domingo, 25 de junho de 2017

Eis o fraseado da tempestade,
Prelúdio e fuga, balbucio,
Um mundo ao sabor
De segundas intenções,
Aliciado, em que tudo encobre
E se predispõe ao seu contrário.


Nuno Rocha Morais

domingo, 4 de junho de 2017

Um pressentimento de morte


No meio da multidão passou por ti,
Olhou-te e sorriu apenas com um dos cantos da boca
E só a reconheceste quando ela te reconheceu.
Sabes agora que ela sabe onde te encontrar
E que está muito mais perto.
Mas, se nunca a temeste, conhecendo-lhe o rosto,
É verdade que a temes ainda menos.
É apenas mais um rosto, e será o último.

Nuno Rocha Morais

sábado, 6 de maio de 2017

OUTRA FALA


“O amor? Não me fale de luxos,
Por favor. Não tenho tempo
Para pássaros e estrelas.
Não tenho quem me ajude sequer
A abrir um saco plástico,
Quanto mais para me encher o coração.
Se escorregar na banheira,
É possível que ela se torne a minha sepultura
E que só um arqueólogo me encontre,
Ou algum vizinho mais extremoso
Incomodado com o fedor.
E quem me suportaria?
Ou como admitiria eu em mim
Alguém mais presente do que eu?
Não, já dobrei o cabo dessas ilusões.
Não me quero partilhar com mais ninguém –
Até porque não há nada para partilhar.
Acredite em mim: eu sei.
Tenho a idade da noite.”


Nuno Rocha Morais 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Nos sonetos de domingo,
Lembram-se da alma,
Ensaiam lindas mágoas,
Cantam amores menores,
Guardando sempre o melhor verso
Para outra altura.
Entre vírgulas resplandecentes,
A alma encena uma dor elástica
Em versos sem nenhuma quilometragem,
Versos de seda com sóis de cetim,
Amores de veludo e champanhes de  amém:
Nos sonetos de domingo,
É dia de ir à alma
E ver o que se pode inventar.

Nuno Rocha Morais

domingo, 2 de abril de 2017

Quem queria ser vitima
Olhava para o céu.
Olhar para o céu
Era uma forma de desistir.

Nuno Rocha Morais

sábado, 11 de março de 2017

(Pistas de leitura)

Ler em vez de viver, não:
Mas ler para sentir o ritmo
De que vai acontecer:
Ainda que não como.
Ver que portas são os livros
Quando se abrem e que mãos.
Ler para saber que se vive,
E ler durante, depois de tudo:
O vivido é a melhor leitura.

Nuno Rocha Morais

sábado, 18 de fevereiro de 2017

 -       Diz-me como é que sofres.
-       Em unidades de peso, distância e volume?
-       Diz-me como é que sofres.
-       A massa atómica do sofrimento?
-       Diz-me como é que sofres.
-       Deixando bosques e rios e vales?
-       Diz-me como é que sofres.
-       Basta haver amor para sermos infelizes?
-       Diz-me como é que sofres.
-       E se fôssemos reais?
-       Diz-me como é que sofres.
-       Em campo aberto ou por emboscada?
-       Diz-me como é que sofres.
-       Sem sacrifício e com orgulho?
-       Diz-me como é que sofres.
-       Sem sofrimento?

Nuno Rocha Morais

Já ninguém parte de madrugada E partir já não é haver alguém Que prenda um olhar profundo Lançado do alto das falésias de uma despedida. Per...