sábado, 2 de setembro de 2023

Em xistosa voz sem pranto,

Falo de partir pelo asfalto

Que alguma tarde me ofereça

Para o outro lado do longe:

Acontece que me canso

Da minha irredutível imperfeição,

Destes erros que insepultos,

Erram em mim e me apontam

E me acusam da sua perdição.

Basta, basta. Falo de me evaporar

De deixar secar em mim o homem,

De deixar mirrar toda a humanidade

Para que, enfim, se possam encontrar

Alguns cristais de divino.


Nuno Rocha Morais

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

 Aprenderei primeiro os meus passos,

A equilibrar-me no silêncio.

Depois, apagarei tudo quanto for sagrado,

Porque nada pode ser sagrado,

Pedirei vento para apagar círios

E pedras para apagar pálpebras

Embriagadas de fé sem razão.

Caminharei, em seguida, junto à praia,

Aprenderei a construção do fogo

Que o mar traz no seio do seu sal,

O fogo na boca, sobretudo na boca.

Irei depois para ti,

Com o meu nome quase vulto,

A carícia quase rumor

E a voz uma noite escuríssima,

Com a lua obnubilada.

Envolto em tanta treva,

Iluminarei, então, toda a nudez oculta.


Nuno Rocha Morais

domingo, 13 de agosto de 2023

 

Pelo poema ressoa,

Cava, a dor do mundo,

A densidade de um excessivo haver

Ou o peso de tanta falta.

 

Nuno Rocha Morais

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


segunda-feira, 7 de agosto de 2023

 Quem és, ó tu

Que povoas o meu verbo?

Presença de um espelho,

O verso caminhante

Que consigo mesmo dialoga?

Quem és? Um sinal dos deuses,

Um chamamento, o arauto

Alguém sonhado?

Quem és, ó tu

Que iluminas o discurso,

Sereno ouvinte,

Paciente estação?

Serás tu o poeta que todo o verso

Na sua torrente cria?

 

Nuno Rocha Morais

sexta-feira, 28 de julho de 2023

Viagem


A noite cai como uma carta.

Viajo no comboio, viajo na noite,

Viajo dentro de mim, pensando-me.

O comboio galga os minutos da distância

E a natureza que, recusando-se

A ser vencida pela máquina

Corre sempre, perseguindo-se a si própria.

Paisagens de sombra e a imaginação delas sobrepõem-se.

A noite cai como uma carta

E perco-me na sua boca

Aberta e negra no horizonte.


Nuno Rocha Morais

domingo, 9 de julho de 2023

Vilnius no fim do Verão

 


É a primeira imagem da nova Europa –

Assim lhe chamam, mas esteve sempre aqui –

Imolada, renascida.

Vytautas, Mindaugas, Barbora Radvilaitè –

A espada e a beleza, a astúcia e a graça.

Aqui, o Verão, mesmo o fim do Verão, é livre ainda,

Corre pela tarde que vem do sânscrito.

As torres acordam com a noite.

O céu esteve muito tempo enterrado,

Mas quando passamos pelas estátuas ao lusco-fusco,

É quase possível sentir a formação de um sorriso,

Como se dentro delas influísse ainda

A instilação de sangue e pó que vem no vento.

A terra bebeu os mortos até à última gota

E devolve-os agora no esplendor do Verão.

Os bosques só crescem nos países livres

E isto não precisa de verdade para ser verdadeiro.

O Inverno vai chegar, mas o Verão não tem medo

E, em Setembro, é ainda ouro, âmbar, espelhos.

Acabou a indiferença da arquitectura,

Agora sensível ao Verão e à luz,

Como será à neve e ao vento.

Uma cidade de pálpebras

Obstinadamente cerradas

Pela indiferença,

O horizonte cortado rente.


Nuno Rocha Morais

 

segunda-feira, 3 de julho de 2023

 Se é possível percorrer um sonho,

Seja então pelo interior pobre

De um grão de café ou cacau,

Numa estrada serpenteando

Por entre bananeiras e barracos ocultos

Pela folhagem voraz.

Se é possível percorrer um sonho,

Seja por uma marginal humilde

Junto a uma enseada,

Com toda a gente a acenar,

Seja um sonho tão real

Como o mar e os tubarões coloniais

Ou a pobreza de uma gota de água

Em que reside toda a libertação.

Se é possível tocar um sonho,

Seja esta chaga luxuriante,

E assim se toque e se creia

Na ilha de S. Tomé,

Gota de chuva, grão de cacau ou café.


 Nuno Rocha Morais

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...