sábado, 1 de agosto de 2026

Filosofia

 

É certo que não há certeza alguma,

Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente,

Nem certeza da carne fluída

Nem certeza da fonte que é a alma.

 

E a minha ideia do Universo

É um fio de dúvida.


 Nuno Rocha Morais




sábado, 25 de julho de 2026

Primeiro amor

Tentei todas as formas de mágoa

Na minha própria mágoa: nenhuma servia.

Nada havia sido escrito para mim. 

Os teus olhos não estavam escritos

Em lado nenhum; ninguém estivera

Antes de mim na minha solidão.

E havia gritos à procura da minha boca,

Dentro do meu amor por ti,

O amor nada sabia de si próprio

Por ninguém, livro nenhum ‑

Ia-se criando à tua imagem.

O primeiro amor, que é também o último,

Jamais está escrito.

Então, quase acreditei na força

De um grito inédito, inaudito:

Concedam-me este amor

E moverei o mundo ‑

Dirigindo-me não sei a quem;

Por descobrir estava que sentir não é poder,

Que o sol não se move, nem as outras estrelas,

Que para o amor não basta amarmos,

Eternos e morituros.


Nuno Rocha Morais 

Poemas dos dias 

(2022)

sábado, 18 de julho de 2026

A tarde compõe-se no céu,
Teatral, florida, clara:

Espessura de aves do Verão.

Mas em mim soam os tambores da chuva,

Tantos tambores tentaculares...

É a alegria de estar vivo

Tantas vezes pontuada

Por longos espaços de pedras longas,

Rajadas de silêncio,

Buracos de mim.


Nuno Rocha Morais
 

sábado, 11 de julho de 2026

I

Poeta – sincinesia da realidade

Distorcida pelos espelhos

Semeados nas palavras.


 

II

Onde a grafia for mais sinuosa

Onde a síncope do olhar for profunda

Aí estará a poesia


Nuno Rocha Morais 


 

sábado, 4 de julho de 2026

Não quero dizer nada.

Se eu quisesse não escrevia poemas.

Aliás o poema escreve-se dentro de mim,

Num fora de mim,

Noutra desenfreada de verde margem,

Alheia, distante, proibida.

O poema nasce do seu nada,

Do seu silêncio,

Respira numa raiz de nebulosa,

Torna-se arauto, nascido de um relâmpago

Ou ideia dolorosamente gotejante

Para as formas da escultura,

Ideia vinda do limbo

De um nome abandonado,

Ignorado,

Pois que os nomes não se criam,

Apenas se transformam.

O poema existe em mim,

Sem elos comigo:

Eu não o disponho.

O poema não é a sombra, o reflexo,

Do poeta.


Nuno Rocha Morais

sábado, 27 de junho de 2026

O fim começa-se 
No próprio princípio,

Na sua negação prolongado.

Assim, também a voz

Tantas vezes, em si mesma

Prisioneira

Da morte de tantos poetas

E ninguém sabe. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 20 de junho de 2026

A noite demora-se a passear
Pelas figuras que a povoam:

O orvalho da nostalgia,

Uma melancolia,

Uma tristeza antiquíssima

Que sobe aos olhos.

Pelas ruas, pelo silêncio,

Algo secreto rege brumas

E amplia os ângulos da sombra. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 13 de junho de 2026

Mergulho no rio do povo,

No seu rio de suor e loção da barba

E fritos e vozes roufenhas

E silêncios saturados.

O dia a prumo sobre o povo,

Sobre a torrente da sua pressa,

Da sua ânsia, da sua fome,

O dia que me atinge e me torna,

Como torna cada uma destas faces,

Uma gota do povo.

O povo sem deuses e sem sonhos

Que, no entanto, crê em sonhos e em deuses,

O povo que passa no olhar destes versos,

Versos que não são neo -reais

Ou realistas, mas apenas reais.

