sábado, 27 de setembro de 2025

Impulso


A terra que existe no mar:
As ondas que atravessam o oceano

Para, como as baleias, virem morrer

Nas ternas praias que a elas se estendem,

As ondas que, na ira do amor,

Explodem contra falésias e recifes. 


Nuno Rocha Morais

domingo, 21 de setembro de 2025


Ó Natureza, onde o Eu
Encontra irmandades,

Ó Natureza onde a alma

Já não é ponto isolado,

Rodeado por silêncios ignaros,

Ó Natureza, também eu

Recebo a fertilidade que a ti desce,

Vinda dos ventres das estações,

Também eu venço estios e invernias,

Também me desfolho e enfloro.

Sou natureza, ó Natureza,

E dentro da estação que sou

O ciclo das estações. 


Nuno Rocha Morais

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Outrora, quando o tempo
Às vezes ainda era a coincidência

Do sonho e da realidade,

Acreditava-se que o homem poderia

Ser fiel, mas como,

Se dentro de si próprio

O homem possui inúmeros senhores?

A quem ser fiel?

Ao feudalismo do coração,

Ao imperialismo da razão,

Ao consumismo da experiência? 


                                                                        Nuno Rocha Morais

domingo, 7 de setembro de 2025

 Não há um mesmo chão

Para cada um de nós;

Há um, de forma diversa,

Para cada um de nós,

Cujo reflexo da gravidade

É o seu peso no pensar,

No sentir, no imaginar,

Mediante as elevações que concede.

 

Pelo amor, um e outro chão

Nivelam-se,

E um guia o outro no chão de cada um:

Apenas o amor é chão neutro

E partilhado e nesse chão

Os dois chãos se comungam

Tornando-se amor.


Nuno Rocha Morais

sábado, 30 de agosto de 2025


A noite fugindo pela saudade dentro,
A saudade entrando pelo teu rosto,

Luz insone e constante

Que narra a tua memória.

 

Por onde se desperta,

Onde é que a folhagem do sono acaba,

Vencer este sono sonâmbulo

Que és tu, apenas tu?

 

Tu não és o tanto – és o tudo

E nunca o tudo poderá ser tanto como tu,

Farol narrando o rumo na bruma,

Tu serás sempre o chamamento do fim.

 

Dividido, soltando sonhos na deriva do ar

Deixo cair a cabeça no incerto amplexo do sono. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 23 de agosto de 2025

Destino


O centro do sol

Oferece-nos vogais.

Pelo espaço oscilam

Linhas invisíveis.

Daquela que seguirmos

Herdaremos um dia. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 16 de agosto de 2025


 Fome árida, 

Queimadas as encostas

Por onde a cor descia

Em amplas jazidas,

Desertas as vilas,

Ébrias de vazio,

Pacientes, insidiosas

Memória nómada no pó,

A lei do silêncio,

Um silêncio que arde na paisagem

Como choro contido,

Rios que morrem em charcos,

Lentamente reduzidos a areia,

Um cansaço que calcina todo o céu –

Decido – Emigro de mim.

Além dos montes está

O longe de ser já outro.


Nuno Rocha Morais

 Tínhamos esquecido que poderia Acontecer assim, a manhã, E num súbito calor Haver uma energia súbita Que a reconhece e lhe responde ...