Poeta – sincinesia da realidade
Distorcida pelos espelhos
Semeados nas palavras.
II
Onde a grafia for mais sinuosa
Onde a síncope do olhar for profunda
Aí estará a poesia
Nuno Rocha Morais
Não quero dizer nada.
Se eu quisesse não escrevia poemas.
Aliás o poema escreve-se dentro de mim,
Num fora de mim,
Noutra desenfreada de verde margem,
Alheia, distante, proibida.
O poema nasce do seu nada,
Do seu silêncio,
Respira numa raiz de nebulosa,
Torna-se arauto, nascido de um relâmpago
Ou ideia dolorosamente gotejante
Para as formas da escultura,
Ideia vinda do limbo
De um nome abandonado,
Ignorado,
Pois que os nomes não se criam,
Apenas se transformam.
O poema existe em mim,
Sem elos comigo:
Eu não o disponho.
O poema não é a sombra, o reflexo,
Do poeta.
Nuno Rocha Morais
Mergulho no rio do povo,
No seu rio de suor e loção da barba
E fritos e vozes roufenhas
E silêncios saturados.
O dia a prumo sobre o povo,
Sobre a torrente da sua pressa,
Da sua ânsia, da sua fome,
O dia que me atinge e me torna,
Como torna cada uma destas faces,
Uma gota do povo.
O povo sem deuses e sem sonhos
Que, no entanto, crê em sonhos e em deuses,
O povo que passa no olhar destes versos,
Versos que não são neo -reais
Ou realistas, mas apenas reais.
Nuno Rocha Morais
A maldição dos lugares é esta:
Prolongando-se em outro.
Porém, aqui, neste lugar,
Tantos ontens, ainda que residuais,
São audíveis e insistentes assaltam-nos,
Assustam-nos, dilaceram-nos
Com a sua presença de jamais regressarem.
O tempo passado vertebra os lugares,
Percorre-os como uma peste,
Recorda-nos que em nós
O tempo tem de ser extinto
Sempre duas vezes.
Nuno Rocha Morais
O que por ilusão dissemos pertencer-nos
Enleou-se em nós, como canto de sereia,
Induziu-nos a uma espécie de estase
Que confundimos com permanência.
E, no entanto, agora tudo é um passado
Que reconhecemos passado de mão em mão,
Quanto nos pertenceu apenas emprestado,
Algo de outros e que será de outros,
Sem marca alguma de ter sido nosso.
Nuno Rocha Morais
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