domingo, 20 de julho de 2025

Come In (Entre)


Chegando ao limiar do bosque,

Canto de tordo – atento!

Se agora era o acaso fora,

Estava já escuro dentro.

 

Já muito escuro para a ave,

Embora no bosque voasse

Mudando o pouso para a noite,

Embora ainda cantasse.


O último dos raios de sol

Que a oeste estava morto

Para uma canção mais vivia

No peito deste tordo.

 

Lá ao longe, no escuro erguido,

A música no ar –

Quase um apelo a que entrasse

No escuro para chorar.

 

Mas não, eu procurava estrelas... 



Nuno Rocha Morais

sábado, 12 de julho de 2025

És esperada 
Como uma safra de abundância,

Como um céu novo

No fundo da manhã

Para desvanecer

As trevas da agonia.

És esperada

Como a inspiração das águas,

Como a brisa que reverdece

O silêncio queimado.


                                        Nuno Rocha Morais

sábado, 5 de julho de 2025

Obsessão

 Bendita a morte,


Se consente que a não saibamos,

Maldita a vida,

Se consciência de acabarmos.

 

Nuno Rocha Morais

domingo, 29 de junho de 2025

Deixo que a tua fala me toque,
Aponte onde não havia água

A fonte e me descubra

Onde eu não existia

Persiste a tua imagem

À tona das sílabas de um adeus,

Que se espaçam e endurecem.

Deixo-me arrastar para o nascimento

Irresistível para que a tua fala me convoca,

Desaguando na luz brutal

O primeiro calor demonstra no meu corpo,

O meu sangue exprime-se, delimita

A sua primeira morada dentro do amor. 


                                                Nuno Rocha Morais

sábado, 21 de junho de 2025


 A erosão de um pacto,

O real anestesiado,

Tu e eu, suspensos

E este som incessante

De vidro que se parte.

A febre exuma um delírio,

Amanhã não é o futuro, não ainda.


Nuno Rocha Morais

sábado, 14 de junho de 2025


As contracções,

A ira de Deus,

O sangue da maçã mordida,

A serpente enroscada

No pescoço que aperta

E aperta,

A fractura da identidade,

A deriva pelo medo.

A luminosa e uterina treva

Que se desvanece

E dá lugar à escuridão da luz

Do primeiro dia.

Criado para apenas perceber

O lacunar silêncio

De tudo o que se perdeu.

 

Nuno Rocha Morais

sábado, 7 de junho de 2025

Instruções para a morte

 1.

Imortal 

É toda a vida 

Que não temos.

 

2.

Sem ensaios

A nossa morte.

 

3.

Suspeita quando o teu corpo

Te disser que é só sono

E o sono, sempre,

Que ainda não é manhã.

 

4.

As formas do tempo:

Coisas, nós,

Princípios e fins.

 

5.

Rasgámos

A seda do eclipse.

A treva é ainda maior. 


             (Aparentemente, um poeta é uma entidade que gosta da morte.  

            A cada poema, parece que renasce a contragosto, parece perguntar: para quê, porquê perturbando-me, criando-me? A resposta, ainda ninguém a ouviu. Ou ouviu-se variamente e a verdadeira, ou verdadeiras, se as há, estão perdidas nesse transe de confusão.)

Nuno Rocha Morais

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...