domingo, 22 de outubro de 2023

Mudança

 

O meu velho relógio,

Aquele que assistiu à infância,

Que consumiu as horas felizes,

Parou.

 

O meu velho relógio é o local

Onde o tempo é uma sombra vazia,

Onde os dias são velas arriadas.

      O meu tempo é agora outro. 


    Nuno Rocha Morais

    (Poemas dos Dias 2022)

domingo, 15 de outubro de 2023

Quadro



O crepúsculo demora-se a esboçar

Nos longínquos céus tons impressionistas.

 

O dia termina e deixa ao relento 

Cachos de cadáveres,

Homens e cavalos de olhos vazados 

Por uma expressão vazia, polar.

O sangue já se cansou e parou de correr.

 

O ar, cortado todo o dia 

Pelas lâminas dos gritos,

Pelos gritos metálicos das lâminas que se encontram,

Pelo ódio a que outro ódio responde,

É agora plácido, pacífico.

Foi precisa a morte de todos estes homens

Para que houvesse paz.

 

E nenhum destes que aqui caiu,

Sorvido inteiro num esgar de dor,

Há-de encontrar o descanso

Da vitória ou da derrota:

Para os mortos só há a morte. 


Nuno Rocha Morais

Poemas dos dias (2022)

domingo, 8 de outubro de 2023

Noções de Linguística Aplicada


Um sujeito de bruma,

Um agente chamado poeta

Que rema contra os rumos,

Um predicado múltiplo, estilhaçado,

Precário e eterno,

Um retorno a lado algum,

Memória do imemorável,

Semente de uma qualquer consciência afogada.

Objecto directo como um polvo de cores,

Um relâmpago de gestos,

A fugacidade de uma permanência,

A superfície como um buraco

Esboroando-se lenta, lentamente.

Objecto indirecto a amada,

Incerta, distante, onírica, imaginada,

Próxima, terna.

Obliquo, um complemento circunstancial de silêncio,

Um tempo construído nas palavras,

Um modo mutável, quase miragem.

Um meio de voz, a voz profanando,

A causa, a sede desesperada das estrelas invisíveis

Mas nítidas, e este é o fim,

Porque fim não é síntese, não é completude

De nada ou ninguém.

Sem companhia, um sujeito transforma,

Faz emergir da estrutura de superfície

A estrutura profunda

Destruindo a gramática do pó,

Destruindo linguísticas, sintaxes, morfologias,

Queimando as palavras hieráticas,

Mantendo apenas viva na lembrança a arte de esquecer.



Nuno Rocha Morais 

(Poemas dos dias - 2022)

domingo, 1 de outubro de 2023

Assim vivo

E procuro desesperadamente o meu destino,

O caminho certo,

A direcção tutelar,

A safra útil.

Vivo em busca do destino

Para evitar os momentos adversativos

E condicionais,

Os terríveis “se’s” que suspendem

Os passos e os sonhos.

A mim o meu destino,

A mim a minha morte

                                      De uma vida cumprida.


Nuno Rocha Morais
 

domingo, 24 de setembro de 2023

Temos apenas os sonhos

Em que somos reais

Da face visível da lua.

Porém, talvez do outro lado,

Tu me ames

E o crepúsculo desabe sobre as águas

Plácido, entregando-se

Numa certeza feliz.

Assim também nós,

Dentro dos corpos buscando a ceifa

Em lunações maduras,

Estações humosas.

Talvez do outro lado da lua

Os regressos e os caminhos

Já não estejam desencontrados,

Talvez do outro lado, talvez aí.

No entanto, esse lugar

Está no centro do tempo que morre

Sob o tempo em que vivemos.


Nuno Rocha Morais

 

 

  

quinta-feira, 14 de setembro de 2023


 Tu e eu – isto, sob o sol imperturbável,

As noites mais longas, os dias mais inúteis,

E mais nada, só isto, sem elegia,

Tudo lentamente engolido pelo passado

E, sob a leve película da memória,

Quando mais se diria de água,

Afundam-se contornos indistintos, esbracejando,

Tu e eu, enquanto nos habituamos

À nossa condição de náufragos – e afogados.

O amor foi como uma carta,

Igualmente frágil, amarrotado,

Extraviado, deixa o desespero

À cabeceira do fim, que está atrasado,

Se demora, talvez nunca chegue.

Há afinal tanta coisa que não acaba,

Tantas cartas que se continuam a escrever

Muito depois de a mão ter detido

O seu percurso, muito depois de o campo

Estar lavrado, queimado por geada –

Há afinal o próprio amor que não acaba

E murmura tanta coisa que não é sequer memória.

Dirás: viveste afinal quando

Tínhamos prometido morrer?

Não faltei, perjuro, à minha morte,

Esteve sempre contigo.

Que fará de nós o absurdo orgulho

De alta escola, o que de nós

O amor irreparável?



Nuno Rocha Morais

sábado, 2 de setembro de 2023

Em xistosa voz sem pranto,

Falo de partir pelo asfalto

Que alguma tarde me ofereça

Para o outro lado do longe:

Acontece que me canso

Da minha irredutível imperfeição,

Destes erros que insepultos,

Erram em mim e me apontam

E me acusam da sua perdição.

Basta, basta. Falo de me evaporar

De deixar secar em mim o homem,

De deixar mirrar toda a humanidade

Para que, enfim, se possam encontrar

Alguns cristais de divino.


Nuno Rocha Morais

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...