domingo, 4 de agosto de 2019

Poema de cortesia


Foi a porca devoradora das próprias crias,
A mãe que expulsa os seus filhos.
As ruas parecem amáveis
Enquanto passeio por elas,
Enquanto a minha própria mãe
Agoniza, sem mo dizer.
E, no entanto, a policia expulsa
Três sem-abrigo que elegeram
A colunata do Banco da Irlanda
Como tecto provisório para a noite;
E num beco imundo, onde a treva
É ainda medieval,
Outra mãe, com o filho ao colo,
Pede esmola. É claro, os tempos não são sociais,
Mas a alegre culpa não é da Irlanda.
[A culpa morrerá secreta viúva
de palavras de futuro.]

Nuno Rocha Morais

domingo, 21 de julho de 2019















J´ai plus de souvenirs que si j´avais mille ans.
                                                   Ch. Baudelaire

Acontece, às vezes, que sou demasiado velho.
Caudaloso, transbordo das margens,
Sinto-me maior que a ciência do tempo
E nada há que eu não tenha feito
E não há espesso cansaço que eu não conheça.
Tudo parece repetir-se
No fluxo de um ciclo conhecido e fechado,
Tudo possui um eco dentro da minha idade.
Já não me espanto somando as ruas
E as gentes com as estações.
O timbre da lágrima ou do riso sobre a página
Despertam o verso mais citado,
O verso que, de tão famoso, é já silêncio.
Venci a densa questão e o medo e a maravilha.
Acontece, às vezes, que sou demasiado velho,
Que em mim a vida mata por ser infinita.

Nuno Rocha Morais (Galeria)

segunda-feira, 15 de julho de 2019






Dizem que puseram um homem na lua:
Não acredites.
E que tivessem?
O que buscam no minério dos astros?
Quanto tocam do Universo
É sempre o mesmo nada
Perante o Universo.

«Um pequeno passo para mim, um grande passo para a humanidade».
Chegaram à lua.
A única coisa que mudou foi isto:
Pode morrer-se mais alto.

Nuno Rocha Morais (Galeria)
(Faz hoje 50 anos da ida do homem à lua)

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Tango

As pernas alongam-se na dança,
São sombrias, misteriosas como vielas
Onde são gatos.
Dois corpos são um corpo,
O langor, a graça, o desejo,
Mas não sendo carne,
Ou não mais do que as mãos,
Trágicas por conduzirem o destino,
Não mais do que este roçagar,
Esta pele aflante e lábios entreabertos
De que só o tango conhece o segredo,
Para que a tristeza se apague
Sendo dançada.

Nuno Rocha Morais

domingo, 7 de julho de 2019

A M. de Sá-Carneiro
e ao Rui Bacelo
 
Foi sempre o menino exemplar.
Nunca foi além do seu nome,
Nunca correu atrás da luz
Quando ela, com as pombas,
Deixava a sua janela.

Foi sempre o menino exemplar —
Nunca amou mas temeu os vimes
E respeitava ciosamente os muros.
Foi feliz?
Foi sempre o menino exemplar.


Nuno Rocha Morais (Galeria)

sábado, 8 de junho de 2019

(Faz hoje onze anos que o Nuno nos deixou)

Não me procures, não me encontras,
Não estou, nunca estive, não quero estar,
Não sou e não serei, não sei, não vi,
Não pretendo, não persevero, não presumo
Não desistir, mas o facto é que ainda não,
Não me prendo, não me atenho,
Não estimo e não desprezo,
Não pergunto, não respondo, não toco,
Não saio nem entro, não vou, não fico,
Não ando, não atento, não ignoro,
Não conheço, não penso, não recordo,
Mas tão pouco esqueço, não assisto,
Não intervenho, não defendo, não acuso,
Não compro nem vendo, não pago nem peço.

Nuno Rocha Morais 
(Inédito)

quinta-feira, 6 de junho de 2019

DIA D

De um lado, a noite é uma náusea.
Do outro, um frio que degola.
De um lado, ninguém pensa
Em libertar a liberdade.
Do outro, ninguém pensa
Em resistir até ao fim.
Esta noite, Deus é acordado
Em muitas línguas,
Mas as palavras são as mesmas,
A paz que pedem é a mesma.
E nas cartas que escrevem
Ambos os lados prometem
Não morrer.
Estas promessas jazem mortas
Na praia, lado a lado.
A paz é a mesma.
Deus ouviu.

Nuno Rocha Morais (Galeria)

Filosofia   É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...