quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Tenho a pedra da treva pelo meu lado.
Do poeta sou somente o gesto abstracto
A que a palavra só concede o tacto
Do plano dizer, não mais. Sou poeta vendado.

E apenas cantarei o que é exacto,
A superfície fácil do olhado
Que sai do canto vão, vitrificado,
Deixando ao poema só mera forma do facto.


Nuno Rocha Morais

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Senhor, é já algo que transborda,
Eflúvio de sal ou dor
Que rouba aos gestos a cor
E apaga a corda do riso.

Senhor, eu sou tormenta,
Mas também sou barco.
Neste que luta, naquela que rebenta,
Em qual, Senhor, posso ser fraco?


Nuno Rocha Morais

                                     Ilustração de Rasa Sakalaite

segunda-feira, 22 de setembro de 2014


A morte nada dura
É tempo de despir o luto
Antes que comece a confundir-se com a pele
Oh! A morte nada dura
De novo há pássaros que submergem
O lento remar dos adágios
O grave requiem dos prantos
A morte nada dura
Os mortos voltam nos vivos
Aos vivos



Nuno Rocha Morais

domingo, 21 de setembro de 2014

Tradição

Com dedos antiquíssimos,
Deixaram-se raízes
No barro, na madeira –
Vigília da voz nas formas
E na matéria.
Provérbios de água,
Quadras de terra,
A geografia do ser
Português.
       Nuno Rocha Morais

                   
Eu sou daqui
E não sei senão ser daqui,
Como os rios que em oceanos se fundem
E nunca esquecem o seu rosto inicial:
Leve, quase alado suspiro de água
Entre inominadas rochas.
Os rios retomam sempre
Essa sua infância.

Eu sou daqui
E não sei senão ser daqui,
Mas tu não entendes
O peso que é, às vezes, ser daqui:
Tu és filha de cosmopolita néon,
És eco de outros rios.
Portanto, não podes entender
O peso que é, tantas vezes,
O ser português.



Nuno Rocha Morais

Filosofia   É certo que não há certeza alguma, Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente, Nem certeza da carne fluída Nem certeza da fonte...