sábado, 31 de outubro de 2026

Já ninguém parte de madrugada

E partir já não é haver alguém

Que prenda um olhar profundo

Lançado do alto das falésias de uma despedida.

Perdeu-se esse hábito tão português

Do adeus mordido nos lábios.

Momento algum me serve de engaste

Com este lugar e, indiferentes aos lugares

Se vão desmoronando na distância.

Em outro lado me espera a minha vida.

E vou partir numa hora

Em que já ninguém pensa em mim

E ninguém conseguirá reunir palavras bastantes

Para alcançar a altura de uma pergunta

E perguntar por mim.

Já ninguém parte de madrugada

O caminho de ferro é dos poucos rios

Que ainda vive e viaja

Entre os vários lugares

Onde me espera a minha vida.

Vou chegar de madrugada,

A madrugada vazia de um lugar

Onde nada me espera

A não ser a minha vida.

O futuro não desinquieta

O passado que não há.

Onde futuro e passado

Não se desinquietam mutuamente.


Nuno Rocha Morais
 

sábado, 24 de outubro de 2026

Os homens são os anagramas dos deuses;

A vida corre naqueles

Com a predestinação de desaguar na terra,

Na cinza, apenas com promessas

Ardendo no último fulgor dos olhos.

Os deuses possuem veias de pedra

E entretêm-se com os universos

Microscópicos e frágeis que os homens constroem,

Os homens apagam-se, arrancam-se

Como pó de uma página. Os deuses duram.

 

Os homens choram e amam

De acordo com a sua medida, com o que o seu horizonte

Pode abranger.

Os deuses, quando amam, criam mundos

E choram vulcões e maremotos

E sismos e fendas.

Mas há homens que moram muito acima

Do fim do tempo parado

Que a sua lápide assinala. 

 

Os homens dependem do hausto

Da semente de ar,

Dependem da sapiência generosa dos deuses

Mas os deuses vivem

Apenas na nave da crença humana.


Nuno Rocha Morais


 

sábado, 17 de outubro de 2026

 À noite, Deus envia-nos os seus demónios,

A terra queimada de dúvidas,

Êxodo de crenças e amores,

A corrente traiçoeira de esperanças

E para que esta vida seja suportável,

Para que tudo não se esfume

Pelas suas fronteiras súbitas,

Deixando-me na polpa de um vazio,

Combato Deus contra a ideia de paraíso.


Nuno Rocha Morais

sábado, 10 de outubro de 2026


Procuro ocultar

Todos quantos estiveram

No poema antes de mim,

Procuro resgatar o verso

De todo o contágio,

Diferenciar a minha palavra

Da herança comum.

Procuro que no verso

Tudo meça

A minha própria densidade.

Mas procuro também suspender-me,

Ser no verso um regresso invisível.

Vou deixando por rasto o silêncio.


Nuno Rocha Morais

 

sábado, 3 de outubro de 2026

sábado, 26 de setembro de 2026

Pego num isto e vou pô-lo além:

A distância mudou o ser do objecto

E o eu sabê-lo é agora outro tecto,

Pois que a coisa se diz por outro termo.

 

No saber há sempre mais um além

Que o ser busca de ciência já enfermo

Mas p´ra ciência o saber nosso é restrito

A nossa ignorância é o próprio infinito. 


Nuno Rocha Morais

domingo, 20 de setembro de 2026

 

Poesia, respiração.

O sangue da terra

Entra nas palavras

E liberta-se.

 

Poesia, respiração.

Um bosque acorda

E abre-se à luz da música

Rasgando a nocturna cúpula do silêncio.

 

Nuno Rocha Morais



 

 


Já ninguém parte de madrugada E partir já não é haver alguém Que prenda um olhar profundo Lançado do alto das falésias de uma despedida. Per...