domingo, 26 de fevereiro de 2023

Antecipação


Nenhum frémito trila

Na espera tranquila

Espera esfinge

Espera calada

Espera desalentada

Como se a espera à espera

Já se soubesse falhada

Como se diante da ânsia

Que se despoletava a cada vulto

Na curva a espera

Já soubesse quem era

E quem não era


Nuno Rocha Morais

domingo, 19 de fevereiro de 2023

Le Moi Haissable


Pergunta-lhe, nada te dirá.
Decides, pois, segui-lo,

Sabes que está algures à tua frente,

Mas também atrás de ti

E que caminha ao teu lado.

Tece-se quando o desteces

E cresce no movimento inverso.

Abre-lhes as portas e ele fecha-as.

Às vezes, gostarias de o matar

Ou apenas de lhe ver o rosto inteiro

A uma luz inequívoca,

Saber, afinal, quais são

Realmente os seus olhos.

Odiaste-o tanto, tantas vezes

A sua existência te pareceu imperdoável.

Esgotarão ao mesmo tempo 

O círculo em que se perseguem,

E as forças. Reunir-se-ão,

Por fim, junto a um tronco

Rugosos e sem folhas.

Irão enfim falar,

Quando já nada há para dizer

Com o sol que declina. 


Nuno Rocha Morais

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023


Alguns homens sentem-se por vezes
Caules roxos, roídos pelo remorso,

Como se todo o ódio

Fosse um clarão da sua vontade

Ou da sua emoção encapelada,

Como se o instante que as aves

Ocupam no céu,

A sua fugacidade e dissolução

No espaço, a ruptura do seu canto

Fosse culpa sua.

 

Alguns homens sentem-se culpados

Das auroras revolvidas pelo fumo

E pelas mãos encerradas da ternura.

Alguns homens sentem-se por vezes

Culpados de todo o silêncio letal.

 

E não o serão?


Nuno Rocha Morais

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Eles partiram, sem saudade,

Com uma brisa azul no sangue.

Partiram para dar relevo 

E sensação ao mapa das coisas estranhas,

Partiram para afogar monstros

Apenas com a direcção do olhar.

Ao longo das bússolas,

As ilhas e os continentes brotaram.

Os homens naufragaram alguns das suas vidas,

Mas não surgiu nenhum monstro,

Todos os cabos se deram por vencidos

E entregaram a curva na mão dos homens.

O mais difícil foi partir,

Foi dobrar o cabo do coração.


Nuno Rocha Morais
 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Chega sempre essa idade em que se parte
E adeus de mãe, p’ra trás fica Sião.
Procuramos da vida nossa a arte:
Em cada dia cresce o coração.

 

Sião é mais e mais uma memória,

Paisagem que não mais será a nossa

E é por isso que a seca vida inglória

Deveio o lugar onde se remoça.

 

A morte, a quem dobramos a cerviz,

Só em Sião as águas matam sedes,

Só em Sião a sombra cai dos ramos.

 

Só em Sião o tempo foi feliz:

Presas jovens do sonho e suas redes

Velhos, é por Sião que hoje choramos.


Nuno Rocha Morais

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023



A terra perscruta o vento,

Procura entender-me,

Escolhe-me uma alma,

Quem sou? quem és?

Tantos lugares e nenhum,

Tantas formas e nenhuma,

Não me entendas, não me entendas,

Aí é a tua casa.


Nuno Rocha Morais                                                                                   

domingo, 22 de janeiro de 2023

Rosto de uma condenada (da Cadeia da Relação do Porto)


De que causas emergem estes olhos,

Desferindo o seu negro a direito,

Ninguém sabe. Nada se sabe do desfecho

Desta mulher de cenho franzido

E cabelo desgrenhado, de número ao peito,

Miúda, tisnada por muitos mais sóis

Que se queimam na agrura.

Este rosto recusa-se a não ter feito nada,

Despreza as expressões destiladas, insípidas,

Como o arrependimento ou a piedade.

Lança-se, irremediável, no poço do seu crime,

Juntando-se à contumácia das luas,

Que preferem perder-se nas águas

À existência insípida na ficção de um céu.

No fundo, a vida dessas damas,

Adereços em casas burguesas,

Entre almofadas, reposteiros, lavores,

Um pouco pálidas, um pouco consumptas,

Não mais do que o necessário ao seu encanto;

Damas canoras, à maneira italiana em voga,

Nas tristezas, histerias e prantos.

No entanto, esta mulher prefere a culpa

De não acreditar no juízo

E muito menos na injustiça,

Essa desordem consoladora.

Se pensa em alguma coisa,

Não pensa nisso.

Por um segmento de instante,

Talvez fosse possível passar os dedos

E sentir o relevo de uma aflição,

Latente e, porém, distante. 

Mas então, logo este rosto duro

Dissipa os dedos:

Imagens vindouras não podem julgar. 


Nuno Rocha Morais

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...