Filosofia
É certo que não há certeza alguma,
Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente,
Nem certeza da carne fluída
E a minha ideia do Universo
É um fio de dúvida.
Nuno Rocha Morais
Nada havia sido escrito para mim.
Os teus olhos não estavam escritos
Em lado nenhum; ninguém estivera
Antes de mim na minha solidão.
E havia gritos à procura da minha boca,
Dentro do meu amor por ti,
O amor nada sabia de si próprio
Por ninguém, livro nenhum ‑
Ia-se criando à tua imagem.
O primeiro amor, que é também o último,
Jamais está escrito.
Então, quase acreditei na força
De um grito inédito, inaudito:
Concedam-me este amor
E moverei o mundo ‑
Dirigindo-me não sei a quem;
Por descobrir estava que sentir não é poder,
Que o sol não se move, nem as outras estrelas,
Que para o amor não basta amarmos,
Eternos e morituros.
Nuno Rocha Morais
Poemas dos dias
(2022)
Não quero dizer nada.
Se eu quisesse não escrevia poemas.
Aliás o poema escreve-se dentro de mim,
Num fora de mim,
Noutra desenfreada de verde margem,
Alheia, distante, proibida.
O poema nasce do seu nada,
Do seu silêncio,
Respira numa raiz de nebulosa,
Torna-se arauto, nascido de um relâmpago
Ou ideia dolorosamente gotejante
Para as formas da escultura,
Ideia vinda do limbo
De um nome abandonado,
Ignorado,
Pois que os nomes não se criam,
Apenas se transformam.
O poema existe em mim,
Sem elos comigo:
Eu não o disponho.
O poema não é a sombra, o reflexo,
Do poeta.
Nuno Rocha Morais
Mergulho no rio do povo,
No seu rio de suor e loção da barba
E fritos e vozes roufenhas
E silêncios saturados.
O dia a prumo sobre o povo,
Sobre a torrente da sua pressa,
Da sua ânsia, da sua fome,
O dia que me atinge e me torna,
Como torna cada uma destas faces,
Uma gota do povo.
O povo sem deuses e sem sonhos
Que, no entanto, crê em sonhos e em deuses,
O povo que passa no olhar destes versos,
Versos que não são neo -reais
Ou realistas, mas apenas reais.
Nuno Rocha Morais
A maldição dos lugares é esta:
Prolongando-se em outro.
Porém, aqui, neste lugar,
Tantos ontens, ainda que residuais,
São audíveis e insistentes assaltam-nos,
Assustam-nos, dilaceram-nos
Com a sua presença de jamais regressarem.
O tempo passado vertebra os lugares,
Percorre-os como uma peste,
Recorda-nos que em nós
O tempo tem de ser extinto
Sempre duas vezes.
Nuno Rocha Morais
O que por ilusão dissemos pertencer-nos
Enleou-se em nós, como canto de sereia,
Induziu-nos a uma espécie de estase
Que confundimos com permanência.
E, no entanto, agora tudo é um passado
Que reconhecemos passado de mão em mão,
Quanto nos pertenceu apenas emprestado,
Algo de outros e que será de outros,
Sem marca alguma de ter sido nosso.
Nuno Rocha Morais
Dizes:
“Oxalá as cerejas fossem como os morangos silvestres”,
e o mundo abre-se em dois cachos
pendurados na alegria,
com os caroços da atenção
como se diria da dor
de os partilhar, selvagens.
Dizes da loucura silvestre
dos lábios percorridos
pelo sumo agreste
da fusão das cores.
Esqueces-te, porém, que as cerejas
terminam o difícil trabalho
de serem felizes
no dia que agora se encerra.
Nuno Rocha Morais
O fado deixa-nos
Lágrimas pelos olhos adentro.
No céu, apaga-se a geografia dos astros,
Saudade súbita
De algo ainda próximo,
Mas é a saudade futura presente.
O fado desatando o coração,
O fado abrindo uma gaveta
Antiquíssima e poeirenta
Onde reencontramos um pouco de nós.
Nuno Rocha Morais
Eis uma sede súbita de poemas –
Sede, não um pião vindo dos astros,
Não um raio, divino de vontade.
Percorro as sarças de palavras crepusculares,
Onde as espigas estão nuas e a terra
Exausta de cores.
