domingo, 11 de novembro de 2018

O poema mais belo do século XX
Escreveram-no os generais da I Grande Guerra,
Com tropos como Verdun, Sounne, Paschandele,
Recursos como a lama e o arame,
Cavalos-de-frisa e o som do apito para o ataque,
Apenas o gás vivo na terra-de-ninguém,
A manhã que matou Wilfred Owen
No canal de Oise-Sambre.
As potencialidades fónicas
Cenográficas, pictóricas, expressivas da morte
Nunca foram tão bem exploradas,
Não se escreveu poema mais rico,
Tantas são as intertextualidades
Com as últimas palavras de nove milhões de homens,
O Génesis reescrito.
Nenhum verso tem a veemência
O poder expressivo do "shrapnel".

in "Galeria" de Nuno Rocha Morais

domingo, 4 de novembro de 2018

              Com fogo e perda obtém-se
          Uma gota mais perfeita
          Do que oxigénio, hidrogénio,
          Cloro e sódio na planura
          De uns olhos.
          Decomposta uma lágrima,
          Não se surpreenderá sal e água,
          Mas fogo e perda.


          Nuno Rocha Morais


Cl

quinta-feira, 1 de novembro de 2018



A música, parecendo embora
Aprisionada nas grades de uma pauta,
Torna sempre imprevista,
Perpétua surpresa, ainda que escrita.

Nuno Rocha Morais

domingo, 14 de outubro de 2018

O que vivo parece empenhado
Em destruir o que espero.
Mas alguma coisa espero
Para a minha morte,
Como uma espécie de riso
Final e póstumo:
Que ninguém sobre mim
Perturbe ervas daninhas
Ou, como elas, crianças
Que queiram vir brincar
Sobre e dentro do silêncio
Disposto sobre a minha morte.
Deixem-me ir com elas,
Dentro do meu riso –
É tudo o que espero,
Se além há uma vida,
Se além se pode esperar
Mais do que nesta.
E esse instante de riso
Não é pouco para a eternidade –
Nem menor quimera
Ou mais sábia loucura,
Perpétuo numa risada.

Nuno Rocha Morais

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Aviso


Acreditar na palavra? Porquê?
Porquê, se a sua aparência esmaga os sentidos,
Porquê, se a verdadeira palavra
Foge, aérea de voz em voz,
De verso em verso, inalcançável?
Porquê se a imagem
Que reflectimos na palavra
Nunca é inteira, nunca é completa?
Porquê, se na palavra o que dizemos
Se refracta e dissolve e perde,
Se a palavra é apenas o artifício navegável,
Um prelúdio do silêncio?
Ainda assim, afundamo-nos nas palavras
Bebemos-lhes a cicuta espectral,
Cremos e entramos nelas e perdemo-nos
Na tempestade de areia do seu esquecimento,
Em que de nós mesmos desaparecemos.


Nuno Rocha Morais

domingo, 30 de setembro de 2018

O dia despe-se,
Visível é já a pele da noite.
A luz dança com as sombras,
Dancemos também.
Dentro de nós ateiam-se
As cinzas da música,
Que em ritmo e chama
De novo se reúnem.
Dancemos por estas ruas,
Múrmuras, secretas,
Fluindo lentas pela tranquilidade
Que coroa o ocaso.
Dancemos, deixemos
Que os gestos nasçam
E se libertem dos corpos
E se percam na música inaudível
A que pertencem.
Dancemos, somos esperados,
Renascidos, do outro lado da música.


Nuno Rocha Morais

domingo, 16 de setembro de 2018

Copérnico


Ingénua, a Inquisição
Não criou a sua própria imprensa.
Talvez então pudesse ter defendido
Os seus tomos e as suas teses;
Talvez passasse até por vitima
De um Copérnico vil, traiçoeiro,
Um arrivista a requerer protagonismo.
Talvez então, empurrado pela opinião,
O sol se remetesse para a órbita da Terra
E bem diversa fosse a estrutura do sistema.
Menos sorte teria tido Galileu,
Mais outro original a querer reconfigurar
Em movimento a estase do mundo,
Inoculando a imperfeição
Numa tranquilidade modelada.
Não seria preciso ameaçá-los com a fogueira
Se os jornais os houvesse queimado
Com escândalos, fraudes, fracassos.
Afinal, estariam enganados
Afinal o mundo é plano, linear,
Com os jornais ao centro,
Girando em torno deles.
Nada importa o lugar do sol,
A crónica de um dia,
A astronomia é uma ciência dos mercados,
A tinta que suja os dedos
É cinza de inúmeras fogueiras,
Escurecimento de muitos sangues.


Nuno Rocha Morais

Filosofia   É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...