 

Nuno Rocha Morais




sábado, 6 de junho de 2026

A maldição dos lugares é esta:

São um tempo que acaba,

Prolongando-se em outro.

Porém, aqui, neste lugar, 

Tantos ontens, ainda que residuais,

São audíveis e insistentes assaltam-nos,

Assustam-nos, dilaceram-nos

Com a sua presença de jamais regressarem.

O tempo passado vertebra os lugares,

Percorre-os como uma peste,

Recorda-nos que em nós

O tempo tem de ser extinto

Sempre duas vezes.


Nuno Rocha Morais
 

sábado, 30 de maio de 2026

O que por ilusão dissemos pertencer-nos

Enleou-se em nós, como canto de sereia,

Induziu-nos a uma espécie de estase

Que confundimos com permanência.

E, no entanto, agora tudo é um passado

Que reconhecemos passado de mão em mão,

Quanto nos pertenceu apenas emprestado,

Algo de outros e que será de outros,

Sem marca alguma de ter sido nosso.

 

Nuno Rocha Morais


 

sábado, 23 de maio de 2026

Dizes:

“Oxalá as cerejas fossem como os morangos silvestres”,

e o mundo abre-se em dois cachos

pendurados na alegria,

com os caroços da atenção

deitados fora pelo vermelho.
Dizes dos morangos

como se diria da dor

de os partilhar, selvagens.

Dizes da loucura silvestre

dos lábios percorridos 

pelo sumo agreste

da fusão das cores.

Esqueces-te, porém, que as cerejas

terminam o difícil trabalho

de serem felizes

no dia que agora se encerra. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 16 de maio de 2026

Toda a música
Traz uma memória própria,

Sábia de quanto esquecemos.

O seu fluir cristaliza

Num breve fulgor.

Toda a música 

 

Transplanta para nós

A memória de que ela é tempo,

Essa música que adormece, cumprida, 

É a nossa reconciliação 

Com o silêncio.



Nuno Rocha Morais

sábado, 9 de maio de 2026

O fado deixa-nos 

Abandonados na praia,
As notas quebrando-nos os olhos,

Lágrimas pelos olhos adentro.

No céu, apaga-se a geografia dos astros,

Saudade súbita

De algo ainda próximo,

Mas é a saudade futura presente.

O fado desatando o coração,

O fado abrindo uma gaveta

Antiquíssima e poeirenta

Onde reencontramos um pouco de nós.


Nuno Rocha Morais

sábado, 2 de maio de 2026

Eis uma sede súbita de poemas –

Sede, não um pião vindo dos astros,

Não um raio, divino de vontade.

Percorro as sarças de palavras crepusculares,

Onde as espigas estão nuas e a terra 

Exausta de cores.

Mas eis um pórtico

Onde as águas correm

Eis uma espiga que, de vários ângulos,

Brilha em fulvos diversos.

Eis o reflexo ilegível, eis o poema, 

Refracção do dizer, momento

Em que, realmente, o poeta já não diz nada.

O poema é o incerto despertar

Do caminho na bruma,

Sem partitura ou norte,

A distância é ilegível,

Olhando para trás, a estrada

Antiga e fluente dorme,

Cansada do rumo e do tempo.


Nuno Rocha Morais


sábado, 25 de abril de 2026

Liberdade. Será que a posso amar
Se nunca aprendi a perdê-la?

Não posso dizer que a liberdade

Seja a ave, quase ponto indefinido, no céu...

Ou um vento anárquico que remexe nas árvores...

Não posso dizer sequer Liberdade

(Palavra de arestas tão gastas)

Porque nem sequer a sei dizer, 

Dizer verdadeiramente – Liberdade!

Liberdade, será que te posso conhecer,

Será que te posso amar

Se nunca te perdi? 


                                Nuno Rocha Morais

sábado, 18 de abril de 2026

 On the road com Kerouac

 

Nada mais do que a batida

De um saxofone pela estrada

Interior. A América cresce 

Ao ritmo da voz negra

De um branco numa sala traseira.

