sábado, 28 de dezembro de 2024

Animais de estimação


 

Pode, com propriedade, dizer-se que nascer

Foi o seu cativeiro, colaram-lhes um nome,

Moldaram-nos como indivíduos

Ou projectaram neles a ilusão

De que havia ali algo de único,

Algo mais do que a mera réplica

Das características de uma espécie

Que se perpetua numa mole indistinta.

Tiveram esses fictícios indivíduos mais sorte 

Do que todos os outros sem nome

Na massa bruta e anónima?

Afectos, se os houve, não contrariaram

A sua natureza mais profunda –

Uma selvajaria instintiva, refractária,

Uma solidão enfim quebrada, vencida,

Mas talvez mais nobre, que é também nossa

E que preterimos em detrimento de alma?

Animais de estimação talvez acabemos todos

Mais cedo ou mais tarde nessa tristeza

Esfuziada, árida morte – adestrada.

Morrerão da morte que lhes inventarmos.

A ferocidade castiça, a inteligência senta-se nas patas traseiras,

Dá saltos mortais, sob o aplauso geral,

Ou bufa, silva, ladra, ruge, agita tentáculos

Ou tenazes, morde, fere e é sempre risível,

Mesmo quando mortal.

 

Animais que, de tão pacíficos,

Nem para se defenderem

Sabem os gestos da violência.


Nuno Rocha Morais 

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