quarta-feira, 14 de julho de 2021

Segredo


Só as crianças morrem

Com os olhos abertos.

São esses que a morte colhe

E deixa cair docemente sobre as flores.

A cor é o olhar das crianças.

 

Nuno Rocha Morais

 

 


sábado, 10 de julho de 2021

Também isso se aprende, não ser uma pessoa,

Ser apenas um rosto e um nome

Poucas vezes usado, cada vez menos,

Até que entre si os sons perdem os sentidos

E o nome se desagrega e se extingue.

O rosto, esse desvanece-se,

As feições desaparecem no vazio.

Não faz falta, era desnecessário,

Se isto se pode dizer de um rosto, de um nome,

Se é que a ausência deste rosto, deste nome,

Não serão para sempre a brecha

Impossível de colmatar,

O dedo que já não está no dique.

Não era só um rosto, não era só um nome.

 
Nuno Rocha Morais

terça-feira, 6 de julho de 2021

 Estivemos soterrados no inverno.

Mantivemo-nos vivos e quentes

À força de estarmos juntos.

Agora, o dia é sereno como um gato ao sol,

Repete para si estes sons de pássaros

E vento carregado de bosques –

Mantra, quase ronrons.

 

Nuno Rocha Morais


sexta-feira, 2 de julho de 2021

Balada

Combinei um encontro

Com ela e com a noite.

Apenas a noite compareceu.

 

Combinei um encontro

Com ela e com o tempo.

Apenas o tempo compareceu.

 

Combinei um encontro

Com ela e com o amor.

Apenas o amor, às golfadas

Constantes e ardentes

Compareceu. Não ela.

 

Com a noite superficial e nua,

Com o tempo e as suas pegadas nas veias,

Com o amor singular,

Compareceu a solidão elíptica.

 

Nuno Rocha Morais




terça-feira, 29 de junho de 2021

 

Ainda me preocupo

Se chove na tua vida

Ou se a madrugada surge

Com uma expressão metálica:

Um amor vencido, é invencível.

 

Nuno Rocha Morais

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Monumento


Não há um monumento à estupidez. 

E, no entanto, ela prolifera

Mas talvez apenas se erga em bronze

A perpetuação de abstracções.

Quanto às estátuas dos grandes homens,

Nada acrescentam à sua grandeza,

Talvez irrepetível e, por isso, assustadora

De que foram, muitas vezes, expropriados.

A sua presença nada dirá aos vindouros:

Será objecto de curiosidade para uns,

E para outros, cada vez mais numerosos,

Não representará nada

Senão uma figura esverdeada

Pela merda das pombas e pelo esquecimento,

Que já não merece o centro de uma praça ou jardim.

Mas estes monumentos, em bronze ou pedra,

Estátuas ou bustos,

Representam, tantas vezes, um brinde

À nossa própria estupidez, perpetuada;

Representam a estupidez de uma geração

Que não soube merecer a grandeza

Dos homens que em sorte lhes couberam.

 

 – Não há um monumento à estupidez:

    A sua linhagem prolonga-se,

    A figuração de abstracções,

    Sejam homens ou animais,

   De valores de grandeza

   Representam o temor

   De que esses valores sejam irrepetíveis.

 

Nuno Rocha Morais


domingo, 20 de junho de 2021


“Mas não me importo de adoecer no teu colo”

                                                                                    Daniel Faria

 

Vim dentro de um corpo alumbrado,

De fogo já crisálida,

Vim para adoecer ao pé de ti,

Vim para arder como um nome

Vim para te dizer - ouves-me?

Vim para assim me apagares.

 

Nuno Rocha Morais


A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...