domingo, 29 de setembro de 2024

Tenho na memória, misturados

Na mesma carne de imagens,

Factos e coisas que não aconteceram,

Mas que lembro no tempo e no espaço.

E o que não aconteceu

Não é menos forte que o real,

Subsistem da mesma forma

Na mesma forma,

Com uma diferença:

O que não aconteceu

Não tem um gesto, um sorriso, um passo

Por assombração.


Nuno Rocha Morais


 

sábado, 21 de setembro de 2024


O vento epiléptico

Faz rodopiar a noite,

Os espelhos dormem

E, de ti, nua, emerge a Primavera,

Tal como eu a quero.

Já não há sismos nos alfabetos

Nem violinos rompidos

Que a noite outrora traria.

Desperta em mim a respiração solta

Do sol sobre as praias e prados do Verão,

Dança indiana e doce da luz,

Lenta e tépida,

Tu dormes, acesa.


Nuno Rocha Morais 

domingo, 15 de setembro de 2024

 

Às vezes, queria traçar o percurso

De estar perdido de qualquer saber,

De já não nomear nada a partir do que sei,

Fixar a têmpora da manhã

E não reconhecer, de ignorar

Todos os gritos dos mudos sinais,

Apagar mapas, dissolver álgebras,

Partir leis contra a ignorância

Ou contra o exótico assombro

De uma excepção, de um descaminho.

 

Às vezes, perco-me,

Longe da pauta dos passos,

Apenas regido pelo êxtase desesperado

De estar perdido.

Às vezes, perco-me no tempo,

Mas em tempos infantis,

Pois possuo sempre saber suficiente

Para me recortar da branca desorientação

E regressar aos mapas dos nomes

E dos sinais.

 

Nuno Rocha Morais

 


 

 


domingo, 8 de setembro de 2024

Serenata


 

Uma saudade prisioneira

Numa guitarra,

Subindo pela encosta

Da noite negra,

Subindo como um perfume,

Um momento.

 

Uma saudade 

Que brota da guitarra

E em mim se confunde

Com a tua imagem.

 

Nas águas da guitarra,

A saudade

É o teu reflexo.


Nuno Rocha Morais

domingo, 1 de setembro de 2024

A incidência 
Da coincidência

O impacto

Do acto

O certo
Do que não ‘stá perto

Sol esbatido

Por detrás do vidro

É quando sou fraco

Que procuro ser opaco 


Nuno Rocha Morais

domingo, 25 de agosto de 2024

 

Há já quanto tempo não vestia estas calças.

Dentro delas estão as pernas envelhecidas,

Perras, de um presente longínquo.

Nos bolsos, há ruínas de nomes,

Pequenos fragmentos de vozes e cartas,

Pequenas chamas ou elegias

Ainda não totalmente dissolvidas.

Pego em todas estas coisas,

Cuidadosamente e reintegro-as

No fluxo da memória.

 

Nuno Rocha Morais

 

sábado, 17 de agosto de 2024


 Convocas em mim essa tempestade

De que és o início

E só tu podes ser saciedade.

Amena me desunes

Entre a alegria e o rasgar,

És tu que fazes desaguar em mim

As navegações de uma certa dor

Que os amantes conhecem bem,

Que os sonos e insónias percorrem.

Em mim nasces como um turbilhão

E és tão cruel, tão crua,

Mas a tua crueza, a minha dor

Nada disso, nada, é culpa tua.


Nuno Rocha Morais

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...