sábado, 18 de abril de 2026

 On the road com Kerouac

 

Nada mais do que a batida

De um saxofone pela estrada

Interior. A América cresce 

Ao ritmo da voz negra

De um branco numa sala traseira.

A estrada protege-nos o rosto,

Afinal é o ponto da perda,

O lugar onde tudo se reflecte

No espectro dos pássaros da tarde.

Droga-te com estas palavras

Que roçam o asfalto da vida.

A loucura é o nível mais alto

Do mundo a curva de um trópico

Rumo à Terra do Fogo:

Burn, burn, burn

Like fabulous yellow roman candles

Exploding like spiders across the stars.

E arder não é mais do que uma pradaria

Soprada pelo sol da noite que floresce.

A estrada segue sobre rodas

Em direcção ao inferno, uma densa 

Eternidade amortalhada penetra

Na boca em transe, suspensa

Na limpidez de um grito harmónico.

O Mississippi lava a América,

O seu corpo em carne viva. Agora

A estrada é água, cola-se à transparência

E move-se por entre um barco que voa

Na crescente ausência do espaço.

Assim se atravessa a eternidade,

Na dissolução do Grande Golfo da Noite,

Nos quilómetros desolados da paisagem,

Nos espaços azuis rasgados pelo céu,

Como se a página fosse o Vale do Mundo.

Estremece-se com a intuição do tempo

Ao receber o mundo em bruto. A nudez.

O lugar comum, but no matter,

The road is life.

Nunca se morre o suficiente

Para se poder chorar, dirias,

Guardando a vida na mão como um bocado de lixo.

Das borboletas ainda brotam nuvens,

Afinal é possível que a poeira suba até às estrelas

Que trespassam a escuridão.

Lonely as America,

A throatpierced sound in the night:

A tua solidão explode com o som entrecortado

Do saxofone borbulhando ondas

De música brutal. A estrada do som

A estrada dos santos,

A estrada dos doidos,

A estrada do arco-íris,

A estrada interminável,

Um demoníaco reflexo da noite negra

No asfalto. Os sonhos terminam,

O mundo espraia-se, trémulo,

Palpita pela estrada fora,

É a ira que chega à velha dança.

Um rochedo explode em flor, o abismo oscila

Ao mais pequeno toque,

É um precipício seráfico e frenético.

Tudo vibra, a grande serpente emerge

Na imobilidade dos gestos,

Um insecto sai da tarde americana

Picando a realidade, a estrada está prestes

A sair da América, de toda essa terra bruta

De pessoas dispersas na imensidão.

No regresso, resta apenas

Percorrer a virgindade da berma. 


Nuno Rocha Morais

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