Se adivinha o coração suspenso.
O poema como um arar sem revolver,
O lugar de ligar luas longínquas,
Lugar de imaginar um coração:
Poema – câmara de caminhos
Desaguando em múltiplas distâncias.
Nuno Rocha Morais
Memórias de flores não povoam jardins
Teus olhos, Honorine, cruzaram oceanos,
Longamente tristes, sequiosos,
Como flor aberta na sombra em busca do sol.
Vieram com o vento e com as ondas
Em música e cantos de sereia,
Através dos campos e bosques da beira-mar,
Vieram até mim estudante triste
Dum país do Sul.
Nuno Rocha Morais
Não há Deus no “no man's land,”
Religião alguma aí se vende.
Alcandorado em preces pelos séculos,
Deus morreu no terror de homens - tubérculos.
Onde homens não subsistem, morre Deus
Flutuando em vazios, vazios céus.
Nuno Rocha Morais
Neste momento exacto,
Se a exactidão é possível no tempo,
Sou um buraco de mim.
Deixa-me acontecer paradamente
Nos meus pequenos sonos de pó,
Nas pequenas redomas da minha solidão.
Não sei se o verão trará lugar para mim
Ou se esse lugar serão os teus braços.
Sou agora um tronco de árvore,
Um silêncio de pé.
Não me peças que disseque o meu olhar,
Se queres fazer algo por mim,
Diz ao dia que não insista mais comigo.
Fechei.
Nuno Rocha Morais
Vem pôr cadências no teu cabelo,
O vento largo, o vento longo.
Entanto, o silêncio exíguo,
A luz sulfurosa num voo sucinto,
O céu incipiente, os rudimentos da manhã.
O que respiro não é livre.
O que chega já não é o mundo.
Aqui e agora imóveis – no preciso instante,
No ápice da agonia, que vem do fundo,
De um mar afogado num signo.
Nuno Rocha Morais
Livro,
Companheiro de chuva,De céu puro,
Quantas vezes segui o fio
Das horas nas tuas páginas.
Quantas vezes me li,
Te vi o meu reflexo;
O que eu abri do mundo.
Silente, vivo,
Lá está, tranquilo,
Aguardando-me,
Correr de regato ávido.
Nuno Rocha Morais
O poema como um sismógrafo de ilusão, Em cujas palavras vazias de som Se adivinha o coração suspenso. O poema como um arar sem revolver, O l...