sábado, 19 de maio de 2018

Deixo a verdade mentir mais
E mais, até a mentira ser verdade:
Fundem-se assim opostos em iguais,
Misturados em uma mesma grade.
Vejo então qual verdade a falsa ponte
Que num nós funde os nossos sós pronomes
E de ti faz tangível horizonte,
País onde me acoites e me tomes.
Pela falsa verdade é que eu te falo,
Ébrio de quanto quero acreditar.
Depois, é o teu espanto como um galo,
Um sino ou um alarme a despertar
A mentira do seio da verdade,
Alma que, pela morte, do corpo se evade.

Nuno Rocha Morais

sábado, 12 de maio de 2018

As mães, todas as mães
Trazem um fragmento do tradicional Maio
Sempre nas mãos (ai, as mães e o seu prudente desvelo)
Com que remendam os olhos após muito choro.

As mães, também a minha mãe,
Que nos dão banho até aos ossos
E nos criam braços para o dia seguinte
E nos levam através do tempo pela mão.

A mãe, a minha mãe, a mãe
Eternamente minha, a mãe eterna...
Ai, a mãe é sobretudo o gesto do afago
Ardendo na transparência dos seus dedos.
Ai, se ao longo das palavras mais extensas
Se pudesse dizer quem é a mãe,
O amor pela mãe... Mas não,
A mãe imensa cabe apenas
Em Mãe.

Nuno Rocha Morais

terça-feira, 1 de maio de 2018

A memória não é menor,
Nem menos desesperada,
Mas ganhou lentura,
Diminuendo de lição aprendida,
Segura, depurando-se de pormenores.
           O caulino é agora basalto.

Nuno Rocha Morais

terça-feira, 24 de abril de 2018

Para a nossa querida amiga MANUELA COLOMBO com votos de rápida recuperação

Vim buscar-te ao fundo do medo, amiga,

Porque talvez juntos já não estejamos perdidos.

Filtrada pelo medo qualquer luz é mortífera,

Mas eu vim tomar-te as mãos

Para que então aí te entregues

Como o coração secreto de um fruto.

De um tempo dizimado

Podemos ainda erguer toda a luz.

Não vieste comigo:

Só no medo estavas segura.

                                 Nuno Rocha Morais

sábado, 14 de abril de 2018

(Love again?)

Nenhum gelo é irrevogável,
Nenhuma pedra inexorável:
O possível espreita sob a forma
De erva, uma folha, um olhar.
E então as pedras pedem pólen
E o gelo é feliz ao sol,
E a erosão canta e esculpe.

                                                                                                                                             Nuno Rocha Morais

domingo, 8 de abril de 2018

Atravessei o pez da noite,
O insecto indemne através da teia
De nuvens e poços de ar
E electricidade estáticas.
As luzes da pista surgem
Como ao longe a ressurreição
Para uma alma condenada
E ao fim de várias eternidades
A fuselagem da alma está salva
Quando as rodas tocam o asfalto
No apocalíptico rolar da salvação.

Nuno Rocha Morais

domingo, 1 de abril de 2018

Uma vida parece pouco,
Reduzida a três malas.
Talvez me possa levar
Um pouco deste céu,
Talvez alguém ofereça
Um búzio, que em si contém
Uma súmula do mar.
Parece pouco e ninguém
Poderia imaginar a súbita importância
Do voo oblíquo de uma ave
Em frente de uma janela
Ou os ruídos tão familiares
Que vão atravessando
A espessura do sono.
Mas é isto que não se conforma
Em três malas e é isto –
Tão definitivo e tão pouco –
Que nega a pretensão de unidade
De uma vida, a que faltarão
O modo e a linha melódica
De certas falas.
Na bagagem, tudo amortalhado
No repouso de restos.

Nuno Rocha Morais

Filosofia   É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...