domingo, 18 de junho de 2023


Estar longe, muito longe,

Suspenso em qualquer instante,

Em qualquer hora imóvel

De um dia feriado,

Estar atado a uma estação imperfeita

Que os lugares renegaram

Para renascer...

Estar longe, muito longe,

Num sono espesso, austero, cru,

Inatingível à escalada dos estímulos,

Adormecer como as pedras,

Ser, como as pedras,

A forma da distância ou alheamento,

Adormecer longe, muito longe

De forma que quando me arrancaram

Às entranhas do sono

E me perguntassem quem sou e onde estou,

Eu não soubesse responder.


Nuno Rocha Morais 

quinta-feira, 8 de junho de 2023

 


A morte em si não é terrível

 Pois que se cala dentro de si própria.

 

Terrível é o reflexo das suas águas

Nos rostos dos vivos,

Contorcidos de choro e dor,

Mãos tornadas extremos da angústia.

 

São calmos os mortos,

Abandonados em si,

Transporta a dor,

Vencida a morte,

Que apenas dura um instante,

Além da morte, estende-se o inominável.

 

Não a morte não é terrível:

Terrível é a reacção da vida à morte,

Terrível é a vida confrontada com a morte.


Nuno Rocha Morais

(quinze anos depois da tua morte, tento procurar consolo, nas tuas palavras, para esta imensa saudade de mãe)

segunda-feira, 5 de junho de 2023

A distância ignora o céu,
Posto que ao fundo da distância

Está apenas renovada distância

E não o céu.

Como aventureiro na distância

O céu busca,

Também eu demando a isocronia

Entre quem me sinto

E quem me penso.

Como o rio que igualmente se reparte

Entre duas margens,

Dois diversos silêncios,

Também eu, na nudez do meu centro

Me reparto entre dois inimigos –

Sou como quem combate.


Nuno Rocha Morais

sábado, 27 de maio de 2023

  

É muito útil ter estado em vão,
Ter sido em vão, ter – claro – amado em vão,

Muito claramente em vão.

Saber que é vão o vento nas árvores

E vã a vida dos corvos pelos campos,

Que as mãos nada podem sobre o reino dos olhos,

Que nada mais há a dizer

Quando as mãos falam

E ficará tudo dito.

É muito útil falar em vão,

Para logo aí, se começar a desmantelar

A vanidade da noção do vão.


Nuno Rocha Morais

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Justificação

 

É esta poesia amarga

Que me tortura e afaga.

 

É a poesia de desdita

Que me implode e me grita.

 

É a poesia auto- de- fé

Que me mata e põe de pé.


Nuno Rocha Morais

domingo, 7 de maio de 2023

             Stabat filius

 

E era a mãe que sofria. Cruz e noite.

Fechava-se, o seu riso diluía-se.

O filho ouve na voz da mãe

O lastro escuro de uma resignação,

Sulcada por veios grossos de amargura,

Tudo afinal a apodrecer em enganos –

A mãe coragem está cansada, tem medo,

E a idade do medo é sempre menina,

E eu tento fazê-la rir,

E espero ter guardado em mim,

Depois de anos a fio com esse riso a pegar em mim,

Um riso suficientemente poderoso

Para, com uma gargalhada ex machina,

Agora a salvar. Dorme, mãe, dorme um sono pequenino.

Revoada potente e luminosa, hoste dourada

Percorrendo corredores, recantos, desvãos,

Onde costumam esconder-se todos os medos,

Desencantando as sombras dos seus terrores.

Mãe tamanhinha, de idade menina

Ingénua, empreendedora, curiosa, dinâmica, incansável,

Determinada. Não suspires, mãe, de tanto mudar cansada,

Pela expiração da mudança.


Nuno Rocha Morais


segunda-feira, 1 de maio de 2023


Em frente, fica o último prado

Onde pasta o último cavalo.

Atrás do prado, naufraga, afoga-se,

Soçobra o último sol

E nunca mais haverá um sol

Com face de prado e cavalo que pasta.

Amanhã, nascerão ali prédios,

Semeados por arquitectos,

Regados por homens de mãos grossas,

Impessoais, neutras, precisas

E, plantas concisas, brotarão os prédios.

Depois virão as mulheres

Que penduram nos prados dos fins de semana

Os seus alvos, perfumados esforços

Ou regam as suas enfermiças plantas,

Pálidas, sem vigor que cedo morrerão.

Afinal, o que é isto de Natureza?


Nuno Rocha Morais 

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...