Pode, com propriedade, dizer-se que nascer
Foi o seu cativeiro, colaram-lhes um nome,
Moldaram-nos como indivíduos
Ou projectaram neles a ilusão
De que havia ali algo de único,
Algo mais do que a mera réplica
Das características de uma espécie
Que se perpetua numa mole indistinta.
Tiveram esses fictícios indivíduos mais sorte
Do que todos os outros sem nome
Na massa bruta e anónima?
Afectos, se os houve, não contrariaram
A sua natureza mais profunda –
Uma selvajaria instintiva, refractária,
Uma solidão enfim quebrada, vencida,
Mas talvez mais nobre, que é também nossa
E que preterimos em detrimento de alma?
Animais de estimação talvez acabemos todos
Mais cedo ou mais tarde nessa tristeza
Esfuziada, árida morte – adestrada.
Morrerão da morte que lhes inventarmos.
A ferocidade castiça, a inteligência senta-se nas patas traseiras,
Dá saltos mortais, sob o aplauso geral,
Ou bufa, silva, ladra, ruge, agita tentáculos
Ou tenazes, morde, fere e é sempre risível,
Mesmo quando mortal.
Animais que, de tão pacíficos,
Nem para se defenderem
Sabem os gestos da violência.
Nuno Rocha Morais
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