De novo do mar,
Numa zanga superada,
E suponho que, agora,
À mesa de uma esplanada,
O teu riso decreta o Verão.
E uma estação arrefece.
Nuno Rocha Morais
De novo do mar,
Numa zanga superada,
E suponho que, agora,
À mesa de uma esplanada,
O teu riso decreta o Verão.
E uma estação arrefece.
Nuno Rocha Morais
Me tinha abandonado.
Não pedi que afastasse de mim o cálice
Porque eu era o próprio cálice.
Depois da sexta crucificação,
O meu corpo era tao insensível
Às suas chuvas como a terra estéril.
Batiam-me, os seus movimentos
Rasgavam-me, mas eu já estava
Fechada, como flor anoitecida,
Muito longe de mim,
Onde não me podiam alcançar.
Eu sabia que eles voltariam
Ainda muitas vezes,
Mas nem o seu ódio me conseguiu engravidar.
Nuno Rocha Morais
À minha paciência chamarás cobardia
Porque, então, o significado é um extremo –
Para além dele só o abismo.
E, assim, todas as palavras em mim
São indefensáveis, apenas me posso calar.
Mas, então, pelo silêncio, acuso
Ou escondo, ou falseio.
Na verdade, o meu silêncio é uma sucessão
De incisões, de histórias fossilizadas.
Não sei de ti, mas desaprendi a perguntar.
As perguntas sobem ou descem?
O céu é a suspensão de uma coisa,
A terra é a consequência ou vestígio de outra.
Paralelos, pacientes, cobardes,
Jamais se infringem, nada farão um pelo outro.
À mais perfeita indiferença ouvi
Chamarem amor. Talvez fosse.
Sentem algas e é amor.
Pontapés nas costas e é.
Acessos de tosse. Náuseas. E é sempre amor.
À minha paciência chamarás cobardia.
Ao amor, gaiola aberta.
Nada restará de mim nas tuas mãos ténues.
Não perdoarás a paciência,
Não me perdoarás que espere por ti.
Nuno Rocha Morais
Hoje fui completo.
Fiz quanto já tinha feito,
Lavei olhares como louça quebrada,
Pisei corações, ordenhei a luz
Quando a luz pedia noite.
Desenterrei a terra
Quando a terra pedia descanso,
Quis frutos quando a semente morria,
Pontapeei o amor, caguei em seios,
Escaquei horas e vozes.
Fui “merda douta”.
O dia agarrado a mim
Como cicatriz.
Nuno Rocha Morais
No jardim de sempre, então, fiquei a ouvir
O vento em árvores familiares,
O mesmo que ouvimos juntos
Quando na voz as palavras já estão apagadas.
É apenas ouvir o vento em árvores familiares
E eu sinto que a minha casa não me espera, mas se dissipou,
Tão pouco é o que levo de ti.
E talvez por isso hoje o vento me pareça tão carregado,
Como se arrastasse algo mais do que os sons que se libertam da folhagem;
E talvez por isso este jardim de sempre e o ouvir o vento,
Tão familiar em árvores familiares,
Sejam a minha casa, onde posso viver um momento,
Um momento que me chega intacto.
E é uma casa onde sei que te amo o bastante
Para saber que não morreria por ti,
Mas enfrentaria um perigo maior: viver por ti.
Nuno Rocha Morais
A densidade de todas as palavras já escritas,
A corrente que respira, violenta:
É contra ela que remo,
Para encontrar esse leito
De página branca,
Onde todo o voo será meu,
Onde cada vez que a mão ousar,
Não estará a ser sorvida pelo lugar-comum
De uma ousadia (o)usada.
Atravesso todas essas vozes
Que encantam e me pedem que fique
E me sente à sua sombra
A ouvir as suas histórias.
Não posso, não posso:
Mais além é a desova da palavra,
Mais além, sempre mais acima,
Sempre mais fundo.
Em tudo o que já foi dito,
Há algo que ainda não foi dito.
Nuno Rocha Morais
Para começar sento-me num jardim
À procura de um regresso que não se acha –
Túneis e galerias,
Um pais perdido tão facilmente,
Mais leve do que o pó.
Uma tarde para experimentar por fim
A minha vida,
Aquela que julguei a minha pior inimiga,
A que me roubou tudo quanto amei
E pouco me deixou nas mãos –
Mas agora não vale a pena lutar contra ela
E sorrio-me do absurdo que é sabê-lo,
Talvez mais até do que combatê-la.
É com a minha vida que me sento,
Percebendo o seu relevo lacunar –
Alguém deverá ter dito desta fulguração última
Sobre a qual vai ganhando consistência
Um sono imprestável,
Que se converte em crosta e fundura
E assim se me revela:
De nada serve ou adianta que outrora –
Ontem, apenas – um nome tenha sido amor,
O nome que se vai desmantelando
No movimento vagaroso da tarde.
Seja como for, a conta estará certa.
Para acabar, sento-me num jardim.
Ao levantar-me, serei simplesmente o que começa.
Nuno Rocha Morais
Filosofia É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...