Pelo poema ressoa,
Cava, a dor do mundo,
A densidade de um excessivo haver
Ou o peso de tanta falta.
Nuno Rocha Morais
Quem és, ó tu
Presença de um espelho,
O verso caminhante
Que consigo mesmo dialoga?
Quem és? Um sinal dos deuses,
Um chamamento, o arauto
Alguém sonhado?
Quem és, ó tu
Que iluminas o discurso,
Sereno ouvinte,
Paciente estação?
Serás tu o poeta que todo o verso
Na sua torrente cria?
Viajo no comboio, viajo na noite,
Viajo dentro de mim, pensando-me.
O comboio galga os minutos da distância
E a natureza que, recusando-se
A ser vencida pela máquina
Corre sempre, perseguindo-se a si própria.
Paisagens de sombra e a imaginação delas sobrepõem-se.
A noite cai como uma carta
E perco-me na sua boca
Aberta e negra no horizonte.
Nuno Rocha Morais
É a primeira imagem da nova Europa –
Assim lhe chamam, mas esteve sempre aqui –
Imolada, renascida.
Vytautas, Mindaugas, Barbora Radvilaitè –
A espada e a beleza, a astúcia e a graça.
Aqui, o Verão, mesmo o fim do Verão, é livre ainda,
Corre pela tarde que vem do sânscrito.
As torres acordam com a noite.
O céu esteve muito tempo enterrado,
Mas quando passamos pelas estátuas ao lusco-fusco,
É quase possível sentir a formação de um sorriso,
Como se dentro delas influísse ainda
A instilação de sangue e pó que vem no vento.
A terra bebeu os mortos até à última gota
E devolve-os agora no esplendor do Verão.
Os bosques só crescem nos países livres
E isto não precisa de verdade para ser verdadeiro.
O Inverno vai chegar, mas o Verão não tem medo
E, em Setembro, é ainda ouro, âmbar, espelhos.
Acabou a indiferença da arquitectura,
Agora sensível ao Verão e à luz,
Como será à neve e ao vento.
Uma cidade de pálpebras
Obstinadamente cerradas
Pela indiferença,
O horizonte cortado rente.
Nuno Rocha Morais
Seja então pelo interior pobre
De um grão de café ou cacau,
Numa estrada serpenteando
Por entre bananeiras e barracos ocultos
Pela folhagem voraz.
Se é possível percorrer um sonho,
Seja por uma marginal humilde
Junto a uma enseada,
Com toda a gente a acenar,
Seja um sonho tão real
Como o mar e os tubarões coloniais
Ou a pobreza de uma gota de água
Em que reside toda a libertação.
Se é possível tocar um sonho,
Seja esta chaga luxuriante,
E assim se toque e se creia
Na ilha de S. Tomé,
Gota de chuva, grão de cacau ou café.
Encostando ao queixo de adulto
Joelhos de criança
Quebrada por fábulas vazias –
Casas abandonadas,
Pessoas mortas,
Amores ínvios.
E algo em mim pede:
Desiste, por favor, de existir,
Ignora a minha fome, a minha sede,
Leva-as no fogo que se extingue,
Na minha lava que arrefece.
Mas o caminho para ti,
Ainda que nada de ti se adivinhe,
Continua. E eu continuo.
Nuno Rocha Morais
Filosofia É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...