sábado, 4 de julho de 2026

Não quero dizer nada.

Se eu quisesse não escrevia poemas.

Aliás o poema escreve-se dentro de mim,

Num fora de mim,

Noutra desenfreada de verde margem,

Alheia, distante, proibida.

O poema nasce do seu nada,

Do seu silêncio,

Respira numa raiz de nebulosa,

Torna-se arauto, nascido de um relâmpago

Ou ideia dolorosamente gotejante

Para as formas da escultura,

Ideia vinda do limbo

De um nome abandonado,

Ignorado,

Pois que os nomes não se criam,

Apenas se transformam.

O poema existe em mim,

Sem elos comigo:

Eu não o disponho.

O poema não é a sombra, o reflexo,

Do poeta.


Nuno Rocha Morais

sábado, 27 de junho de 2026

O fim começa-se 
No próprio princípio,

Na sua negação prolongado.

Assim, também a voz

Tantas vezes, em si mesma

Prisioneira

Da morte de tantos poetas

E ninguém sabe. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 20 de junho de 2026

A noite demora-se a passear
Pelas figuras que a povoam:

O orvalho da nostalgia,

Uma melancolia,

Uma tristeza antiquíssima

Que sobe aos olhos.

Pelas ruas, pelo silêncio,

Algo secreto rege brumas

E amplia os ângulos da sombra. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 13 de junho de 2026

Mergulho no rio do povo,

No seu rio de suor e loção da barba

E fritos e vozes roufenhas

E silêncios saturados.

O dia a prumo sobre o povo,

Sobre a torrente da sua pressa,

Da sua ânsia, da sua fome,

O dia que me atinge e me torna,

Como torna cada uma destas faces,

Uma gota do povo.

O povo sem deuses e sem sonhos

Que, no entanto, crê em sonhos e em deuses,

O povo que passa no olhar destes versos,

Versos que não são neo -reais

Ou realistas, mas apenas reais.

 

Nuno Rocha Morais




sábado, 6 de junho de 2026

A maldição dos lugares é esta:

São um tempo que acaba,

Prolongando-se em outro.

Porém, aqui, neste lugar, 

Tantos ontens, ainda que residuais,

São audíveis e insistentes assaltam-nos,

Assustam-nos, dilaceram-nos

Com a sua presença de jamais regressarem.

O tempo passado vertebra os lugares,

Percorre-os como uma peste,

Recorda-nos que em nós

O tempo tem de ser extinto

Sempre duas vezes.


Nuno Rocha Morais
 

sábado, 30 de maio de 2026

O que por ilusão dissemos pertencer-nos

Enleou-se em nós, como canto de sereia,

Induziu-nos a uma espécie de estase

Que confundimos com permanência.

E, no entanto, agora tudo é um passado

Que reconhecemos passado de mão em mão,

Quanto nos pertenceu apenas emprestado,

Algo de outros e que será de outros,

Sem marca alguma de ter sido nosso.

 

Nuno Rocha Morais


 

sábado, 23 de maio de 2026

Dizes:

“Oxalá as cerejas fossem como os morangos silvestres”,

e o mundo abre-se em dois cachos

pendurados na alegria,

com os caroços da atenção

deitados fora pelo vermelho.
Dizes dos morangos

como se diria da dor

de os partilhar, selvagens.

Dizes da loucura silvestre

dos lábios percorridos 

pelo sumo agreste

da fusão das cores.

Esqueces-te, porém, que as cerejas

terminam o difícil trabalho

de serem felizes

no dia que agora se encerra. 


Nuno Rocha Morais

Não quero dizer nada. Se eu quisesse não escrevia poemas. Aliás o poema escreve-se dentro de mim, Num fora de mim, Noutra desenfreada de ver...