sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Digo mãe para que o galo
Não cante uma terceira vez
E um abandono me cerque e reclame.
Digo mãe quando uma tristeza
Profunda me sulca,
Faz de mim a sua rota.
Digo mãe para que um tempo
De jardins solares me invada,
Para que um voo seja ateado
Pelas pautas de luz criadas
Pela palavra mãe.
Digo mãe quando procuro
Uma outra leveza.
Digo mãe para que haja
Um país de dunas.

Nuno Rocha Morais

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Homenagem ao Nuno pelo escritor LUÍS OSÓRIO

Uma enorme alegria... (outra)

Conheci a sua poesia agora. E depois de acabar GALERIA questionei-me do que não sei. Quantos grandes poetas, escritores, cineastas, pintores me são desconhecidos? E portugueses, quantos? Nuno Rocha Morais é um dos grandes poetas contemporâneos, como poderá não o ser se acabo de ler alguns dos poemas que mais impacto me causaram nos últimos anos? Infelizmente morreu aos 34 anos, uma tragédia. E como ele próprio escreveu: "Há poetas tão grandes/que nem a sua morte se ouve". 
Um beijo à minha amiga Maria Elisabete Rocha Morais, sua mãe. Ele está vivo, existirá para sempre.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Também os nomes não morrem,
Mas transformam-se
E, constantemente, emergem
Da morte que não possuem,
Banhados noutras formas.
Por isso, poderás negar-me,
Dissolver-me nas viagens
De pássaros agudos,
Porque eu volto,
Volto com o sol do sul,
Arrastado nas turbulentas águas
Das migrações,
Volto com o vento jovem,
Liso e límpido
Que chama Março
Da sua hibernação no tempo.
Diz folhas, diz dunas, diz frutos,
O meu nome nasce desses nomes,
O meu nome tem raízes nesses nomes,
Diz dedos, diz fragas, diz águas,
Diz ondulação, diz chuva, diz curva...

Nuno Rocha Morais

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Hoje tive uma alegria! 
Começamos bem o ano e espero não ficar por aqui... 
Saiu o livro "Os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos" organizado por José Mário Silva e na página 51 temos o poema do Nuno "Convite à Senhora Bishop"



Poema de fim de ano


Todos os relógios sustêm a respiração
Ante o momento que poderá não vir.
A seiva para o passo seguinte é vital,
Nascituro perfil da terra que não se divisa.
Este é o momento em que os milénios
Correm ao encontro
Do segundo humilde que os faz existir.
O momento chegou e renovou-se
A ilusão de solo firme
E parece que o tempo
Cessou a gestação do fim
É um novo ano, mas começa sem ti
Há esta violência do passado
Contra um dia que o não conhece,
Um dia, um ano que, cego,
Abre outros veios,
Um dia que não reconhece quem somos,
O que passámos para suceder a nós próprios
E, dia a dia, reconquistarmos um lugar
Nas nossas próprias vidas –
E rasga, lacera.

Nuno Rocha Morais

domingo, 24 de dezembro de 2017

Hoje, é dia de Natal e, não sei,
Talvez estivesse só,
Se não fosse uma gaivota
Que repete círculos
Num céu estranhamente baixo,
Ela, como eu, longe do mar.
Ando por estas ruas distraídas
Que hoje me levariam a qualquer vida,
Ruas leves, à deriva, sem deus,
Um deus dissoluto, disperso em rituais,
Intocável a qualquer prece.
Há uma solidão que se espraia em mim,
Como um baldio, um descampado,
A infância faz força, pressurosa,
Contra o pensamento.
Não a deixo vir.

Nuno Rocha Morais

domingo, 17 de dezembro de 2017

“Meditações”

Aí está, Marco Aurélio, um homem indefeso
Perante as necessidades do Império,
Um homem que apenas queria uma vida
Entre quatro paredes, algumas ruas, uns poucos rostos,
Não esta imensidão viva,
Onde o latim é bombeado como sangue
E como sangue repelido.
Aqui está um homem perfeitamente comum,
Entre as coortes, atrás de um estandarte,
A glória há-de ser só umas jeiras de terra,
Não mais, Marco Aurélio, não mais
E vê como esse homem fraqueja,
Amaldiçoa, chora, como lhe pesa
O pilo, o elmo, o escudo, a marcha,
Como tem fome e tem sede,
Como o seu corpo teme igualmente
O calor e o frio. Não é um estóico,
Não é uma pedra de um império senil,
É um homem, quer vinho e mulheres,
Precisa periodicamente de não ser razoável,
De assassinar a equanimidade
E por isso será cobarde ou terá coragem.
Perdoa-lhe, Marco Aurélio:
És o imperador, ele segue-te,
Sem filosofia e, às vezes, sem deuses,
É só um homem.

Nuno Rocha Morais

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...