Que da obra fique,
Não aquilo que desagua num suspiro,
Num fim;
Não o nada que se segue
Ao que está apaziguado na completude;
Que da obra fique antes
O contínuo gesto das estações,
Da busca da obra que cresce,
Germina, leveda;
Que da obra fique
O contínuo gesto de ser feita,
Mas animada pelo sábio ritmo da destruição;
A imperfeição conquista o tempo:
Que continuamente a obra se faça
No fazer-se do tempo.
Nuno Rocha Morais
domingo, 15 de maio de 2016
sábado, 7 de maio de 2016
terça-feira, 26 de abril de 2016
Poema terrível
Viu tudo em Hiroshima.
Viu tudo em Chernobyl.
Estes nomes edificados
sobre a morte:
A súbita síntese da
luz,
O sopro irresistível,
A redução de tudo à
sombra
A redução de tudo à
terra.
Viu tudo nas ilhas do
Pacífico,
No pacifico horizonte
Onde a morte se
ensaiava
Na erecção vegetal e
letal.
Viu tudo e tudo lhe
cavou o olhar,
Descobriu que nascer
talvez já não seja
O momento em que o
homem reconhece a sua vida.
Nuno Rocha Morais
segunda-feira, 25 de abril de 2016
É possível que o homem
caiba
Entre o céu e a terra
sem se rasgar.
É possível que o homem
caiba
Entre outros homens.
É possível que o homem
adormeça
Com lobos de fogo à
cabeceira.
É possível que toda a
verdade da boca
Caiba no beijo sobre a
pele.
É possível que o homem
viva
Dentro de si próprio,
Sem outra cor que não
seja a cor de ser homem,
Em que a fonte do homem
É apenas o homem:
À superfície do homem
A pura transparência
animal.
Nuno Rocha Morais
domingo, 17 de abril de 2016
COMUNICAÇÃO
A mãe
que crucifica o filho
Com
dois bofetões
E a
publicidade
E as
discussões familiares
E um
par de namorados felizes
E uma
vizinha submersa em luto
E um
homem que quase chora
E
tanta gente na mesma paragem de autocarro
Para
caminhos e intenções tão diversas
E
alguém que esquece que alguém morre –
Vida
e motivos obscuros.
Nuno Rocha Morais
domingo, 10 de abril de 2016
MODELOS
Ri,
sorri, prova, usa,
Corre,
salta, dança,
Tira,
põe, despe,
Sobretudo
despe,
Expondo
castamente
A
nudez comercial.
Aprenderam
a graça das nuvens,
Não
têm direito
À
treva da tristeza,
Aos
problemas íntimos e caseiros:
São
perseguidas por salas em festa,
Por
fotografias, amores infelizes,
São
perseguidas pela luz
Que,
inexorável, as corrompe
E
envelhece, como afinal, a todos.
A luz
que as recebeu,
A luz
que elas apuraram
É a
mesma luz que as vence,
Água
sobre papel.
Nuno Rocha Morais
domingo, 20 de março de 2016
A
Europa é um punho que se fecha
Sem
que ninguém saiba bem porquê,
Um
espantalho com capacete de aço
Sobre
campos estéreis,
Digladiando-se
com corvos e gralhas imaginários.
A
Europa enfraquece-se com sonhos de fortalezas,
Falésias,
escolhos, alcantis.
A
Europa há-de asfixiar
De
apenas tanto respirar
O seu
próprio ar.
E
lamentar as suas bodas de arame farpado.
Finalmente,
os moinhos carregam
Sobre
D. Quixote.
Nuno Rocha Morais
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