Já ninguém parte de madrugada
E partir já não é haver alguém
Que prenda um olhar profundo
Lançado do alto das falésias de uma despedida.
Do adeus mordido nos lábios.
Momento algum me serve de engaste
Com este lugar e, indiferentes aos lugares
Se vão desmoronando na distância.
Em outro lado me espera a minha vida.
E vou partir numa hora
Em que já ninguém pensa em mim
E ninguém conseguirá reunir palavras bastantes
Para alcançar a altura de uma pergunta
E perguntar por mim.
Já ninguém parte de madrugada
O caminho de ferro é dos poucos rios
Que ainda vive e viaja
Entre os vários lugares
Onde me espera a minha vida.
Vou chegar de madrugada,
A madrugada vazia de um lugar
Onde nada me espera
A não ser a minha vida.
O futuro não desinquieta
O passado que não há.
Onde futuro e passado
Não se desinquietam mutuamente.
Nuno Rocha Morais
