O coração das águas corre,
Turbulento, eu vim com a lama
Até encontrar detença aqui,
Na margem tranquila.
Cheguei tão longe – que lugar é este?
São os teus olhos,
Não posso voltar para trás.
Nuno Rocha Morais
Poemas dos Dias (2022)
Permaneceram fiéis, os meus mortos,
Aqui gravitam, na densidade das suas almas
Superior ao facto de terem sido corpos
Vislumbrando-os em fissuras do tempo,
Distracções de que logo se recompõe.
Vislumbro-os a horas neutras
No trânsito entre a vida e a morte,
Átonas de valores simbólicos.
Vislumbro-os regressando
Apressados aos retratos.
Nuno Rocha Morais
Poemas dos Dias (2022)
Candelabros, móveis, livros –
Leves no interior da sua presença.
Nenhum pó subjuga
A sua autoridade.
À sua volta, irradia a força
De outras atmosferas
E há uma súbita corrente de ares,
Passagem de outras vozes, luzes,
Que bruxuleiam um instante
E logo pesam, dissipando a ilusão.
Rodeiam-me coisas antigas
E sei-me rodeado de vidas;
Rodeiam-me coisas antigas,
Plácidas, serenas,
Detidas na enseada de si mesmas.
Nuno Rocha Morais
Poemas dos Dias (2022)
Diáspora ou fuga,
E tu ouves, com a calma antiquíssima
Das estações, em que uma
É o despertar da outra.
Há muito que eu não surgia
Ao cimo da minha própria voz,
No exílio exigido
E agora vou-te contando o meu nome de acaso
Com a exactidão possível.
Este nome que eu considerei deluso,
Falso, este nome que é agora
O meu, já não um espaço vazio.
Nuno Rocha Morais
Coloridas e ritmadas
Legitima a ilusão
De que um estro clareia
No mais fundo das cordas
Que às vezes me servem de dedos e palavras
Legitima a ilusão de que a poesia
Encosta a verdade como verdade –
Quer fazer-me cantar a poesia
Para que a minha voz vaze
Até às profundezas de uma nudez
Para que não mais transborde
De um isolamento de um naufrágio
De uma morte
Para que não mais eu raie os símbolos
E consuma as metáforas
Para que eu deixe figuras e vitrais e formas
Assombrosas geometrias para os ungidos
Cala-me a poesia com ilusão dela
Na erógena voz roça leves e finos cantos
Quase linho quase luz
Mas eu respondo-lhe com um milénio
De pedra treva claustral
Calo a poesia que me cala
E calado não mais deixarei que me calem
Nuno Rocha Morais
A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro. O odor das orquídeas não é o mesmo, Morreram com a extinção do fogo. Tudo é cinza, espaço em nunc...