Tenho o coração arruinado,
Cada pulsação é mortal,
Letífera, o meu sangue
Corre como ódio,
Talvez seja ódio já,
Sem que eu saiba como,
Sequer porquê.
Mas certas coisas não se explicam
E eu tenho o coração arruinado.
Nuno Rocha Morais
Passamos pelas ruas sorumbáticas
Dos meus anos de estudante,
Residências e cafés cuja solidão
Procuramos não perturbar com a nossa,
Embora caminhemos juntos,
Embora saibas que te amo,
Embora não te possa estender a mão.
Tanta coisa aconteceu aqui
Taciturnamente, episódios
Mal iluminados por lampiões públicos,
Mas, mesmo nessa penumbra,
Os seus contornos, conheço-os de cor,
Reconstituo-os de memória,
Ainda assim, aqui, entre nós,
Eu não seja capaz sequer de dizer
O que é que não nos aconteceu.
[E do que nos aconteceu,
Não se encontrara caixa negra.]
Nuno Rocha Morais
Como um perfume,
Como a sombra de uma brisa
Na fronde, magia
De uma cor ainda desconhecida,
O mais leve dos meses.
O meu pensamento fragmentou-se
Em ilhas intermitentes
E à deriva, mas creio
Talvez me encontres como um seixo
Depois de no coração
Te terem corrido muitos rios.
Partilharemos então os gomos
De sol que nos restarem.
Nuno Rocha Morais
Até casa, o caminho é uma serpente
Que se alimenta da sua própria substância.
Até lá, é preciso atravessar a fantasmagoria
Dos bastiões e casamatas, fitando com olhos de coruja
Os focos de luz azulada que lhes estão apontados;
É preciso encontrar o espectro que acende o cigarro,
Pigarreia, pede uma indicação e se desvanece,
Os esqueletos de metal dos guindastes,
Como mastodontes num museu de história natural;
É preciso ver cruzar, na distância,
As luzes penadas, desencarnadas, de um comboio,
Ver as chispas torturadas que as suas rodas
Arrancam aos carris;
É preciso sentir a respiração ofegante,
Moribunda, das árvores sob a primeira neve,
Farejando o fim em curso, que as retomará,
Mudado já em princípio iminente;
É preciso ouvir o rumorejar da corrente,
A água que se repete e repete na noite,
Quando os rios da terra são também
Os rios do céu; é preciso ouvir essa água,
O sinal do regresso sem fundo falso,
E então sei que estou em casa.
Nuno Rocha Morais (Últimos Poemas)
Estavas avisado:
Não tinham os filósofos enviado atempadamenteOs pesados abutres da sua sapiência,
Bem nutridos com o infortúnio
Ensinado a incontáveis gerações?
O teu futuro há muito tinha passado por eles,
Já era conhecido e resta-te agora isto,
O diálogo com a tua própria tristeza,
Que nada mais responde senão o que sentes.
A paixão deixou-te o quê da tua vida?
Tens exactamente as mesmas mãos,
Mas parece-te que menos dedos.
Nuno Rocha Morais
Quando parti, a minha mãe não me deu,
Como a mãe de d’Artagnan, esse unguento milagroso,
O bálsamo talvez levemente fétido,
Certamente inútil,
Produto de uma sabedoria
Que ganhou o ranço da ingenuidade.
Como d’Artagnan logo percebeu
Havia dores, feridas, que o bálsamo
Não podia compreender, muito menos mitigar.
O bálsamo que a minha mãe me deu
Vinha dentro de mim,
Esse que, em voz aflautada pela ironia,
Se designa por amor de mãe,
E a sua pureza muito podia
Contra os inúmeros Rocheforts do mundo.
Nuno Rocha Morais
Filosofia É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...