O orvalho da nostalgia,
Uma melancolia,
Uma tristeza antiquíssima
Que sobe aos olhos.
Pelas ruas, pelo silêncio,
Algo secreto rege brumas
E amplia os ângulos da sombra.
Nuno Rocha Morais
Mergulho no rio do povo,
No seu rio de suor e loção da barba
E fritos e vozes roufenhas
E silêncios saturados.
O dia a prumo sobre o povo,
Sobre a torrente da sua pressa,
Da sua ânsia, da sua fome,
O dia que me atinge e me torna,
Como torna cada uma destas faces,
Uma gota do povo.
O povo sem deuses e sem sonhos
Que, no entanto, crê em sonhos e em deuses,
O povo que passa no olhar destes versos,
Versos que não são neo -reais
Ou realistas, mas apenas reais.
Nuno Rocha Morais
A maldição dos lugares é esta:
Prolongando-se em outro.
Porém, aqui, neste lugar,
Tantos ontens, ainda que residuais,
São audíveis e insistentes assaltam-nos,
Assustam-nos, dilaceram-nos
Com a sua presença de jamais regressarem.
O tempo passado vertebra os lugares,
Percorre-os como uma peste,
Recorda-nos que em nós
O tempo tem de ser extinto
Sempre duas vezes.
Nuno Rocha Morais
O que por ilusão dissemos pertencer-nos
Enleou-se em nós, como canto de sereia,
Induziu-nos a uma espécie de estase
Que confundimos com permanência.
E, no entanto, agora tudo é um passado
Que reconhecemos passado de mão em mão,
Quanto nos pertenceu apenas emprestado,
Algo de outros e que será de outros,
Sem marca alguma de ter sido nosso.
Nuno Rocha Morais
Dizes:
“Oxalá as cerejas fossem como os morangos silvestres”,
e o mundo abre-se em dois cachos
pendurados na alegria,
com os caroços da atenção
como se diria da dor
de os partilhar, selvagens.
Dizes da loucura silvestre
dos lábios percorridos
pelo sumo agreste
da fusão das cores.
Esqueces-te, porém, que as cerejas
terminam o difícil trabalho
de serem felizes
no dia que agora se encerra.
Nuno Rocha Morais
O fado deixa-nos
Lágrimas pelos olhos adentro.
No céu, apaga-se a geografia dos astros,
Saudade súbita
De algo ainda próximo,
Mas é a saudade futura presente.
O fado desatando o coração,
O fado abrindo uma gaveta
Antiquíssima e poeirenta
Onde reencontramos um pouco de nós.
Nuno Rocha Morais
A noite demora-se a passear Pelas figuras que a povoam: O orvalho da nostalgia, Uma melancolia, Uma tristeza antiquíssima Que sobe aos olhos...