Mas eis um pórtico
Onde as águas correm
Eis uma espiga que, de vários ângulos,
Brilha em fulvos diversos.
Eis o reflexo ilegível, eis o poema,
Refracção do dizer, momento
Em que, realmente, o poeta já não diz nada.
O poema é o incerto despertar
Do caminho na bruma,
Sem partitura ou norte,
A distância é ilegível,
Olhando para trás, a estrada
Antiga e fluente dorme,
Cansada do rumo e do tempo.
Nuno Rocha Morais
Liberdade. Será que a posso amar
Não posso dizer que a liberdade
Seja a ave, quase ponto indefinido, no céu...
Ou um vento anárquico que remexe nas árvores...
Não posso dizer sequer Liberdade
(Palavra de arestas tão gastas)
Porque nem sequer a sei dizer,
Dizer verdadeiramente – Liberdade!
Liberdade, será que te posso conhecer,
Será que te posso amar
Se nunca te perdi?
Nuno Rocha Morais
On the road com Kerouac
Nada mais do que a batida
De um saxofone pela estrada
Interior. A América cresce
Ao ritmo da voz negra
De um branco numa sala traseira.
A estrada protege-nos o rosto,
Afinal é o ponto da perda,
O lugar onde tudo se reflecte
No espectro dos pássaros da tarde.
Droga-te com estas palavras
Que roçam o asfalto da vida.
A loucura é o nível mais alto
Do mundo a curva de um trópico
Rumo à Terra do Fogo:
Burn, burn, burn
Like fabulous yellow roman candles
Exploding like spiders across the stars.
E arder não é mais do que uma pradaria
Soprada pelo sol da noite que floresce.
A estrada segue sobre rodas
Em direcção ao inferno, uma densa
Eternidade amortalhada penetra
Na boca em transe, suspensa
Na limpidez de um grito harmónico.
O Mississippi lava a América,
O seu corpo em carne viva. Agora
A estrada é água, cola-se à transparência
E move-se por entre um barco que voa
Na crescente ausência do espaço.
Assim se atravessa a eternidade,
Na dissolução do Grande Golfo da Noite,
Nos quilómetros desolados da paisagem,
Nos espaços azuis rasgados pelo céu,
Como se a página fosse o Vale do Mundo.
Estremece-se com a intuição do tempo
Ao receber o mundo em bruto. A nudez.
O lugar comum, but no matter,
The road is life.
Nunca se morre o suficiente
Para se poder chorar, dirias,
Guardando a vida na mão como um bocado de lixo.
Das borboletas ainda brotam nuvens,
Afinal é possível que a poeira suba até às estrelas
Que trespassam a escuridão.
Lonely as America,
A throatpierced sound in the night:
A tua solidão explode com o som entrecortado
Do saxofone borbulhando ondas
De música brutal. A estrada do som
A estrada dos santos,
A estrada dos doidos,
A estrada do arco-íris,
A estrada interminável,
Um demoníaco reflexo da noite negra
No asfalto. Os sonhos terminam,
O mundo espraia-se, trémulo,
Palpita pela estrada fora,
É a ira que chega à velha dança.
Um rochedo explode em flor, o abismo oscila
Ao mais pequeno toque,
É um precipício seráfico e frenético.
Tudo vibra, a grande serpente emerge
Na imobilidade dos gestos,
Um insecto sai da tarde americana
Picando a realidade, a estrada está prestes
A sair da América, de toda essa terra bruta
De pessoas dispersas na imensidão.
No regresso, resta apenas
Percorrer a virgindade da berma.
Nuno Rocha Morais
Das areias exauridas
Mas jamais mortas.
Releio rumores de mim,
Mas algo se perdeu
Entre os olhos presentes
E as palavras de sentido perdido,
Onde a profundidade é incompreensível:
Ler estas palavras é pedir-lhes silêncio.
Tudo se perdeu, apenas as ondulações
Transbordantes de dor ou alegria
Falam ainda com a mesma voz.
Nuno Rocha Morais
Sento-me aqui contigo,
Perguntas sem resposta
Ou demasiadas respostas
Para uma só pergunta.
Estamos aqui, devagar, a ser
A alegria toda
À sombra do sacrifício.
Ambos sabemos – não vais ficar
Mas aqui estou, aqui fico,
Feliz enquanto estou
Dentro dos teus dias.
Nuno Rocha Morais
Filosofia É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...