domingo, 13 de agosto de 2023

 

Pelo poema ressoa,

Cava, a dor do mundo,

A densidade de um excessivo haver

Ou o peso de tanta falta.

 

Nuno Rocha Morais

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


segunda-feira, 7 de agosto de 2023

 Quem és, ó tu

Que povoas o meu verbo?

Presença de um espelho,

O verso caminhante

Que consigo mesmo dialoga?

Quem és? Um sinal dos deuses,

Um chamamento, o arauto

Alguém sonhado?

Quem és, ó tu

Que iluminas o discurso,

Sereno ouvinte,

Paciente estação?

Serás tu o poeta que todo o verso

Na sua torrente cria?

 

Nuno Rocha Morais

sexta-feira, 28 de julho de 2023

Viagem


A noite cai como uma carta.

Viajo no comboio, viajo na noite,

Viajo dentro de mim, pensando-me.

O comboio galga os minutos da distância

E a natureza que, recusando-se

A ser vencida pela máquina

Corre sempre, perseguindo-se a si própria.

Paisagens de sombra e a imaginação delas sobrepõem-se.

A noite cai como uma carta

E perco-me na sua boca

Aberta e negra no horizonte.


Nuno Rocha Morais

domingo, 9 de julho de 2023

Vilnius no fim do Verão

 


É a primeira imagem da nova Europa –

Assim lhe chamam, mas esteve sempre aqui –

Imolada, renascida.

Vytautas, Mindaugas, Barbora Radvilaitè –

A espada e a beleza, a astúcia e a graça.

Aqui, o Verão, mesmo o fim do Verão, é livre ainda,

Corre pela tarde que vem do sânscrito.

As torres acordam com a noite.

O céu esteve muito tempo enterrado,

Mas quando passamos pelas estátuas ao lusco-fusco,

É quase possível sentir a formação de um sorriso,

Como se dentro delas influísse ainda

A instilação de sangue e pó que vem no vento.

A terra bebeu os mortos até à última gota

E devolve-os agora no esplendor do Verão.

Os bosques só crescem nos países livres

E isto não precisa de verdade para ser verdadeiro.

O Inverno vai chegar, mas o Verão não tem medo

E, em Setembro, é ainda ouro, âmbar, espelhos.

Acabou a indiferença da arquitectura,

Agora sensível ao Verão e à luz,

Como será à neve e ao vento.

Uma cidade de pálpebras

Obstinadamente cerradas

Pela indiferença,

O horizonte cortado rente.


Nuno Rocha Morais

 

segunda-feira, 3 de julho de 2023

 Se é possível percorrer um sonho,

Seja então pelo interior pobre

De um grão de café ou cacau,

Numa estrada serpenteando

Por entre bananeiras e barracos ocultos

Pela folhagem voraz.

Se é possível percorrer um sonho,

Seja por uma marginal humilde

Junto a uma enseada,

Com toda a gente a acenar,

Seja um sonho tão real

Como o mar e os tubarões coloniais

Ou a pobreza de uma gota de água

Em que reside toda a libertação.

Se é possível tocar um sonho,

Seja esta chaga luxuriante,

E assim se toque e se creia

Na ilha de S. Tomé,

Gota de chuva, grão de cacau ou café.


 Nuno Rocha Morais

terça-feira, 27 de junho de 2023

Do cromossoma cedo o poema

Enflora na voz

E logo eu lamento tê-lo perdido

Pois que nas palavras 

Ele se perde de mim,

Já não tendo criador

Mas criando-se.

Os poemas resultam da necessidade crónica

De perder os dizeres que em mim erram.


Nuno Rocha Morais

quinta-feira, 22 de junho de 2023


Sou, às vezes, a última hora de um homem
E preparo-me para morrer

Encostando ao queixo de adulto

Joelhos de criança

Quebrada por fábulas vazias –

Casas abandonadas,

Pessoas mortas,

Amores ínvios.

E algo em mim pede:

Desiste, por favor, de existir,

Ignora a minha fome, a minha sede,

Leva-as no fogo que se extingue,

Na minha lava que arrefece.

Mas o caminho para ti,

Ainda que nada de ti se adivinhe,

Continua. E eu continuo. 


Nuno Rocha Morais

Filosofia   É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...