Sábia de quanto esquecemos.
O seu fluir cristaliza
Num breve fulgor.
Toda a música
Transplanta para nós
A memória de que ela é tempo,
Essa música que adormece, cumprida,
É a nossa reconciliação
Com o silêncio.
Nuno Rocha Morais
O fado deixa-nos
Lágrimas pelos olhos adentro.
No céu, apaga-se a geografia dos astros,
Saudade súbita
De algo ainda próximo,
Mas é a saudade futura presente.
O fado desatando o coração,
O fado abrindo uma gaveta
Antiquíssima e poeirenta
Onde reencontramos um pouco de nós.
Nuno Rocha Morais
Eis uma sede súbita de poemas –
Sede, não um pião vindo dos astros,
Não um raio, divino de vontade.
Percorro as sarças de palavras crepusculares,
Onde as espigas estão nuas e a terra
Exausta de cores.
Mas eis um pórtico
Onde as águas correm
Eis uma espiga que, de vários ângulos,
Brilha em fulvos diversos.
Eis o reflexo ilegível, eis o poema,
Refracção do dizer, momento
Em que, realmente, o poeta já não diz nada.
O poema é o incerto despertar
Do caminho na bruma,
Sem partitura ou norte,
A distância é ilegível,
Olhando para trás, a estrada
Antiga e fluente dorme,
Cansada do rumo e do tempo.
Nuno Rocha Morais
Liberdade. Será que a posso amar
Não posso dizer que a liberdade
Seja a ave, quase ponto indefinido, no céu...
Ou um vento anárquico que remexe nas árvores...
Não posso dizer sequer Liberdade
(Palavra de arestas tão gastas)
Porque nem sequer a sei dizer,
Dizer verdadeiramente – Liberdade!
Liberdade, será que te posso conhecer,
Será que te posso amar
Se nunca te perdi?
Nuno Rocha Morais
On the road com Kerouac
Nada mais do que a batida
De um saxofone pela estrada
Interior. A América cresce
Ao ritmo da voz negra
De um branco numa sala traseira.
A estrada protege-nos o rosto,
Afinal é o ponto da perda,
O lugar onde tudo se reflecte
No espectro dos pássaros da tarde.
Droga-te com estas palavras
Que roçam o asfalto da vida.
A loucura é o nível mais alto
Do mundo a curva de um trópico
Rumo à Terra do Fogo:
Burn, burn, burn
Like fabulous yellow roman candles
Exploding like spiders across the stars.
E arder não é mais do que uma pradaria
Soprada pelo sol da noite que floresce.
A estrada segue sobre rodas
Em direcção ao inferno, uma densa
Eternidade amortalhada penetra
Na boca em transe, suspensa
Na limpidez de um grito harmónico.
O Mississippi lava a América,
O seu corpo em carne viva. Agora
A estrada é água, cola-se à transparência
E move-se por entre um barco que voa
Na crescente ausência do espaço.
Assim se atravessa a eternidade,
Na dissolução do Grande Golfo da Noite,
Nos quilómetros desolados da paisagem,
Nos espaços azuis rasgados pelo céu,
Como se a página fosse o Vale do Mundo.
Estremece-se com a intuição do tempo
Ao receber o mundo em bruto. A nudez.
O lugar comum, but no matter,
The road is life.
Nunca se morre o suficiente
Para se poder chorar, dirias,
Guardando a vida na mão como um bocado de lixo.
Das borboletas ainda brotam nuvens,
Afinal é possível que a poeira suba até às estrelas
Que trespassam a escuridão.
Lonely as America,
A throatpierced sound in the night:
A tua solidão explode com o som entrecortado
Do saxofone borbulhando ondas
De música brutal. A estrada do som
A estrada dos santos,
A estrada dos doidos,
A estrada do arco-íris,
A estrada interminável,
Um demoníaco reflexo da noite negra
No asfalto. Os sonhos terminam,
O mundo espraia-se, trémulo,
Palpita pela estrada fora,
É a ira que chega à velha dança.
Um rochedo explode em flor, o abismo oscila
Ao mais pequeno toque,
É um precipício seráfico e frenético.
Tudo vibra, a grande serpente emerge
Na imobilidade dos gestos,
Um insecto sai da tarde americana
Picando a realidade, a estrada está prestes
A sair da América, de toda essa terra bruta
De pessoas dispersas na imensidão.
No regresso, resta apenas
Percorrer a virgindade da berma.
Nuno Rocha Morais
Das areias exauridas
Mas jamais mortas.
Releio rumores de mim,
Mas algo se perdeu
Entre os olhos presentes
E as palavras de sentido perdido,
Onde a profundidade é incompreensível:
Ler estas palavras é pedir-lhes silêncio.
Tudo se perdeu, apenas as ondulações
Transbordantes de dor ou alegria
Falam ainda com a mesma voz.
Nuno Rocha Morais
Toda a música Traz uma memória própria, Sábia de quanto esquecemos. O seu fluir cristaliza Num breve fulgor. Toda a música Transplanta pa...