domingo, 17 de dezembro de 2023

Tão bem me conheces.

Da altura dessa ciência,

Dessa lucidez diurna

Que sobre mim alimentas,

Dessa transparência em que me tornas

Dizes: o que está realmente longe,

O que é verdadeiramente distante,

O que dói porque infecundo,

O longe real é o que está perto

E não conseguimos ver.


Nuno Rocha Morais

Poemas dos Dias (2022)

domingo, 10 de dezembro de 2023

Da sordidez


Sórdida é a surdina sobre nós,

Sórdido é estarmos enterrados

Vivos a horas que são ratos.

Sórdidas são as vozes à nossa volta

Que de nada sabem

E a ironia de coincidências

Que conhecem tudo.

Sórdidas são as despedidas em público

Só de palavras insípidas,

Sórdido é nunca termos tempo,

Sórdido é o lodo

Onde tudo se desencontra e venda

E cerra os dentes, ensurdecido.

Sórdido é o desespero escondido,

Mas nada em nós é sórdido,

Nenhum amor é impuro

Na forma de se urdir. 


Nuno Rocha Morais

domingo, 3 de dezembro de 2023

            Os nossos mortos sabem tudo sobre nós:

Conhecem as nossas palavras, as nossas almas

Por dentro, porque aí vivem,

Conhecem as bolsas de reserva,

As traições e as falsidades,

Conhecem até o que sobre eles

Nunca sentimos ou só começamos a sentir,

E por remorso, demasiado tarde.

Sabem tudo sobre nós, os nossos mortos,

E resta esperar que nos perdoem

            O pouco que somos, e tantas vezes falso. 


        Nuno Rocha Morais

        (Poemas dos Dias 2022)

domingo, 26 de novembro de 2023

É o nosso primeiro crepúsculo.

Sobre o mar, a noite começa a ser

Uma espécie de possibilidade.

A tua mão escreve com as ondas 

Nervosos postais,

O teu cabelo esvoaça ao encontro da brisa.

Juntos aqui, junto ao mar,

Quem é cada um de nós,

A que outro se mistura,

Com o ocaso, a brisa, o rumor?

Continuas a escrever.

Em mim pousa a profunda calma do mar,

Há feridas antigas que voltam para dentro,

E desaparecem, não deixando sequer cicatriz.

Ouvi-te realmente dizer

Que esta é a paisagem de seres feliz?


Nuno Rocha Morais

Poemas dos Dias (2022)
 

domingo, 19 de novembro de 2023


A alma é inconveniente,

Põe os pés onde não deve,

Diz o que não pode,

O resultado és tu, multiplicado,

Dividido, despedaçado, exponenciado

Em traições que cometes

Sem muito bem as explicares,

Mas és tu. Cabe-te encontrar

Sempre novas coisas a perder,

É assim que vives para não ficares

Completamente vazio.

Hoje, quem morre na autobiografia

Já não és tu, conseguiste ainda escapar,

Mas só ainda. Aproveita.

Depois uma fruteira, uma mesa de vidro

Baça de tantos riscos

E o teu rosto. Quem pensas que és

Para julgares que Deus te ignora?

A náusea, a náusea, como é moderna,

Como chega já a ser filosofia,

A enviscar a carne, os dias,

Que privilégio, a náusea.


Nuno Rocha Morais

Poemas dos Dias (2022)

domingo, 12 de novembro de 2023

A chuva traz o norte

E sinos de narrativas tímidas,

Fulgentes aos sentidos insensíveis.

A noite atenta na gaguez das ondas

E o sal traz pequenas garrafas de mistérios,

As algas albergam enigmas.

Nos rostos dobrados, rostos duplos,

Que urge domar,

Nos objectos, uma vida imóvel,

Mais uma vida escrita com pó.

O poeta tem de ouvir,

Decantar cada coisa no silêncio

E depois cantar,

Tecer metáforas

Como quem tece janelas,

Como quem ergue a paisagem

Onde a luz é um enigma.


Nuno Rocha Morais

Poemas dos Dias (2022) 

domingo, 5 de novembro de 2023

Venenos

O corpo habitua-se a certos venenos

Inoculados pelo espírito,

Mas não sofre menos por isso:

Palidez, sangramentos, sezões,

Ardores, convulsões, náuseas, asfixia.

Deixarão algum dia de fazer efeito

Uma secreta livraria em Londres,

Um hotel em Lisboa,

A luz nervosa e tensa do Porto,

Uma fotografia em Florença?


Nuno Rocha Morais

(poemas dos dias 2022)

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...