Arabesco de aguarela
Curva ondulação
Música transfigurando-se
Em gesto ou cisne
Música esvoaçante
Polinizando o corpo
O corpo responde
Brota alígero no espaço
A música torna-se o corpo
O corpo espaço
O espaço música
Nuno Rocha Morais
Arabesco de aguarela
Curva ondulação
Música transfigurando-se
Em gesto ou cisne
Música esvoaçante
Polinizando o corpo
O corpo responde
Brota alígero no espaço
A música torna-se o corpo
O corpo espaço
O espaço música
Nuno Rocha Morais
Entra pelo vitral, afasta suavemente a penumbra
E ilumina o túmulo do poeta,
Num simbolismo demasiado evidente à primeira vista.
Mas a fotografia foi tirada por um dinamarquês
Turista que provavelmente
Não sabe sequer quem é Camões –
Ou se sabe, não autopsiou o segredo
Das correrias, dos amores venais e platónicos,
Das desilusões, da tença, da miséria, -
Serenidade, a justa recompensa
Para um corpo que não está sequer aqui,
No claustro das glórias.
Surpreendeu apenas, naquele canto despojado,
Uma eternidade alumbrada pelo próprio tempo
Que desceu com um instante da eternidade
No ínclito de uma tarde.
Nuno Rocha Morais
Já não se mantém à distância
Por força de fé, devoção, exorcismo.
As religiões estão perplexas em uníssono,
Assombradas, porque o inferno se deslocou,
Se trasladou: já não está em baixo,
Ou apenas em baixo, mas também por cima,
Dos lados, talvez até já dentro. Aqui?
Alguns profetas dos factos consumados
Dizem que o inferno está
No coração dos homens.
Quem o diz lá sabe.
Para os oficiantes, mudou tudo,
A escuridão sobe nos templos e espalha-se,
Já mal se vislumbram os templos,
A menos que sejam apenas a pedra.
O inferno evoluiu, já é também uma substância,
Um gás, um ser vivo e mortífero,
Um degelo súbito que enraivece as águas.
Há quem ouça, dia e noite,
Os golpes do inferno, desferidos
Sem fúria, mas com a certeza,
Cada vez maior de vitória.
Qual vitória? Derrota de quem?
Há quem ouça e jamais tenha deixado de ouvir,
Os gritos dos condenados.
A maioria, como sempre não diz nada,
Limita-se a ouvir os golpes.
Talvez o inferno não esteja ainda
Dentro de portas, mas está, sem dúvida
Mais perto.
Nuno Rocha Morais
Oh fogo-de-artifício
Lindas mentiras
De todas as cores
Ooh´s e Aah´s para todas as bocas
Sonhos do tamanho de um segundo
Espumas de cor e luz
Lindo fogo
Solilóquios no céu turvo e escuro
Lindo fogo
Pena é depois que o céu
Escuro esqueça
O fogo acabou escuro
Escuro estou só
Uma cana de foguete aos pés
Que lindo fogo que foi
Que lindas mentiras
Ando pelo vazio e a noite segue-me
Nuno Rocha Morais
Se é a morte sob a minha pele,
Não me resta consolação outra
Senão pensar que estou a morrer
Satisfeito por ter vivido,
Por ter sido humano,
Por ter amado.
Se estou entregue a sinais
E um sentido inalterável me conduz
À consumação da sua vontade,
Resta-me pensar que nada me destece
E se a morte se consolida
E o céu endurece na ameaça da cerração
E se eu declino, mesmo que o sol
Não incline a sua cerviz
À vontade de um sentido,
Se a luz prossegue porque a treva
Nada depende de mim,
Fico satisfeito e não atendo
À escala de graves
Que fez latejar os seus punhos
Na minha garganta e têmporas.
Não servirei nenhum lamento,
Nenhuma escuridão me espera, servil.
Não ouço édito de expulsão.
Nuno Rocha Morais
Muito antes dos respectivos nomes,
O teu corpo inventou todas as danças
Movimento perpétuo, inconsútil
Tilintam argolas, cintos,
Ao ritmo da tua nudez;
Em breve, o Nilo te há-de responder
Águas e limos. Dança,
A tua alma é gato e crocodilo,
À tua respiração acorrem os mortos,
Agora, a morte pesa uma pluma.
Enquanto danças, também tu
És a esfinge e nada realmente finda.
[A tua respiração decidirá o tempo,
Os teus braços, o espaço de céu,
A terra seguirá os teus saltos,
O mundo, as tuas voltas e rodopios.]
Nuno Rocha Morais
A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...