sábado, 26 de outubro de 2024


De algum modo, desconfiar da música

Que parece oferecer as suas alcovas

Para depor cuidados ou para um esquecimento fácil,

Rodeando-nos com os seus paraísos artificiais,

A ondulação de bosques mágicos,

As suas paredes fabulosas e invisíveis,

O acalanto dos seus reinos inalcançáveis,

As suas huris e águas perfumadas.

Não aceitar a música que não traga

As suas próprias bacantes,

Por exemplo, alastrando num piano,

Cada vez mais selvagem,

Subvertendo a ordem de um piano,

Dilacerando e enlouquecendo escalas,

Sopro de turbação em todas as geometrias,

Harmonia dissidente,

Não aceitar nenhuma música

Que não aceite primeiro

Desmembrar-se, despedaçar-se,

Sem se comprazer na sua própria forma,

Para dar lugar no interior de si

A uma música mais perfeita –

E assim sucessivamente,

Eclodindo na sua pira funerária.

 

Nuno Rocha  Morais


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