sábado, 29 de agosto de 2026

Vejo o teu peito convulsionado
Por escalas que sobem e descem,

Cada vez mais alto,

Cada vez mais fundo,

Carregadas de choro escuro.

E penso: ” Seja o que for,

O fio do choro não o poderá reparar.

Nada devolverá à tua vida

Uma unidade que nunca teve.”

Mas nada te digo:

As palavras são apenas palavras

E sempre alheias

Não é com palavras que sentimos

Que aplacamos o sentir. 

Deverás ser tu a dissipar

As tuas tempestades quando exaustas,

Tu a caminhar sobre as tuas águas,

Serenando o seu medo e a sua fúria,

Tu a encontrar o ritmo nítido da tua paz. 


Nuno Rocha Morais



sábado, 22 de agosto de 2026

Escrevi um poema –
Escrevi dia.

Mas quando o leram,

Teceram nele a noite

E enterraram-no

Na sua página.

Assim morrem 

Os poetas.  


Nuno Rocha Morais

sábado, 15 de agosto de 2026


Tínhamos esquecido que poderia
Acontecer assim, a manhã,
E num súbito calor
Haver uma energia súbita
Que a reconhece e lhe responde
Juntando-se ao poliedro em turbilhão
De faces incontáveis,
De pássaros lançados
Às mãos cheias pelo ar,
E a toda essa harmonia imperiosa,
Diversa unindo, o diverso enlaçando.
Contudo as suas horas tão leves,
Tempo sem esforço, cansaço,
Não são para o nosso tempo
De sobressalto e contratempo
De quem não pode esperar
Por manhãs e estações.
Enquanto a luz se apura e define
Nos seus dourados, estou certo
De que não pertence aqui
Tão gratuita pureza.
Saturamos inefáveis
Até os reduzirmos à escravidão
De forma, peso, medida
E literatura descritiva.
Com a luz à cintura
Dos primeiros blocos,
Esta manhã não sabe – ou esqueceu –
Que já não estamos no Paraíso.

 

Nuno Rocha Morais

sábado, 8 de agosto de 2026

Os cafés

 Procuras nas mesas

Uma enseada para a tristeza.

O vidro dá ao mundo

Essa distância teatral.

Deixa-te partir nos vapores,

Nos travos, nos rumores,

Nos rostos estranhos.

Aqui, o amor protege-se das noites,

Do desejo que não se cumpre,

E a solidão esconde-se da solidão.

Procuras nas mesas a redoma,

O ventre de uma pausa.

Aqui encontras na luz

As obscuridades possíveis. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 1 de agosto de 2026

Filosofia

 

É certo que não há certeza alguma,

Que a estabilidade é um equilíbrio fulgente,

Nem certeza da carne fluída

Nem certeza da fonte que é a alma.

 

E a minha ideia do Universo

É um fio de dúvida.


 Nuno Rocha Morais




sábado, 25 de julho de 2026

Primeiro amor

Tentei todas as formas de mágoa

Na minha própria mágoa: nenhuma servia.

Nada havia sido escrito para mim. 

Os teus olhos não estavam escritos

Em lado nenhum; ninguém estivera

Antes de mim na minha solidão.

E havia gritos à procura da minha boca,

Dentro do meu amor por ti,

O amor nada sabia de si próprio

Por ninguém, livro nenhum ‑

Ia-se criando à tua imagem.

O primeiro amor, que é também o último,

Jamais está escrito.

Então, quase acreditei na força

De um grito inédito, inaudito:

Concedam-me este amor

E moverei o mundo ‑

Dirigindo-me não sei a quem;

Por descobrir estava que sentir não é poder,

Que o sol não se move, nem as outras estrelas,

Que para o amor não basta amarmos,

Eternos e morituros.


Nuno Rocha Morais 

Poemas dos dias 

(2022)

sábado, 18 de julho de 2026

A tarde compõe-se no céu,
Teatral, florida, clara:

Espessura de aves do Verão.

Mas em mim soam os tambores da chuva,

Tantos tambores tentaculares...

É a alegria de estar vivo

Tantas vezes pontuada

Por longos espaços de pedras longas,

Rajadas de silêncio,

Buracos de mim.


Nuno Rocha Morais
 

Vejo o teu peito convulsionado Por escalas que sobem e descem, Cada vez mais alto, Cada vez mais fundo, Carregadas de choro escuro. E penso:...