Mas quando o leram,
Teceram nele a noite
E enterraram-no
Na sua página.
Assim morrem
Os poetas.
Nuno Rocha Morais
Nuno Rocha Morais
Procuras nas mesas
Uma enseada para a tristeza.
Essa distância teatral.
Deixa-te partir nos vapores,
Nos travos, nos rumores,
Nos rostos estranhos.
Aqui, o amor protege-se das noites,
Do desejo que não se cumpre,
E a solidão esconde-se da solidão.
Procuras nas mesas a redoma,
O ventre de uma pausa.
Aqui encontras na luz
As obscuridades possíveis.
Nuno Rocha Morais
Nada havia sido escrito para mim.
Os teus olhos não estavam escritos
Em lado nenhum; ninguém estivera
Antes de mim na minha solidão.
E havia gritos à procura da minha boca,
Dentro do meu amor por ti,
O amor nada sabia de si próprio
Por ninguém, livro nenhum ‑
Ia-se criando à tua imagem.
O primeiro amor, que é também o último,
Jamais está escrito.
Então, quase acreditei na força
De um grito inédito, inaudito:
Concedam-me este amor
E moverei o mundo ‑
Dirigindo-me não sei a quem;
Por descobrir estava que sentir não é poder,
Que o sol não se move, nem as outras estrelas,
Que para o amor não basta amarmos,
Eternos e morituros.
Nuno Rocha Morais
Poemas dos dias
(2022)
Escrevi um poema – Escrevi dia. Mas quando o leram, Teceram nele a noite E enterraram-no Na sua página. Assim morrem Os poetas. Nuno Ro...