terça-feira, 3 de julho de 2018

(A propósito de Nietzsche, relembro o poema do Nuno publicado em GALERIA,pág.37


Confirmação de Nietzsche

Na curva do outrora, 
Partimos, e nas velas, 
Assinado a sangue,
O nome de Deus.


Pelas Cinco Chagas,
Deixámo-nos retalhar,
Exauridos até que a carne
Já não pudesse suspirar qualquer vida.


Pelo Império fora,
Erguemos templos,
Criámos penumbra suficiente
E medo para que pudesse haver Deus.


Inquirimos, queimámos,
Trespassámos, trucidámos, 
A cada passo no sangue 
Fizemos saber a Fé.

Mas a frescura do sangue
Reduziu-se a cinzas.
Morremos, deixamo-nos cair
E a Fé subiu, subiu mais do que nunca.


Molhamos as mãos na prece, 
Na prece afogamos a alma,
Mas nunca mais Deus desceu 
Porque “Deus Morreu”

Connosco.

Nuno Rocha Morais


domingo, 1 de julho de 2018

Um quadro de Bonnard


Embora tenham sido reais,
Estas duas figuras que fumam
Na exígua intimidade de uma varanda
Converteram-se em ficção,
A que o olhar, porém, devolve
O necessário elemento de realidade
Para que a arte, como um sortilégio,
Possa existir e de novo do quadro
Emane o fumo e o odor do tabaco
E uma conversa quase sussurrada.
E as duas figuras fitam-nos também,
Reagem à nossa presença,
E é o seu olhar fictício
Que nos dá realidade também.

               Nuno Rocha Morais

domingo, 17 de junho de 2018


Esta noite, o céu é seara
Onde a lua traça um rútilo sorriso.
Esta noite, abre-se o fresco pórtico
Para o poema puro e perfeito.
O poema é esta noite.
Tudo esta noite sabe a início.
Ao longe, ouve-se um rumor de um mar,
O mar da máquina. Rumor longínquo.
Perto, está apenas a noite
Sedosa, macia, morna, meiga.
As estrelas são espigas de luz.
Esta noite todos somos
Janelas abertas para a noite,
Janelas respirando o Estio tranquilo.
A noite não é de mágoa:
Passa a sua mão fresca
Sobre a testa febril da alma.
O afago azul é, hoje,
A cor da infância.

Nuno Rocha Morais

domingo, 10 de junho de 2018

Ensaio

(Ao Christian Guernes e Manuela Colombo pelas belas traduções dos poemas do Nuno)


 
Porque há-de a arte
Submergir o nosso olhar numa jóia,
Levar a alma, evolá-la para um refúgio,
Um nicho onde a vida não entra?
De que serve a arte como evasão
Se à vida teremos de regressar,
Se rumos mais teremos de trilhar,
Se vidas reais teremos de exaurir?

A arte, porquê evasão?
Porque não viver mais realmente,
De outros olhos, a nossa vida?
Quem se sabe sabedor do céu,
Saberá lutar contra o inferno,
Quem sabe canto,
Saberá embrenhar-se no silêncio?


A arte, porquê fugir de onde nasce?

Nuno Rocha Morais

quinta-feira, 7 de junho de 2018

(Amanhã fará dez anos que o Nuno nos deixou... Vou tratar da sua cremação e trazê-lo para casa, onde ele se sentia feliz)

Cremação

Ei-lo, sem luto e sem tento:
O ar fresco da manhã
Chega junto do teu corpo,
Que agora devolve todos os seus instantes,
E não se sabe comportar,
Chega como quem fala alto.
Serás de cinza.
Um comboio passa, só rumor,
A chuva é cada vez mais violenta,
Mas a este silêncio apenas chega o ar da manhã,
Fresco, gárrulo.
A sua mão espalhará a sua morte
A um vento de mil mariposas,
Nascidas de uma alegria feita carne e pétalas,
Quase alegria.
A morte sem dolo e pestilência.


       Nuno Rocha Morais 

sábado, 2 de junho de 2018

De quem esta sombra
Minha roubada?
Sombra que se mexe comigo,
Num silêncio de corda,
E, contudo, discorda sempre
Em cada movimento –
És sombra de quem?
Saudade de outro corpo,
Saudade de outro espelho escuro.
De quem é esta sombra?
Lembrança de outros gestos,
De outros corpos,
Sombra de outros erguidos,
Outros, não os meus,
Sombra, que emissária és tu?


Nuno Rocha Morais

domingo, 27 de maio de 2018

Têm chovido muitas palavras.
Por favor, não é uma metáfora.
Têm realmente chovido muitas palavras,
O chão está juncado delas,
Pendem das árvores, jazem nos parapeitos...
A fidelidade, a constância, poderiam tornar-nos perfeitos.
Há palavras que me levam contigo,
A que não voltarei, em que não voltarei.
Não as deveria talvez ter dito,
Muitas, estou certo, não as disse
Mas agora são tuas tantas dessas palavras
Que vão chovendo agora e agora
E não tenho palavras onde me abrigar.

Nuno Rocha Morais

Filosofia   É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...