terça-feira, 15 de outubro de 2019

POEMA PARA “ELEGIA PARA A MINHA CAMPA” DE S. DA GAMA


Também eu estarei só,
Até já sem mim,
Não no seio da terra,
Pois que de vida é a terra,
Mas no ventre da morte
E será então que outros
Virão depositar lembranças,
Belas, das que não houve,
Lembranças sinuosas;
Virão depositar pétalas esmaecidas
De pálida e apressada ternura,
Apenas porque estarei só
E estarei morto,
Já frio, já mármore, já morte.

Também eu estarei só,
Apenas rodeado pela atenção
De círios ou rosas,
Vigilantes, tentando ver
E gravar em cor ou chama
A minha subida ou descida,
Se as houver.

Mas ver-me-ão apenas só,
Embora com o mundo todo em torno
Matéria jorrante,
A minha alma será corredor,
Escuro espaço de solidão
E eu estarei só.

E será apenas então,
Eu, que cantei toda a vida,
Que, no silêncio,
A minha voz se espalhará
E se tornará alegria nas coisas,
Pureza de união
Para que a minha voz,
Ao invocar o mundo,
Não mais esteja só.

E apenas eu estarei só,
Só.

Nuno Rocha Morais (Galeria)

domingo, 13 de outubro de 2019

Ring, ring, ring, ring... Catholic bells W.C.W.

(Poema publicado na Gazeta Literária nº5, da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, dedicada a Daniel Faria)

domingo, 6 de outubro de 2019

O Pintor

Não quer deixar as coisas na tinta
Tal e qual ele as vê,
Tal e qual elas são.

Quer pintá-las como as imagina
Escondidas num essencial silêncio,
Numa virginal impenetrabilidade.

Esbate os contornos das coisas,
Os seus limites, afoga-os
E, de certa forma, ilumina a sua verdade.

A tinta, asas e olhos do pintor.


Nuno Rocha Morais

                                                                                                               

domingo, 29 de setembro de 2019

NERVAL


Lá fora, a noite preta e branca.
O avião trepida, por entre a neve 

Como dilacerado entre dimensões. 
Pontos esgarçados pela velocidade 
Transformam-se em linhas.
A loucura pode ser o mesmo
Que a sabedoria; a memória
Pode ser espaço; uma mulher 

Ilumina e perde. Ao cabo de tudo, 
Resistir à poeira escolástica. 

     Nuno Rocha Morais (Galeria)

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

FERNÃO DE MAGALHÃES

 
Ali, onde já a praia deve mar
E as ondas se repartem em chegada
Ou regresso ao oceano do horizonte;
Ali, onde o vento inda é eco de luta

E as conchas inda esgares de outro sangue;
Ali onde caiu quem nunca cai,
Ali onde jaz o nome da aventura
Ali, o unificador da união,

Guia imolado para que houvesse
Nova luz no caminho já traçado,
Para que entre a bruma clareasse

A terra, p´ra que houvesse um limite
Para que este mundo fosse o nosso,
Para que a humanidade fosse nossa.


Nuno Rocha Morais

sábado, 14 de setembro de 2019













Ridículo, claro:
Também o chão é aleatório,
Não um aliado;
Um jogo casual de rios,
Ervas, pedras , cidades, fronteiras.
Mas, enquanto o rugido
De uma turbina me arrasta
Para longe, longe de tudo –
Um pequeno tudo,
Algumas ruas onde assomam rostos
E um sol familiar
E uma partitura de ruídos
Que são a minha vida –
Cresce uma angústia
Que se vai tornando espaço,
Aresta, planalto, continente,
E me empurra contra uma superfície
Lisa, como de metal,
Onde não deixam marca
Unhas ou dentes.
E esta angústia, só esta angústia,
Deve ser a minha pátria.


Nuno Rocha Morais

sábado, 7 de setembro de 2019

Que não seja o mito
De mamas e rabo grandes,
Mas o sol regido pelos caprichos
De uma lua saturnina.
Só os barbitúricos a compreenderam,
Só foi feliz nesse limbo,
Ausente da carne queimada
Por focos e holofotes,
Ardendo entre dois nomes,
Sufocando nos sorrisos e beijos contrafeitos
Sob todos os rostos
Que nela quiseram ver –
A loura, a bela dos calendários,
A voz aveludada e estúpida.
Mas de nada lhe serviu ser Marilyn,
Não pode ter sequer os seus sonhos.
Ser Marilyn tornou-se o pesadelo imortal –
Encurralada na mulher
Que só sofreu o amor,
A chama procurando refúgio
E encontrando sempre a extinção
A morte de Marilyn é a história de um crime
E a arma, o que restava de Norma.

Nuno Rocha Morais (Galeria)

Filosofia   É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...