domingo, 19 de maio de 2024

Enquanto dura o teu perfume –

A silhueta sem objecto,

Os contornos da tua ausência,

Como se um simples procurar-te

Fosse nefasto, tanto como olhar para trás –

Enquanto dura o teu perfume,

Vou sentar-me contigo,

Deixar o tempo espiralar-se

Para não ser já tarde ou cedo,

Sentir como a memória forma,

Num silêncio artífice,

As suas grutas insidiosas,

As suas nuvens demoradas.

Vou sentar-me contigo,

Sem medo, a ouvir o sorvedouro.


Nuno Rocha Morais


sábado, 11 de maio de 2024

Falo contigo, ou antes,
Como da tua mão

E, se não olho, são

Penas os meus dedos

E asas os braços

Que desaprenderam

Toda a leveza.

Falo contigo

À procura de sementes,

De grão em solo duro,

Aspereza avara,

Rio-me porque engana

O rebrilho de berloques

Que levo e nada valem

Para a minha fome.

É triste, enreda-me o frio

Quando falo contigo,

Enredou-me o frio

Nesse ninho ao telefone.


Nuno Rocha Morais 

sábado, 4 de maio de 2024


Onde estais versos magníficos,
Cantos de fachada belíssima,

Naves de silêncio imponente,

Palavras que ultrapassam o tempo,

Onde estais, que apenas vejo

Versos apodrecidos, que nem vão

Além da página que facilmente os doma?

Onde o vento, onde os sinos,

Onde as janelas que, todas somadas,

Fariam o poema sublime

Que nem o esquecimento de uma Eternidade inteira

O poderia dissolver em mudez?

Onde o verso, barco acordado e invencível,

Que só vejo o momento seco de um cardo?

Onde a beleza, sendo a única que diviso

A que resta de um sonho em ruínas?

Inexoravelmente, o meu verso

Se divide no espaço

E retorna ao peso do silêncio,

Aprisionado no centro de uma idade.


Nuno Rocha Morais 

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Deram-nos uma liberdade de cravos

Desenterrada dos mais sombrios tempos –

Crónica da memória –

Liberdade pisada, amarfanhada

Nas profundezas das mãos 

Já lucífugas do temor;

 

Deram-nos esta liberdade,

Aragem exalada por certas vozes –

Zeca Afonso, “Grândola”.

Energia borbulhante nos pulsos,

Ergueram-se do ser fantasma,

Fachada já fendida.

 

Esta liberdade que nos deram

Celebrada em pombas transparentes

Nos fugazes dias orquestrados pela euforia.

Mas a liberdade que nos deram não é nossa,

Embora nas nossas veias seja ela a alígera

Que nos concede direito à claridade.

 

Não é nossa a liberdade que assenta em símbolos

Que são na alma dos nossos pais ecos

De insubmissão e vitória,

Pois que cada geração tem de esburgar

O seu querer, a sua liberdade de navegar

E buscar a sua liberdade.

 

Geração sem liberdade conquistada,

Rosa gerada submergida na lacuna

De estar ainda por abrir.


Nuno Rocha Morais
 

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Como dói o ignorado humano.

Vou, então, procurar

Algo semelhante a ternura:

O vapor de um chá,

A lembrança de um papel antigo no bolso,

O que resta de vento lá fora.

Um mar sem praias ou precedentes,

Viagem pura, amor sem margem,

Corrente que mergulha na água esgotada.


Nuno Rocha Morais 

(Poemas dos Dias 2022)
 

domingo, 14 de abril de 2024

Encruzilhadas


Brisas de figuras,

Cada uma leve direcção

Onde uma sabedoria se desvanece,

Onde uma sabedoria nasce.

No espaço que a espaço se reduz

E a espaço se ergue

Uma forma toma um conceito,

Como a terra envolve uma semente,

Como a morte à vida recebe,

Como a vida a morte recomeça.


Nuno Rocha Morais 

domingo, 7 de abril de 2024

 


Amamos de muitos amores

E morremos de muitas mortes.

Somos naturalmente múltiplos,

E múltiplos de nós mesmos,

De muitos que nem sequer sabemos.


Nuno Rocha Morais 

(Poemas dos Dias) 2022 

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...