sábado, 2 de março de 2019

AS INFLUÊNCIAS NA POESIA


A sombra de uma linha sobre nós
Que se acoita na nossa língua,
Como uma doença,
E a rouba.
A luz lisa do papel, a sua candura
Já obscurecida
Por uma voz já rouca,
Um olhar já rasgadamente aberto,
Um lábio já tangido,
Uma colina de barcos já envelhecidos,
Um degrau de crinas já consumido,
Uma veia já navegada pelo sorvo.

A maré que engole
O lugar da nossa liberdade.
Somos a folha invadida
Pelo incêndio minúsculo de um eco.
É sempre a mão da luz alheia
Que nos guia por entre o vapor das palavras
E nos faz juntar águas
Onde esta manhã de um anel já foi ouvida.

Invadidos por páginas,
Lutamos para não ser apenas a ramificação de uma boca.


Nuno Rocha Morais
(in GALERIA pág.9) 

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Brasão

Provavelmente, foi roubado
E não pertence a este pórtico.
É tosco na pedra amestrada
E quase risível se pretendia
Ser um firmamento que guardasse
A glória de um clã.
A pedra é escura e bruta
Como seria a própria vida
Dos senhores que ainda serve –
Ou talvez não.
A pedra, nas suas formas hesitantes,
Foi uma pobre posteridade.
Quaisquer fossem os símbolos de glória –
Coragem, astúcia, trapaça,
Um assassínio oportuno,
Um estupro domesticado em núpcias,
Fossem escadas, águias, plumas, guantes,
Punhais, dragões ou torres
São agora figuras indistintas.

Nuno Rocha Morais

sábado, 16 de fevereiro de 2019






Caras inexistências, rostos do éter,
Não troceis dos padecimentos humanos,
Pois ninguém está a salvo de nascer.

Nuno Rocha Morais

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019



De novo a chuva balbucia
Na figura da janela,
Som, som, som
E os nervos do trovão rebentam,
Som, som, som,
Amplos relâmpagos,
Luz, luz, luz.

Regressa também a minha dor,
Alheia a qualquer tempestade,
A dor da vida que não me pergunta nada,
Que não me pede nada,
Que quase parece ver-me como 
Miragem da matéria.

E, de súbito, uma ternura plana
Refreia o gume desta mágoa:
O meu lado da dor valerá a pena
Se inundar o teu de flores,
Se eu te puder esconder da dor.

Nuno Rocha Morais

domingo, 20 de janeiro de 2019

Espero-te, vinda do fundo do silêncio,
Essa morte viva,
Espero-te enquanto ardo
Na tua imagem que envolve
O coração da música,
A travessia dos violinos,
A ave ferida do canto,
A tempestade que a si mesma se devora
E a si mesma se sacia,
A harpa que se estende
Como uma praia.
Espero-te na sonolenta calmaria,
Espero-te sendo silêncio.

Nuno Rocha Morais

sábado, 12 de janeiro de 2019














         A noite chega, nascem baldios lunares
Vejo-te afastar, caminhas para o carro
A manquejar de um joelho,
Subitamente pequena e frágil,
E eu morro noutra direcção.
O amor que já perdido levo em mim,
O amor pelos cafés em pedaços escondido,
Podia salvar dez ou cem vezes
Este mundo de todo o desamor,
Ou talvez não: também o amor é opinião.
A ausência avançou com a noite,
O teu cansaço poderia deter ciclones,
Mas esta dor não vencerá nada,
Não seria capaz de agitar uma folha,
E, sendo tão real, não é sequer um grão.
Caminhas para o carro,
Vou-me fechando com a noite,
Fechando e partindo, fechando e acabando.
O ar é de uma salsugem ferruginosa
E eis o que fica – inverno e cimento.

Nuno Rocha Morais

sábado, 5 de janeiro de 2019

Eu sei que não há rostos eternamente rectos,
Rostos eternamente planos,
Que lentamente o tempo deixa os seus sulcos,
Curvas das mágoas,
Certezas de paisagens esvaídas, concluídas;
Eu sei que todos os rostos
São meteoros sobre a matéria da pele,
Que a fonte das feições é fugaz;
E sei que lamentar o acaso do rosto
É absurdo, pois que no rosto envelhecido
É outro o desembarque da juventude.

Nuno Rocha Morais

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...