Muito obrigada aos amigos Aldo Romano e Manuela Colombo pela vossa gentil, admirável e honrosa homenagem ao Nunosegunda-feira, 12 de dezembro de 2016
Homenagem do artista plástico ALDO ROMANO a "Biografia" de Nuno Rocha Morais
Muito obrigada aos amigos Aldo Romano e Manuela Colombo pela vossa gentil, admirável e honrosa homenagem ao Nunoquinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Aguardo
outra vida,
A
nova estação, aquela
Em
que te esvaíste
E
na qual hás-de voltar.
E
enquanto não voltas,
A
minha mão deslaça as palavras de Outono,
Desencadeia
o vento
E
há uma nostalgia
Entre
o silêncio que gera esta página
E
uma tempestade que se estorce,
Se
encabrita, se morde pelos céus.
Aguardo
outra vida,
A
claridade, o desabrochar
De
uma nova estação,
A
de abrires aquela porta.
Nuno Rocha Morais
Nuno Rocha Morais
domingo, 27 de novembro de 2016
Eu decidi que haveria um Natal maior
Que as árvores e os presépios e os presentes
E a bondade obrigatória, forçada, engolida.
Eu decidi que o Natal seria um gesto
E não um programa inerte, pendente.
Eu decidi moldar o coração
Num amor para todos
Porque o Gonzaga sabia:
“Eu tenho um coração maior que o mundo.”
Eu decidi ser fiel à estrela
Sufocada no céu convulsionado
Por tantas outras luzes
Eu decidi ser fiel e seguir a estrela
Esquecida
Atraiçoada.
domingo, 20 de novembro de 2016
Folha por folha, sem repetição,
Temem tanto a primavera como o Outono –
Não temem na sua tolerância tenaz,
Na sua constância consciente e desconhecida.
Agora, são um animatógrafo
De folhas, de pássaros, de ventos menores.
Mudam, mudaram, voltarão a mudar,
Sem nunca se perderem.
Será possível que os outros nos desconheçam tanto
Que nos comecemos a desconhecer nós próprios?
Inteiramente conscientes
Na morte e na vida
Nuno Rocha Morais
domingo, 13 de novembro de 2016
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
Paula
Manhã, manhãzinha vem pela estrada, vermelha, sorridente, cantarolando.
Chega com a manhã.
Na aldeia, ninguém sabe de onde veio a Paula, não se lhe conhece família,
marido, pais, filhos, ninguém. Existe por si. Desde sempre: ninguém a criou. Ou
é criada todos os dias, nasce com a manhã.
Da Paula só se sabe que é louca. Assim dizem os sãos. E ela quer ser
louca. Procura a loucura no vinho. A loucura, dizem, nasce do encontro entre o
vinho e o sangue da Paula. Passa algumas horas por dia na taberna. Os homens
acham-lhe graça. Pagam-lhe copos, dão-lhe garrafões. Sabem que embriagada a
Paula tira a roupa. Riem-se e, depois, pia, catolicamente, dizem “Pobre alma”.
E a Paula ri-se com eles, como se longe de si mesma.
Mora no meio do monte, num lugar a que chamam “O Buraco”, uma velha casa
meio arruinada, abandonada até pela memória, pelas sombras do passado.
A Paula repovoou um pequeno quarto: um retrato do Papa, um colchão, os
garrafões, os gatos que ela ama, a sua loucura. A Paula chama-lhe agora o Solar
do Inca. Fala dos diamantes que só ela conhece. Fala da gente que a visita.
“Hoje, tenho visitas”.aperalta-se nos seus trapos, depois de se ter lavado na
fonte, nua, com as beatas puríssimas a rosnarem entre dentes – “Porca”. A Paula
não liga. Faz a sua vida a que ninguém chama vida. Só miséria. Mas ela, louca,
parece feliz. Longe de todos. Só perto dos seus sonhos, da sua imaginação, da
sua loucura, dos seus gatos. A Paula é feliz.
Mal a manhã acende o tempo, a Paula desce a estrada. Cantarola com o chilrear infernal da passarada, o cantar dos galos, um boi que muge. A Paula começa a ser o tempo. Quando a vêem na estrada, sabem que é a hora x. Certa, a Paula faz o seu caminho para lado algum, azafamada a procurar Áfricas, ouros e ir a festas.
Mal a manhã acende o tempo, a Paula desce a estrada. Cantarola com o chilrear infernal da passarada, o cantar dos galos, um boi que muge. A Paula começa a ser o tempo. Quando a vêem na estrada, sabem que é a hora x. Certa, a Paula faz o seu caminho para lado algum, azafamada a procurar Áfricas, ouros e ir a festas.
Mas uma manhã, a Paula não desceu a estrada. E três dias passaram. Às gentes da aldeia, a manhã parecia incompleta, faltava-lhes alguma coisa. Alguns homens e mulheres foram ao Buraco. A Paula estava lá, no colchão, entre os seus gatos. Lábios adormecidos em pedra. Lá longe, alguém cantarolava.
Nuno Rocha Morais
domingo, 30 de outubro de 2016
Temos a impressão de
voltar ao passado
E cometemos o abusivo
atalho
De pensar no passado
como uma casa
Que poderá
eventualmente ser nossa,
Então, estaremos
condenados a viver
Em meras cicatrizes de
casas,
Linhas enegrecidas onde
só a custo
Se adivinham paredes e
tecto nenhum,
Só talvez uma porta
fora dos gonzos,
O fóssil de uma entrada
sem saída
Que bate sob o assalto
violento
De uma decepção
curiosa,
A única presença que
talvez não seja intrusão.
Nuno Rocha Morais
Nuno Rocha Morais
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Filosofia É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...




