sexta-feira, 10 de junho de 2016

Não ter eu um país
Nunca soube ter um país
Um pais uma nacionalidade
Que me dissesse sob que perspectiva
O sol se põe qual a importância das direcções
Oeste país das velas
Sul reinos de águas morenas
Leste ou norte império do esquecimento
Um pais de nome pequeno
Que nunca seria gravado no tímpano de um mapa
Um nome como um seixo
Sim um país pequeno engolido entre as suas fronteiras
País quero dizer corpo ternura
País de montanhas prados vales rios
Um país que me ame
Um país que eu saiba amar
Que me peça esforço mas me conceda regresso
Que não desapareça na erosão do oceano
Que não seja terra volúvel
Um país rubro plano negro
Onde a morte me suba tranquila
E me dê tempo de a pensar
Não ter eu um país subjugado por mim
Estou de pé estar de pé é pedir independência
Sou túmulo do meu país
O meu país é ser meu túmulo

Nuno Rocha Morais

domingo, 15 de maio de 2016

Que da obra fique,
Não aquilo que desagua num suspiro,
Num fim;
Não o nada que se segue
Ao que está apaziguado na completude;
Que da obra fique antes
O contínuo gesto das estações,
Da busca da obra que cresce,
Germina, leveda;
Que da obra fique
O contínuo gesto de ser feita,
Mas animada pelo sábio ritmo da destruição;
A imperfeição conquista o tempo:
Que continuamente a obra se faça
No fazer-se do tempo.

Nuno Rocha Morais

terça-feira, 26 de abril de 2016

Poema terrível


Viu tudo em Hiroshima.
Viu tudo em Chernobyl.
Estes nomes edificados sobre a morte:
A súbita síntese da luz,
O sopro irresistível,
A redução de tudo à sombra
A redução de tudo à terra.
Viu tudo nas ilhas do Pacífico,
No pacifico horizonte
Onde a morte se ensaiava
Na erecção vegetal e letal.
Viu tudo e tudo lhe cavou o olhar,
Descobriu que nascer talvez já não seja
O momento em que o homem reconhece a sua vida.

Nuno Rocha Morais

segunda-feira, 25 de abril de 2016


É possível que o homem caiba
Entre o céu e a terra sem se rasgar.
É possível que o homem caiba
Entre outros homens.
É possível que o homem adormeça
Com lobos de fogo à cabeceira.
É possível que toda a verdade da boca
Caiba no beijo sobre a pele.
É possível que o homem viva
Dentro de si próprio,
Sem outra cor que não seja a cor de ser homem,
Em que a fonte do homem
É apenas o homem:
À superfície do homem
A pura transparência animal.

Nuno Rocha Morais

Filosofia   É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...