domingo, 9 de fevereiro de 2025


(À maneira de Yorgos Seferis)

 

Éramos tão jovens e o amor tardio:

Não o veríamos, como o não vimos,

Como o não veremos.

A lunação de um anjo 

Atravessou sussurradamente

As nossas marés, os nossos lugares,

Escapou às malhas dos nossos corações.

É verdade, envelhecemos,

E o amor rescende, tão jovem.

Como se faz agora?

Quanto passou deixou uma ferida

E o passar do anjo que não vimos

Cobre-as de sal.

O amor, tão jovem, já nada pode em nós,

Somos incêndios cristalizados.

Tu terás sido o anjo que não vi,

Aqui ficaste, caída, desfolhando-te,

Perpétua na tua efemeridade.

Perdemos tudo.

Pela primeira vez sentimo-nos claramente esculpidos,

Libertos da pedra da carne,

Mas só uma tristeza vil nos esculpiu. 


Nuno Rocha Morais

 (Galeria 2016)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025


México

(Homenagem à pátria de Octavio Paz)


México — 

O sol e a lua sucedem-se

Imolando-se ritmicamente,

Com as suas luzes de sílex,

Em homenagem aos espíritos aztecas,

Cujas vozes ainda se ouvem

Nos murmúrios do milho,

Pirâmides do ouro.


Nas estatuetas de barro

Desponta ainda um coração.

E, nas igrejas cristãs, austeras,

Por entre as sombras silenciosas e respeitosas,

Os ecos dos antigos deuses aztecas

Vagueiam, ainda poderosos.

Nuno Rocha Morais

 (Galeria 2016) 





sábado, 1 de fevereiro de 2025

Tão falsas as palavras
Quando digo “morri” nada se passa

Ou quando digo “amo-te”

Nenhuma festa jorra

Nada se passa senão quando

De facto te amo sem palavras

 

Sou capaz de dizer espadas

Com doçura

Sou capaz de ternura

Com os gestos das pedras

 

São falsas as palavras

Verdadeiras mentiras

E eu tenho o lastro da minha vida

Como todos nas palavras

 

São falsas todas as palavras

Até as palavras que com verdade

Se dizem e reconhecem

Falsas



Nuno Rocha Morais 

domingo, 26 de janeiro de 2025

Litania da libertação




                                                                        "por onde alcançar o azul da terra

                                                                        onde se confundem a chuva e os ausentes"

                                                                                                                        Pablo Neruda


Onde o dia se confunde com o horizonte;

Onde o espelho se confunde com o sangue;

Onde o Inverno se confunde com o sono;

Onde a teia se confunde com a boca;

Onde o vinho se confunde com a explosão;

Onde os pássaros se confundem com a luz;

Aí, nesse lugar, nesse tempo,

Onde o espaço se confunde com o sonho,

E o tempo com um tema exaurido,

Aí, eu não me confundirei comigo,

O ausente. 


Nuno Rocha Morais (Galeria 2016)

domingo, 19 de janeiro de 2025

À minha volta, um excesso de presenças.

Em cada objecto, um elo de memória,

Um rasto de tempo passado 

Guia-me até às bases do silêncio,

Onde uma imagem resiste.

As faces rodam

E tudo em mim se espelha,

Nada se grava.

 

                                                Penso na amnistia da estranheza.


Nuno Rocha Morais 

sábado, 11 de janeiro de 2025

Definição

É algo que não pode voltar,
Como um rio que passa,

E dura, e jamais volta.

É algo como um sono

Em que o voo se dissolve

E de onde nunca mais se liberta.

É a extensa neve da escuridão,

Da perda, é algo de coisa nenhuma. 


Nuno Henrique Rocha Morais

domingo, 5 de janeiro de 2025


Às vezes, regressar não é bem um regresso
Se já nada ficou do lugar

De onde se partiu.

O regresso pode ser anulado

Pelos olhares que a indiferença apouca,

Pela sombra de coisas que já não existem,

Pela sombria aragem de uma seiva perdida.

Um lugar é um lento fruto de sabor rápido,

Esboroa-se e os seus sedimentos dispersam-se. 


Nuno Rocha Morais

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...