A estrada protege-nos o rosto,

Afinal é o ponto da perda,

O lugar onde tudo se reflecte

No espectro dos pássaros da tarde.

Droga-te com estas palavras

Que roçam o asfalto da vida.

A loucura é o nível mais alto

Do mundo a curva de um trópico

Rumo à Terra do Fogo:

Burn, burn, burn

Like fabulous yellow roman candles

Exploding like spiders across the stars.

E arder não é mais do que uma pradaria

Soprada pelo sol da noite que floresce.

A estrada segue sobre rodas

Em direcção ao inferno, uma densa 

Eternidade amortalhada penetra

Na boca em transe, suspensa

Na limpidez de um grito harmónico.

O Mississippi lava a América,

O seu corpo em carne viva. Agora

A estrada é água, cola-se à transparência

E move-se por entre um barco que voa

Na crescente ausência do espaço.

Assim se atravessa a eternidade,

Na dissolução do Grande Golfo da Noite,

Nos quilómetros desolados da paisagem,

Nos espaços azuis rasgados pelo céu,

Como se a página fosse o Vale do Mundo.

Estremece-se com a intuição do tempo

Ao receber o mundo em bruto. A nudez.

O lugar comum, but no matter,

The road is life.

Nunca se morre o suficiente

Para se poder chorar, dirias,

Guardando a vida na mão como um bocado de lixo.

Das borboletas ainda brotam nuvens,

Afinal é possível que a poeira suba até às estrelas

Que trespassam a escuridão.

Lonely as America,

A throatpierced sound in the night:

A tua solidão explode com o som entrecortado

Do saxofone borbulhando ondas

De música brutal. A estrada do som

A estrada dos santos,

A estrada dos doidos,

A estrada do arco-íris,

A estrada interminável,

Um demoníaco reflexo da noite negra

No asfalto. Os sonhos terminam,

O mundo espraia-se, trémulo,

Palpita pela estrada fora,

É a ira que chega à velha dança.

Um rochedo explode em flor, o abismo oscila

Ao mais pequeno toque,

É um precipício seráfico e frenético.

Tudo vibra, a grande serpente emerge

Na imobilidade dos gestos,

Um insecto sai da tarde americana

Picando a realidade, a estrada está prestes

A sair da América, de toda essa terra bruta

De pessoas dispersas na imensidão.

No regresso, resta apenas

Percorrer a virgindade da berma. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 11 de abril de 2026

Vou folheando a memória,
Onde as datas são o eco

Das areias exauridas

Mas jamais mortas.

Releio rumores de mim,

Mas algo se perdeu

Entre os olhos presentes

E as palavras de sentido perdido,

Onde a profundidade é incompreensível:

Ler estas palavras é pedir-lhes silêncio.

Tudo se perdeu, apenas as ondulações

Transbordantes de dor ou alegria

Falam ainda com a mesma voz. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 4 de abril de 2026

 Primaveras anónimas,

Apostando serenamente nas cores

Moldáveis para que cada um

Construa o seu próprio florescer.


Nuno Rocha Morais

sábado, 28 de março de 2026

Sento-me aqui contigo,

Ignorando o trânsito
Enquanto como transeuntes passam

Perguntas sem resposta

Ou demasiadas respostas

Para uma só pergunta.

Estamos aqui, devagar, a ser

A alegria toda

À sombra do sacrifício.

Ambos sabemos – não vais ficar

Mas aqui estou, aqui fico,

Feliz enquanto estou

Dentro dos teus dias. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 21 de março de 2026

O poema como um sismógrafo de ilusão,
Em cujas palavras vazias de som

Se adivinha o coração suspenso.

O poema como um arar sem revolver,

O lugar de ligar luas longínquas,

Lugar de imaginar um coração:

Poema – câmara de caminhos

Desaguando em múltiplas distâncias. 



Nuno Rocha Morais

Filosofia   É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...