domingo, 17 de novembro de 2019

 
A Alexandre O’Neill

Perdoa-nos, Alexandre, a nós,
Poetazinhos por metáfora,
Rói-unhas, sempre agarrados à vida
A ver se a esticamos um bocadinho mais;
Que fazemos da poesia destilaria,
Não para a dar a todos,
Mas para nos emborracharmos de solidão,
Construirmos o nosso quadradinho iluminado,
Para que os nocturnos nos invejem
E leiam os nossos versinhos e nos agradeçam em bronze —
O da memória só não chega.

Perdoa-nos, Alexandre,
Que não soubemos ser teus herdeiros,
A rir, quando, na verdade, choramos,
A olhar para o espelho e a colar o reflexo em quem somos
E não fazer operações plásticas no pensar e sentir.

Perdoa-nos, Alexandre, a nós,
Poetazecos do beco seco,
Que não sabemos que há dois lados numa linha:
O de cá, que é onde apodrecemos,
A linha que proíbe que passemos
E o lado de lá que nos obriga a passar,
Onde o reino não é de rei nenhum.
Perdoa-nos, Alexandre, a nós
Que não sabemos
Não ousamos chegar ao outro lado,
Chegar ao teu lado,
Real O´Neill,
Onírico O´Neill
Completo O´Neill
Poeta O`Neill
E, ah, português O´Neill
(Ironia até ao fim!)



Nuno Rocha Morais (Galeria) 

sábado, 9 de novembro de 2019

Sorrisos para Mona Lisa


I
O sorriso insondável 

Revelação sem evidência,
Se uma mulher feliz,
Se traída, se melancólica,
Se jubilante, se terna –
Nunca com tal intensidade
Um sorriso foi tão pouco:
Um sorriso para que nunca saibam 

Quem fui, quem sou.

II
Sorrio-me talvez para vós, 

Que me mirais
E estais mortos.


III
Atraiçoei a minha linhagem,
Entreguei-me nos braços de um amante vil – 

Este estar aqui –
Por ódio, por ódio;
De ódio é este sorriso
E os olhos semicerrados.


IV
Ou a fadiga
De que nunca sabereis, 

Convencional esposa
E mãe e trapo,
Por sorriso só esta fadiga 

De que nunca sabereis.

V
Nada entreabre de mim
O sorriso que nem é meu, 

Mas uma gentileza do pintor.

VI
E eu saberei 

Tudo de vós, 
Por isso sorrio. 

Nuno Rocha Morais (Galeria)

domingo, 3 de novembro de 2019


Mudamos de heróis
Ruy Belo

É ainda litoral a fantasia
E o sonho é costume de estar vivo
De ter os olhos abertos
Sentimos esta chama de nós contra nós
Que bom seria sermos outros
Nas alheias bocas o nosso nome desferido
Na sanguínea rosa de herói
Somos jovens crescemos em nós
E já lançamos de nós as raízes
Do desejo de sermos heróis
De invejarmos os heróis
Desde crianças o sonho dos heróis
Figura colorida
Musculada coragem
Assombro inteligente
Heróis
Nunca pacificados dentro de nós
Nunca conseguimos pentear o ser
Com uma calma e burguesa risca-ao-meio
Depois vai-se tornando frígida a fantasia
Em nós decresce o esplendor da admiração
Pelos heróis de sonho
São outros agora “mudamos de heróis”
É o poderoso magnate
O empresário(a) de sucesso
Invejamos as mãos que conhecem
O lauto sabor da fortuna
São estes os heróis que desejaríamos
Vivessem em nós
“Mudamos de heróis”
Continuando sempre a querer ser
Outros.


Nuno Rocha Morais - Galeria 

sábado, 26 de outubro de 2019











Tenho mais isto e mais aquilo
E não sei quê para fazer.
O feito é fio por fiar.
Com ele ao ombro, ando intranquilo,
Alvo de fogo que é o dever
Que nunca pára de picar.

Mas como tenho que fazer!
Ensarilhado em decidir,
Na encruzilhada do dever
Para que gesto hei-de partir?
Querer fazer é coisa pesada
E à luz do feito não há nada.

As horas descem do seu leito,
Ainda não fiado o feito.

Nuno Rocha Morais

terça-feira, 15 de outubro de 2019

POEMA PARA “ELEGIA PARA A MINHA CAMPA” DE S. DA GAMA


Também eu estarei só,
Até já sem mim,
Não no seio da terra,
Pois que de vida é a terra,
Mas no ventre da morte
E será então que outros
Virão depositar lembranças,
Belas, das que não houve,
Lembranças sinuosas;
Virão depositar pétalas esmaecidas
De pálida e apressada ternura,
Apenas porque estarei só
E estarei morto,
Já frio, já mármore, já morte.

Também eu estarei só,
Apenas rodeado pela atenção
De círios ou rosas,
Vigilantes, tentando ver
E gravar em cor ou chama
A minha subida ou descida,
Se as houver.

Mas ver-me-ão apenas só,
Embora com o mundo todo em torno
Matéria jorrante,
A minha alma será corredor,
Escuro espaço de solidão
E eu estarei só.

E será apenas então,
Eu, que cantei toda a vida,
Que, no silêncio,
A minha voz se espalhará
E se tornará alegria nas coisas,
Pureza de união
Para que a minha voz,
Ao invocar o mundo,
Não mais esteja só.

E apenas eu estarei só,
Só.

Nuno Rocha Morais (Galeria)

domingo, 13 de outubro de 2019

Ring, ring, ring, ring... Catholic bells W.C.W.

(Poema publicado na Gazeta Literária nº5, da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, dedicada a Daniel Faria)

domingo, 6 de outubro de 2019

O Pintor

Não quer deixar as coisas na tinta
Tal e qual ele as vê,
Tal e qual elas são.

Quer pintá-las como as imagina
Escondidas num essencial silêncio,
Numa virginal impenetrabilidade.

Esbate os contornos das coisas,
Os seus limites, afoga-os
E, de certa forma, ilumina a sua verdade.

A tinta, asas e olhos do pintor.


Nuno Rocha Morais

                                                                                                               

Filosofia   É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...