sábado, 25 de julho de 2026

Primeiro amor

Tentei todas as formas de mágoa

Na minha própria mágoa: nenhuma servia.

Nada havia sido escrito para mim. 

Os teus olhos não estavam escritos

Em lado nenhum; ninguém estivera

Antes de mim na minha solidão.

E havia gritos à procura da minha boca,

Dentro do meu amor por ti,

O amor nada sabia de si próprio

Por ninguém, livro nenhum ‑

Ia-se criando à tua imagem.

O primeiro amor, que é também o último,

Jamais está escrito.

Então, quase acreditei na força

De um grito inédito, inaudito:

Concedam-me este amor

E moverei o mundo ‑

Dirigindo-me não sei a quem;

Por descobrir estava que sentir não é poder,

Que o sol não se move, nem as outras estrelas,

Que para o amor não basta amarmos,

Eternos e morituros.


Nuno Rocha Morais 

Poemas dos dias 

(2022)

sábado, 18 de julho de 2026

A tarde compõe-se no céu,
Teatral, florida, clara:

Espessura de aves do Verão.

Mas em mim soam os tambores da chuva,

Tantos tambores tentaculares...

É a alegria de estar vivo

Tantas vezes pontuada

Por longos espaços de pedras longas,

Rajadas de silêncio,

Buracos de mim.


Nuno Rocha Morais
 

sábado, 11 de julho de 2026

I

Poeta – sincinesia da realidade

Distorcida pelos espelhos

Semeados nas palavras.


 

II

Onde a grafia for mais sinuosa

Onde a síncope do olhar for profunda

Aí estará a poesia


Nuno Rocha Morais 


 

sábado, 4 de julho de 2026

Não quero dizer nada.

Se eu quisesse não escrevia poemas.

Aliás o poema escreve-se dentro de mim,

Num fora de mim,

Noutra desenfreada de verde margem,

Alheia, distante, proibida.

O poema nasce do seu nada,

Do seu silêncio,

Respira numa raiz de nebulosa,

Torna-se arauto, nascido de um relâmpago

Ou ideia dolorosamente gotejante

Para as formas da escultura,

Ideia vinda do limbo

De um nome abandonado,

Ignorado,

Pois que os nomes não se criam,

Apenas se transformam.

O poema existe em mim,

Sem elos comigo:

Eu não o disponho.

O poema não é a sombra, o reflexo,

Do poeta.


Nuno Rocha Morais

sábado, 27 de junho de 2026

O fim começa-se 
No próprio princípio,

Na sua negação prolongado.

Assim, também a voz

Tantas vezes, em si mesma

Prisioneira

Da morte de tantos poetas

E ninguém sabe. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 20 de junho de 2026

A noite demora-se a passear
Pelas figuras que a povoam:

O orvalho da nostalgia,

Uma melancolia,

Uma tristeza antiquíssima

Que sobe aos olhos.

Pelas ruas, pelo silêncio,

Algo secreto rege brumas

E amplia os ângulos da sombra. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 13 de junho de 2026

Mergulho no rio do povo,

No seu rio de suor e loção da barba

E fritos e vozes roufenhas

E silêncios saturados.

O dia a prumo sobre o povo,

Sobre a torrente da sua pressa,

Da sua ânsia, da sua fome,

O dia que me atinge e me torna,

Como torna cada uma destas faces,

Uma gota do povo.

O povo sem deuses e sem sonhos

Que, no entanto, crê em sonhos e em deuses,

O povo que passa no olhar destes versos,

Versos que não são neo -reais

Ou realistas, mas apenas reais.

 

Nuno Rocha Morais




Primeiro amor

Tentei todas as formas de mágoa Na minha própria mágoa: nenhuma servia. Nada havia sido escrito para mim.  Os teus olhos não estavam escrito...