domingo, 3 de maio de 2015

Mãe



A mãe dizia-lhe: o que não vires,
Escreve; o que não puderes,
Escreve. O que não escreveres
Será o que realmente viste e pudeste.
Agora sobre o pórfiro do céu,
Recomeça com aquilo que começou,
O barro mais elementar
E o leite mais necessário
Até ao fim – as palavras da mãe,
Agora que todo o outro amor é nada
E se recusa a abrir,
Tantas cidades e partida nenhuma,
Num abandono ainda quente.
Em pensamento, a mãe vem lamber-lhe as feridas,
Depois, talvez fique de novo o voo aflito
Perante demasiado espaço
E por toda a parte se ouça, ardente,
O arco sussurrante de uma voz –
Vem morrer –
Mas, se cair, há-de recomeçar,
Repetindo, repetindo sempre,
A única palavra que o salva: mãe
Desde o princípio, contra o fim.


Nuno Rocha Morais










sábado, 25 de abril de 2015






Há uma outra excelência nas cidades
Que têm um rio por alma,
Cidades aéreas e viageiras
Onde até a pedra é volátil,
Corpo nómada.
Desçamos ao cais: O rio à cintura da cidade
As frontarias das casas estão escurecidas
Pela humidade do tempo,
Mas há aqui um prenúncio de passado,
Uma história emergindo da obscuridade
Como a linha da terra emerge
Do horizonte estéril.
Todas as noites, todos os séculos
Se abeiram e aportam aqui
Podemos ouvi-los falar –
E até ver a sua fé cravejada de especiarias, ouro,
Sentir a fragrância dos mortos,
Os seus corpos atravessados
Pelo vento que vem do mar,
E entendemos estes séculos,
Aqui reunidos em consílio.
Partem, majestosos, sobem o rio
Mas deixam sempre vestígios,
Continuamente o passado
Visita o presente e o altera.
E é estranho que as coisas que não conhecemos
Não sejam irreconhecíveis.
As cidades com um rio por alma
Viajam, barcos para subir o esquecimento,

E é estranho que as tenhamos como nossas.

                                                            Nuno Rocha Morais



domingo, 19 de abril de 2015

Sorrisos para Mona Lisa



I
 O sorriso insondável
 Revelação sem evidência,

II
Se uma mulher feliz,
Se traída, se melancólica,
Se jubilante, se terna –
Nunca com tal intensidade
Um sorriso foi tão pouco:
Um sorriso para que nunca saibam
Quem fui, quem sou.

III
Sorrio-me talvez para vós,
Que me mirais
E estais mortos.

IV
Atraiçoei a minha linhagem,
Entreguei-me nos braços de um amante vil –
Este estar aqui –
Por ódio, por ódio;
De ódio é este sorriso
E os olhos semicerrados.

V
Ou a fadiga
De que nunca sabereis,
Convencional esposa
E mãe e trapo,
Por sorriso só esta fadiga
De que nunca sabereis.

VI
Nada entreabre de mim
O sorriso que nem é meu,
Mas uma gentileza do pintor.

VII
E eu saberei
Tudo de vós,
Por isso sorrio.






Nuno Rocha Morais







domingo, 12 de abril de 2015

Os avós

O sol entra secretamente pela janela
E deixa impressões semióticas na parede
Luz coada por cortinas de histórias.
O avô pega em mim e senta-me
Nos joelhos da marmelada quente
Que a avó criava com mãos alquímicas.
Gatos de cheiro andam por cima dos móveis,
Cheiros como passos rangentes
No chão de mistério de corredores solenes
Guiando à antiguidade da escuridão.
O Joli ladra – chegou o Inverno
Que invade a casa, arrefecendo-lhe o silêncio.
O Black abre a porta – que gato!
O avô cuidava das laranjas,
Eu, atrás dele, enterrando secretamente a minha infância.
Depois, à noite, a avó contava-me a mim e às lâmpadas,
Porque é que não estudou alem da 4ªclasse,
E eu dormia, de rosto encostado à ternura dos avós.
(O avô fumava Definitivos e a noite não era definitiva
Iam-me murmurando os olhos de cor,
                   O avô, na tropa, disparando um canhão.)


                     Nuno Rocha Morais

                    Poemas Sociais (2019)




sábado, 21 de março de 2015






Pronto, deixem-me, amanhã, vou sair de casa,
Tenho vinte e cinco anos e fiz ontem
Anos de morto, amanhã vou ter fome,
Amanhã, não vou ter nada senão versos
E neles estarei irremediavelmente só
Com os objectos que ninguém cantou,
Com os baldes, os cinzeiros,
Amanhã, vou lembrar-me do pai, da mãe, do irmão,
Dos avós, dos tios, das primas e primos,
Amanhã, terá sido tão fácil tê-los perdido,
Terá sido tão fácil ter arcado com o ódio granítico dos amigos,
Amanhã, já ninguém me ama, a barba esconde-me o nome,
Amanhã, a minha alma desabou e isto não quer dizer nada,
Para quê falar desse amanhã de madeira podre?
Amanhã, vou aprender a lamber feridas,
A perder o pudor quanto ao sangue,
Amanhã, a vida vai matar demasiado lentamente,
Mas isso não importa rigorosamente nada,
As vidas vão continuar, apressadas e prosaicas,
Sob um céu indiferente, sob esparsas e poéticas aves.


Nuno Rocha Morais

                                   


domingo, 1 de março de 2015

O crepúsculo ajoelha sobre o mar,
Num brocado de luz e água e sal.
Há só uma gota de dia para cada gota de mar
E sob o marulho há um silêncio oculto, subtil
Que concede esse som do mar
Que vai e volta, que volta e vai,
Um som aveludado que em nada
Perturba o reino do silêncio
(será que alguém espera palmas)
Que cresce e cresce e cresce.
Porque agora é noite,
A noite que como Penélope
Irá desfiar os caminhos,
Apagar os rastos que neles sobrevivem.
E um esquecimento esbaterá
As formas que contornam a matéria.
Um fim ofegante está mais e mais próximo
E depois o fim pacificar-se-á no silêncio.
O silêncio de um fim é o princípio.


                     Nuno Rocha Morais





sábado, 14 de fevereiro de 2015

Comovem-se. Já é alguma coisa.
Porque talvez os matadouros e aviários
Sejam imagens demasiado perfeitas
Dos nossos pensamentos, afectos, almas,
Comovem-se, sentindo-se expostos,
Provados nessa agonia
De pios e mugidos. Comovem-se,
Mas logo acorre nas almas
A escarninha brevidade dos fósforos.


                     Nuno Rocha Morais


Filosofia   É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...