha Morais (Poemas dos Dias-2022)

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Cosmogonia

Não sei. Não me lembro.

A memória não enreda vultos,

Milénios domados pelo esquecimento,

Histórias anteriores a toda a História.

Mas, por vezes, imagino células do tempo

Que se agrupam em dias

E os dias são a primeira coisa criada,

A primeira resposta ao não haver nada,

Nem sequer o silêncio das existências.

E os dias começam os trabalhos.

Da luz líquida nascem as águas;

Da luz opaca, opressiva, a terra;

Da luz incandescente, o fogo;

Das estradas da luz, o ar;

E os trabalhos vão-se fundindo,

Povoando os dias.

Talvez tenha sido assim. Não sei. Não me lembro.

Existiremos, quando o nosso início

Mais não é do que figuras de sonho?  


Nuno Rocha Morais

(Poemas dos dias - 2022)

Este foi o poema de base da apresentação do livro Poemas dos Dias feita por Rui Santiago - "Cosmogonia"


domingo, 27 de novembro de 2022

A criança fantasia

 


Avô, tu disseste “Não é assim”,

Com todo o saber no teu bolso,

Mas eu gosto mais do mundo assim.

Gosto de dizer que a lua é a rainha do céu

Durante a noite,

E que tem um vestido amarelo

Com nódoas castanhas.

Gosto de dizer que a noite vem

Porque chovem uvas,

Uma imensa chuva de uvas.

 

Avô, não quero saber

Dos movimentos do sol.

Ou que o sol é um astro.

Não. Ele é o olho arregalado

De Deus, que é um ciclope.

 

Avô, tu sabes que eu cresci,

Mas eu gosto de ignorar os meus passos,

Fingir-me criança,

Para tornar mais leves

Os anos, que já se vão amontoando

Sobre os meus ombros.


Nuno Rocha Morais (Poemas dos Dias 2022)

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

 

Misturam-se os corpos, não se misturam as vidas.

Sente-se em cada corpo 

A tensão dos segredos,

A resistência das ânsias

Que, lucífugas, se refugiam

Na superior distância da inexpressividade,

Um autismo urbano.

 

O corpo a corpo da indiferença,

A força que atrai cada um 

Para dentro do seu próprio mundo.

 

Um homem carregado de embrulhos

Risonhos em cores berrantes;

Uma mulher que espreita a aranha de um relógio;

 

Cada um enfrenta sozinho a sua vida

Sem descobrir gente dentro dos corpos

Que o rodeiam;

Ninguém olha cada pessoa como merece

Quem olha as pessoas?


Nuno Rocha Morais

terça-feira, 1 de novembro de 2022

A visita

Chegou sem aviso e instalou-se.

Ao princípio, nada disse. 

Depois, começou a falar, pausadamente,

E, a sua voz, uma imensidão

Defluía, humilde;

Não mostrou o rosto,

Mas estava em tua casa

E estava em minha casa.

Partiu como veio, sem aviso,

E ficamos um em frente ao outro,

Na minha casa,

A um tempo abismados e cientes

Do amor a que cada dia mais novo em nós.


Nuno Rocha Morais 

(Poemas dos Dias - 2022)

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...