sábado, 6 de junho de 2026

A maldição dos lugares é esta:

São um tempo que acaba,

Prolongando-se em outro.

Porém, aqui, neste lugar, 

Tantos ontens, ainda que residuais,

São audíveis e insistentes assaltam-nos,

Assustam-nos, dilaceram-nos

Com a sua presença de jamais regressarem.

O tempo passado vertebra os lugares,

Percorre-os como uma peste,

Recorda-nos que em nós

O tempo tem de ser extinto

Sempre duas vezes.


Nuno Rocha Morais
 

sábado, 30 de maio de 2026

O que por ilusão dissemos pertencer-nos

Enleou-se em nós, como canto de sereia,

Induziu-nos a uma espécie de estase

Que confundimos com permanência.

E, no entanto, agora tudo é um passado

Que reconhecemos passado de mão em mão,

Quanto nos pertenceu apenas emprestado,

Algo de outros e que será de outros,

Sem marca alguma de ter sido nosso.

 

Nuno Rocha Morais


 

sábado, 23 de maio de 2026

Dizes:

“Oxalá as cerejas fossem como os morangos silvestres”,

e o mundo abre-se em dois cachos

pendurados na alegria,

com os caroços da atenção

deitados fora pelo vermelho.
Dizes dos morangos

como se diria da dor

de os partilhar, selvagens.

Dizes da loucura silvestre

dos lábios percorridos 

pelo sumo agreste

da fusão das cores.

Esqueces-te, porém, que as cerejas

terminam o difícil trabalho

de serem felizes

no dia que agora se encerra. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 16 de maio de 2026

Toda a música
Traz uma memória própria,

Sábia de quanto esquecemos.

O seu fluir cristaliza

Num breve fulgor.

Toda a música 

 

Transplanta para nós

A memória de que ela é tempo,

Essa música que adormece, cumprida, 

É a nossa reconciliação 

Com o silêncio.



Nuno Rocha Morais

sábado, 9 de maio de 2026

O fado deixa-nos 

Abandonados na praia,
As notas quebrando-nos os olhos,

Lágrimas pelos olhos adentro.

No céu, apaga-se a geografia dos astros,

Saudade súbita

De algo ainda próximo,

Mas é a saudade futura presente.

O fado desatando o coração,

O fado abrindo uma gaveta

Antiquíssima e poeirenta

Onde reencontramos um pouco de nós.


Nuno Rocha Morais

sábado, 2 de maio de 2026

Eis uma sede súbita de poemas –

Sede, não um pião vindo dos astros,

Não um raio, divino de vontade.

Percorro as sarças de palavras crepusculares,

Onde as espigas estão nuas e a terra 

Exausta de cores.

Mas eis um pórtico

Onde as águas correm

Eis uma espiga que, de vários ângulos,

Brilha em fulvos diversos.

Eis o reflexo ilegível, eis o poema, 

Refracção do dizer, momento

Em que, realmente, o poeta já não diz nada.

O poema é o incerto despertar

Do caminho na bruma,

Sem partitura ou norte,

A distância é ilegível,

Olhando para trás, a estrada

Antiga e fluente dorme,

Cansada do rumo e do tempo.


Nuno Rocha Morais


sábado, 25 de abril de 2026

Liberdade. Será que a posso amar
Se nunca aprendi a perdê-la?

Não posso dizer que a liberdade

Seja a ave, quase ponto indefinido, no céu...

Ou um vento anárquico que remexe nas árvores...

Não posso dizer sequer Liberdade

(Palavra de arestas tão gastas)

Porque nem sequer a sei dizer, 

Dizer verdadeiramente – Liberdade!

Liberdade, será que te posso conhecer,

Será que te posso amar

Se nunca te perdi? 


                                Nuno Rocha Morais

A maldição dos lugares é esta: São um tempo que acaba, Prolongando-se em outro. Porém, aqui, neste lugar,  Tantos ontens, ainda que residuai...