"QUE NÃO ACABES NUNCA DE ME ESQUECER"
Nuno Rocha Morais
Trabalho de Aldo Romano
Obrigada Aldo Romano e Manuela Colombo pela vossa oferta
"QUE NÃO ACABES NUNCA DE ME ESQUECER"
Nuno Rocha Morais
Trabalho de Aldo Romano
Obrigada Aldo Romano e Manuela Colombo pela vossa oferta
A mãe dizia-lhe: o que não vires,
Escreve; o que não puderes,
Escreve. O que não escreveres
Será o que realmente viste e pudeste.
Agora sobre o pórfiro do céu,
Recomeça com aquilo que começou,
O barro mais elementar
E o leite mais necessário
Até ao fim – as palavras da mãe,
Agora que todo o outro amor é nada
E se recusa a abrir,
Tantas cidades e partida nenhuma,
Num abandono ainda quente.
Em pensamento, a mãe vem lamber-lhe as feridas,
Depois, talvez fique de novo o voo aflito
Perante demasiado espaço
E por toda a parte se ouça, ardente,
O arco sussurrante de uma voz –
Vem morrer –
Mas, se cair, há-de recomeçar,
Repetindo, repetindo sempre,
A única palavra que o salva: mãe
Desde o princípio, contra o fim.
Nuno rocha Morais
Bolsos com botões, bem entendido –
E vêm com a cara do povo na cara.
Depois, metem a mão no bolso,
Fingindo tirar a opinião do povo,
Mas tiram é a sua verdade e a dos seus,
Porque, espertos, espartilham a voz do povo
E meteram a mão no outro bolso.
Nuno Rocha Morais
Olímpica na sua nudez,
Esta mulher é uma declaração de guerra –
À moralidade burguesa, às regras da arte,
Aos olhos dos homens que fita e rapta
Com desassombro, sem pudor.
Causaram quase igual escândalo
O gato aos pés da cama, de dorso arqueado,
Como arqueado de desejo,
Como se nele encarnasse o próprio monte de Vénus.
O pé descalço e outro molemente calçado
Com a chinelinha de marroquim,
O camafeu sobre os seios, a pulseira de pingente,
Porque nunca uma mulher foi pintada assim,
Sem disfarce místico, sem uma roupagem
Que, apesar da nudez, ainda a revestisse;
Nunca uma mulher foi pintada assim,
Tão à flor de ser mulher.
Nuno Rocha Morais
(Para o Daniel Faria)
Vieste para dizer da magnólia em nós,
Para mostrar um modo à floração delicada,
Cega, e, porém, persistente.
Vieste para iluminar os sinais
De que somos passageiros –
Degraus, botões, casulos,
O chamamento da chuva,
O passo das estações.
Vieste, breve, discreto,
Apenas o tempo necessário
Para em cada mão, em cada concha,
Deixares uma semente de magnólia.
Espera. O abrir-se de cada mão
Descerrará o céu e o mar – espera.
Nuno Rocha Morais
Não quero que os meus filhos nasçam neste mundo
E não há outro senão este,
Que se vai estrangulando no seu próprio ritmo.
Queria que os meus filhos vissem e reconhecessem
Uma galinha, o mar, um ovo,
Uma árvore, o ar amplo
E não apenas o horror do fogo, do crude,
A violência do medo.
Oh, meus filhos, cujo ritmo está já em mim,
Que fazer para que possais respirar?
O nosso deus é um deus impuro,
Eu só posso perguntar, perguntar,
Porque todas as vidas são perguntas
E o que lhes responde é apenas a morte.
Oh, meus filhos, que pressinto já,
Como arranjar um lugar
Onde possais ser a liberdade
De uma árvore, de uma gaivota, do mar?
Não sei o que significa esta dor,
Se é um sinal maldito de tempos malditos
Se rumo para mais dor,
Porque a dor conduz sempre
A um golfo de dor maior.
Mas sei que não vos quero, meus filhos,
Num tempo em que vos chamem
Um número mais entre os malditos.
E se o que desejo para os meus filhos,
De tão simples que foi,
Se tiver tornado impossível –
Dias iguais à vida –
Então, meus filhos, ficai dentro de mim.
Nuno Rocha Morais
Observar os pombos, beber uma cerveja
Enquanto espero pelo Ruy Belo,
Morto em 1978,
Ano em que a sua vida deixou de ser dupla,
Espero pelo Ruy Belo,
Só ele poderá entender
Esta estranha alegria que me envolve
Quando penso que vamos morrer,
Que somos efémeros e não eternos,
Como às vezes a dor parece dizer.
O Ruy Belo há-de vir, conversaremos
E não estaremos mortos nem vivos,
Vou mostrar-lhe um verso de amor
E ele perceberá o que digo
Porque ele sabe que a presença da amada
Nos transforma: de súbito,
Somos belos e todos nos vêem
E todos nos amam.
Tudo isto o Ruy Belo há-de perceber.
Os seus passos não vão afugentar os pombos.
Nuno Rocha Morais
Filosofia É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...