domingo, 10 de junho de 2018

Ensaio

(Ao Christian Guernes e Manuela Colombo pelas belas traduções dos poemas do Nuno)


 
Porque há-de a arte
Submergir o nosso olhar numa jóia,
Levar a alma, evolá-la para um refúgio,
Um nicho onde a vida não entra?
De que serve a arte como evasão
Se à vida teremos de regressar,
Se rumos mais teremos de trilhar,
Se vidas reais teremos de exaurir?

A arte, porquê evasão?
Porque não viver mais realmente,
De outros olhos, a nossa vida?
Quem se sabe sabedor do céu,
Saberá lutar contra o inferno,
Quem sabe canto,
Saberá embrenhar-se no silêncio?


A arte, porquê fugir de onde nasce?

Nuno Rocha Morais

quinta-feira, 7 de junho de 2018

(Amanhã fará dez anos que o Nuno nos deixou... Vou tratar da sua cremação e trazê-lo para casa, onde ele se sentia feliz)

Cremação

Ei-lo, sem luto e sem tento:
O ar fresco da manhã
Chega junto do teu corpo,
Que agora devolve todos os seus instantes,
E não se sabe comportar,
Chega como quem fala alto.
Serás de cinza.
Um comboio passa, só rumor,
A chuva é cada vez mais violenta,
Mas a este silêncio apenas chega o ar da manhã,
Fresco, gárrulo.
A sua mão espalhará a sua morte
A um vento de mil mariposas,
Nascidas de uma alegria feita carne e pétalas,
Quase alegria.
A morte sem dolo e pestilência.


       Nuno Rocha Morais 

sábado, 2 de junho de 2018

De quem esta sombra
Minha roubada?
Sombra que se mexe comigo,
Num silêncio de corda,
E, contudo, discorda sempre
Em cada movimento –
És sombra de quem?
Saudade de outro corpo,
Saudade de outro espelho escuro.
De quem é esta sombra?
Lembrança de outros gestos,
De outros corpos,
Sombra de outros erguidos,
Outros, não os meus,
Sombra, que emissária és tu?


Nuno Rocha Morais

domingo, 27 de maio de 2018

Têm chovido muitas palavras.
Por favor, não é uma metáfora.
Têm realmente chovido muitas palavras,
O chão está juncado delas,
Pendem das árvores, jazem nos parapeitos...
A fidelidade, a constância, poderiam tornar-nos perfeitos.
Há palavras que me levam contigo,
A que não voltarei, em que não voltarei.
Não as deveria talvez ter dito,
Muitas, estou certo, não as disse
Mas agora são tuas tantas dessas palavras
Que vão chovendo agora e agora
E não tenho palavras onde me abrigar.

Nuno Rocha Morais

sábado, 19 de maio de 2018

Deixo a verdade mentir mais
E mais, até a mentira ser verdade:
Fundem-se assim opostos em iguais,
Misturados em uma mesma grade.
Vejo então qual verdade a falsa ponte
Que num nós funde os nossos sós pronomes
E de ti faz tangível horizonte,
País onde me acoites e me tomes.
Pela falsa verdade é que eu te falo,
Ébrio de quanto quero acreditar.
Depois, é o teu espanto como um galo,
Um sino ou um alarme a despertar
A mentira do seio da verdade,
Alma que, pela morte, do corpo se evade.

Nuno Rocha Morais

sábado, 12 de maio de 2018

As mães, todas as mães
Trazem um fragmento do tradicional Maio
Sempre nas mãos (ai, as mães e o seu prudente desvelo)
Com que remendam os olhos após muito choro.

As mães, também a minha mãe,
Que nos dão banho até aos ossos
E nos criam braços para o dia seguinte
E nos levam através do tempo pela mão.

A mãe, a minha mãe, a mãe
Eternamente minha, a mãe eterna...
Ai, a mãe é sobretudo o gesto do afago
Ardendo na transparência dos seus dedos.
Ai, se ao longo das palavras mais extensas
Se pudesse dizer quem é a mãe,
O amor pela mãe... Mas não,
A mãe imensa cabe apenas
Em Mãe.

Nuno Rocha Morais

terça-feira, 1 de maio de 2018

A memória não é menor,
Nem menos desesperada,
Mas ganhou lentura,
Diminuendo de lição aprendida,
Segura, depurando-se de pormenores.
           O caulino é agora basalto.

Nuno Rocha Morais

Filosofia   É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...