sábado, 4 de abril de 2026

 Primaveras anónimas,

Apostando serenamente nas cores

Moldáveis para que cada um

Construa o seu próprio florescer.


Nuno Rocha Morais

sábado, 28 de março de 2026

Sento-me aqui contigo,

Ignorando o trânsito
Enquanto como transeuntes passam

Perguntas sem resposta

Ou demasiadas respostas

Para uma só pergunta.

Estamos aqui, devagar, a ser

A alegria toda

À sombra do sacrifício.

Ambos sabemos – não vais ficar

Mas aqui estou, aqui fico,

Feliz enquanto estou

Dentro dos teus dias. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 21 de março de 2026

O poema como um sismógrafo de ilusão,
Em cujas palavras vazias de som

Se adivinha o coração suspenso.

O poema como um arar sem revolver,

O lugar de ligar luas longínquas,

Lugar de imaginar um coração:

Poema – câmara de caminhos

Desaguando em múltiplas distâncias. 



Nuno Rocha Morais

sábado, 14 de março de 2026

Aforismo

Memórias de flores não povoam jardins



Teus olhos, Honorine, cruzaram oceanos,

Longamente tristes, sequiosos,

Como flor aberta na sombra em busca do sol.

Vieram com o vento e com as ondas

Em música e cantos de sereia,

Através dos campos e bosques da beira-mar,

Vieram até mim estudante triste

Dum país do Sul.


Nuno Rocha Morais 

sexta-feira, 6 de março de 2026

Guerra para acabar com as guerras ?

Não há Deus no “no man's land,”

Religião alguma aí se vende.

 

Alcandorado em preces pelos séculos,

Deus morreu no terror de homens - tubérculos.

 

Onde homens não subsistem, morre Deus

Flutuando em vazios, vazios céus.


Nuno Rocha Morais 

  

sábado, 28 de fevereiro de 2026

O céu tão límpido, vazio

E a terra tão cheia –

Por toda a parte,

A construção da vida e da morte.

Que mundo poderemos ainda erguer

Deste espaço envelhecido?

Deste espaço que não é multiplicável,

Só dentro dos olhos

O horizonte cresce

E é infinito.


Nuno Rocha Morais 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Confissão de abandono

Neste momento exacto,

Se a exactidão é possível no tempo,

Sou um buraco de mim.

Deixa-me acontecer paradamente

Nos meus pequenos sonos de pó,

Nas pequenas redomas da minha solidão.

Não sei se o verão trará lugar para mim

Ou se esse lugar serão os teus braços.

Sou agora um tronco de árvore,

Um silêncio de pé.

Não me peças que disseque o meu olhar,

Se queres fazer algo por mim,

Diz ao dia que não insista mais comigo.

Fechei.

 

Nuno Rocha Morais

 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

Vem do largo, vem do mar, o vento longo,

Vem pôr cadências no teu cabelo,

O vento largo, o vento longo.

Entanto, o silêncio exíguo,

A luz sulfurosa num voo sucinto,

O céu incipiente, os rudimentos da manhã.

O que respiro não é livre.

O que chega já não é o mundo.

Aqui e agora imóveis – no preciso instante,

No ápice da agonia, que vem do fundo,

De um mar afogado num signo.


Nuno Rocha Morais
 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Companhia

 Livro,

Companheiro de chuva,

De céu puro,

Quantas vezes segui o fio

Das horas nas tuas páginas.

Quantas vezes me li,

Te vi o meu reflexo;

O que eu abri do mundo.

 

Silente, vivo,

Lá está, tranquilo,

Aguardando-me,

Correr de regato ávido. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 31 de janeiro de 2026

A minha roupa pesa ainda com o teu cheiro.
O odor das orquídeas não é o mesmo,

Morreram com a extinção do fogo.

Tudo é cinza, espaço em nunca convertido,

Tudo é um apenas olhar do corpo sobre o ido

Fulgor das fracas palavras que ficaram.

Hoje nada parece suster a respiração

Do teu folego rente à pele

Dos dias. Tudo é, no voo do sol da tarde,

Apenas um ardor desfalecido. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 24 de janeiro de 2026

Indagações no exílio

 

Velha proa harpa dos ventos
que mares tangem tuas cordas


O mar antigo contido

numa estrofe de Camões?

 

O mar dos mercadores

mar negreiro

cavado nos porões?

 

O mar das searas concretas

mar das ceifeiras

mar dos poetas

o mais vasto mar da marinhagem

que nada teve nunca?

 

Velha proa harpa dos ventos 


Nuno Rocha Morais

sábado, 17 de janeiro de 2026

Quando a escrita a si mesmo se molda

Muito britânicos, fomos tomar café de monóculo.
Galinhas rasgavam de som as horas, algures.

Havia sonhos muito decotados, muito seios,

Havia candeeiros onde as mãos se substituíam.

Alguém escrevia com bolas de ténis

Um guarda-chuva bebia conhaque com um peru.

 

Escrita automática
Esgrima autónoma

Auto escrita automática

Atemática escrita

Estro astro

Bestial escrita

Antónima escrita 


Nuno Rocha Morais

sábado, 10 de janeiro de 2026

Mundividências


 

I. Espera e confia

  Assim, a chacina

  Custa menos.

 

II. Para este mundo já não há

    Argumentos ou atenuantes.

 

III. Só pela dor o mundo

      É evidente.

 

IV. Ó vida,

     Diamante de esponja. 



Nuno Rocha Morais

sábado, 3 de janeiro de 2026

O momento mais puro

Guardei-o sempre em mim

Por medo da pureza.

Fui antes duro e execrável,

Abri os braços à ira, rédea solta,

Como só assim o amor

Fosse suportável, humano.


                    Nuno Rocha Morais
 

  Primaveras anónimas, Apostando serenamente nas cores Moldáveis para que cada um Construa o seu próprio florescer. Nuno Rocha Morais