Aí está, Marco Aurélio,
um homem indefeso
Perante as necessidades
do Império,
Um homem que apenas
queria uma vida
Entre quatro paredes,
algumas ruas, uns poucos rostos,
Não esta imensidão
viva,
Onde o latim é bombeado
como sangue
E como sangue repelido.
Aqui está um homem
perfeitamente comum,
Entre as coortes, atrás
de um estandarte,
A glória há-de ser só
umas jeiras de terra,
Não mais, Marco Aurélio,
não mais
E vê como esse homem
fraqueja,
Amaldiçoa, chora, como
lhe pesa
O pilo, o elmo, o escudo,
a marcha,
Como tem fome e tem
sede,
Como o seu corpo teme
igualmente
O calor e o frio. Não é
um estóico,
Não é uma pedra de um
império senil,
É um homem, quer vinho
e mulheres,
Precisa periodicamente
de não ser razoável,
De assassinar a
equanimidade
E por isso será cobarde
ou terá coragem.
Perdoa-lhe, Marco Aurélio:
És o imperador, ele
segue-te,
Sem filosofia e, às
vezes, sem deuses,
É só um homem.
Nuno Rocha Morais