domingo, 20 de setembro de 2026

 

Poesia, respiração.

O sangue da terra

Entra nas palavras

E liberta-se.

 

Poesia, respiração.

Um bosque acorda

E abre-se à luz da música

Rasgando a nocturna cúpula do silêncio.

 

Nuno Rocha Morais



 

 


sábado, 12 de setembro de 2026

Até te ter sonhado, não acreditei

Que estivesses aqui, ao meu lado,

Não antes de, desde um sonho,

Ter tocado o teu ombro na realidade.


Nuno Rocha Morais
 

sábado, 5 de setembro de 2026

Na Igreja das Antas


Perante este Cristo imenso

Que se cansou de esperar

O amor que o poupasse ao sacrifício

E se prepara para sair da cruz,

Só o nosso amor nos defende ainda,

Perante este Cristo das trevas,

Luciferino e vingador,

Pressinto a tua morte, e a minha,

Que se reconhecem e enlaçam

E se aproximam de nós. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 29 de agosto de 2026

Vejo o teu peito convulsionado
Por escalas que sobem e descem,

Cada vez mais alto,

Cada vez mais fundo,

Carregadas de choro escuro.

E penso: ” Seja o que for,

O fio do choro não o poderá reparar.

Nada devolverá à tua vida

Uma unidade que nunca teve.”

Mas nada te digo:

As palavras são apenas palavras

E sempre alheias

Não é com palavras que sentimos

Que aplacamos o sentir. 

Deverás ser tu a dissipar

As tuas tempestades quando exaustas,

Tu a caminhar sobre as tuas águas,

Serenando o seu medo e a sua fúria,

Tu a encontrar o ritmo nítido da tua paz. 


Nuno Rocha Morais



sábado, 22 de agosto de 2026

Escrevi um poema –
Escrevi dia.

Mas quando o leram,

Teceram nele a noite

E enterraram-no

Na sua página.

Assim morrem 

Os poetas.  


Nuno Rocha Morais

sábado, 15 de agosto de 2026


Tínhamos esquecido que poderia
Acontecer assim, a manhã,
E num súbito calor
Haver uma energia súbita
Que a reconhece e lhe responde
Juntando-se ao poliedro em turbilhão
De faces incontáveis,
De pássaros lançados
Às mãos cheias pelo ar,
E a toda essa harmonia imperiosa,
Diversa unindo, o diverso enlaçando.
Contudo as suas horas tão leves,
Tempo sem esforço, cansaço,
Não são para o nosso tempo
De sobressalto e contratempo
De quem não pode esperar
Por manhãs e estações.
Enquanto a luz se apura e define
Nos seus dourados, estou certo
De que não pertence aqui
Tão gratuita pureza.
Saturamos inefáveis
Até os reduzirmos à escravidão
De forma, peso, medida
E literatura descritiva.
Com a luz à cintura
Dos primeiros blocos,
Esta manhã não sabe – ou esqueceu –
Que já não estamos no Paraíso.

 

Nuno Rocha Morais

sábado, 8 de agosto de 2026

Os cafés

 Procuras nas mesas

Uma enseada para a tristeza.

O vidro dá ao mundo

Essa distância teatral.

Deixa-te partir nos vapores,

Nos travos, nos rumores,

Nos rostos estranhos.

Aqui, o amor protege-se das noites,

Do desejo que não se cumpre,

E a solidão esconde-se da solidão.

Procuras nas mesas a redoma,

O ventre de uma pausa.

Aqui encontras na luz

As obscuridades possíveis. 


Nuno Rocha Morais

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