sábado, 19 de dezembro de 2015


O Inverno vai ser cruel e tu tens razão.
Fiquei até ao fim, quando já não me querias
Não te abandonei quando me abandonaste
E agora não me posso defender,
Não posso dizer uma palavra.
Perdi os amigos, perdi o espírito,
Vendi a minha alma a um demónio de passagem
Para poder ficar ao teu lado,
Para te continuar a seguir,
Mas foste tu que partiste, e assim me querias,
Desprendido e distante.
Mas, mesmo o abismo não basta
Para me separar de ti,
Nem sequer este dentro de mim.
Esqueces já tudo, até encontros futuros
Marcados talvez por dias que perdemos
É por isso que um bebé não dorme no meu colo,
Perturbado pela minha escuridão.
Sim, sou um cobarde, o dia é irreversível,
Perdoa-me porque, afinal,
Também eu sou humano,
Também eu não vim para ficar
Em nada, em vida nenhuma,
Salvo talvez como fóssil.
Creio que, no fim de tudo,
Não me serão perdoados
Os crimes que cometeram contra mim.

      Nuno Rocha Morais

domingo, 13 de dezembro de 2015


Biografia

Sou treva
E não sei ser dia,
Sou distância
E não sei ser estrada,
Sou grafia
E não sei ter sentido.

 Nuno Rocha Morais

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Sei de alguém aí,
Saber ténue, ensombrado
Por opaca ignorância, imensa.
Sei uma face – qual? –
Do outro lado da palavra,
No outro pólo do silêncio.
Entre nós, a navegação da página.
Quem és? Quanto porás de ti
Na arquitectura deste verso?
Como povoarás as suas clareiras de sombra?
Quanto de ti fossilizado neste verso?
Que relevo na tua alma?
Nada me dirás, eu que para ti
Também não tenho rosto,
Distante, maquinal, extremo.
Nada me dirás, a mim
Que concentrei esta palavra
Sonhando-te.

Nuno Rocha Morais

domingo, 29 de novembro de 2015

 Atravessei a sucessão de cavernas
E eram as conchas das suas mãos.
Não sabia que a escuridão
Denunciava o seu desvelo.
Ignorei o carpir das pedras,
Saí indemne para a luz
Ignorando que a sua alegria
Me recebia, radiosa;
Apenas sentia, obscuramente,
Que todos os perigos eram meus aliados,
Que todos os alarmes me eram fiéis;
Elas intercediam, secretas e fui hóspede
Das malas-artes da fadiga extrema
E o vinagre bastou para me matar a sede.
Eu sabia, de ciência cega,
Que a força das mães me erguia
Para o alto, para o humano,
Sem incomodar os anjos.

Nuno Rocha Morais

domingo, 22 de novembro de 2015

O cerimonial da manhã,
O mundo que invade
A noite da casa,
Compondo-se, traço a traço:
O cheiro do café,
O cheiro aveludado da fruta
Quando se entra na sala,
Cheiro macio como se pele,
A luz que se vai rasgando
E quanto mais se rasga,
Mais se tece,
Os pássaros pelas pautas da manhã –
O mundo num incêndio de ritos.
No entanto, eu espero outro mundo,
Um mundo perdido, submerso
Na ausência dessa mulher
Que jamais poderia ter ficado aqui.
Mas eu espero-a,
Faço do silêncio uma profecia,
Uma curva pela qual ela virá,
Uma maré que atravessou luas
E, onda a onda, aporta na praia.

Nuno Rocha Morais

domingo, 15 de novembro de 2015

FALA DE JASÃO A MEDEIA


“— Já nenhuma razão te assiste, ó vil
Assassina da tua própria carne.
Os deuses que te deram a beber
A sede da vingança não te ajudam:
Guiam agora o gume desta espada,
Cujo fio é justiça infalível.
Não te temo, ó mal livre e desgrenhado
Feiticeira da sombra e da serpente,
Pois quanta dor podias dar já deste.
Toda a morte possível devorou
A fonte já esgotada do meu peito.
Não te dará o medo mais poder,
Nem poderá abafar todo o meu ódio.
Subirei os degraus como a maré
Certa do seu destino e morrerás,
Medeia, e guarda algum te salvará…
Amei-te, mas o amor é como as dunas
E, lentamente, cede à mão do vento,
Vendo-se outros cabelos, outras mãos;
Amei-te, mas é breve a travessia
Desde a luz do amor ao carvão do ódio.
Sim, morrerás, Medeia, morrerás
E não terás descanso sepulcral,
Nem sequer na raiz do esquecimento.
O teu nome há-de ser todo o veneno
Que tão odiadas faz as vis serpentes”.
     
     Nuno Rocha Morais

domingo, 1 de novembro de 2015

Resposta a um certo Kaspar Hansa


As tentações que ofereço são risíveis,
Não sei corromper, sendo eu tão corruptível
Pela minha credulidade consciente.
Não sei ser de outro modo:
Já me chamaram bom,
Mas creio que isso é um equivoco
Tão grande, tão grande
Como me julgarem dissimulado,
Maléfico, inofensivo.
Todos são, em algum momento,
Eleitos, chamados,
Mas só o inevitável me elege.
Sou um homenzinho de gostos simples,
As horas do dia que prefiro
São a manhã, a tarde e a noite.
Tenho o coração tão vazio
Que nele não me cabe sequer
O sopro de uma desilusão.

Nuno Rocha Morais

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...