sábado, 27 de junho de 2026

O fim começa-se 
No próprio princípio,

Na sua negação prolongado.

Assim, também a voz

Tantas vezes, em si mesma

Prisioneira

Da morte de tantos poetas

E ninguém sabe. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 20 de junho de 2026

A noite demora-se a passear
Pelas figuras que a povoam:

O orvalho da nostalgia,

Uma melancolia,

Uma tristeza antiquíssima

Que sobe aos olhos.

Pelas ruas, pelo silêncio,

Algo secreto rege brumas

E amplia os ângulos da sombra. 


Nuno Rocha Morais

sábado, 13 de junho de 2026

Mergulho no rio do povo,

No seu rio de suor e loção da barba

E fritos e vozes roufenhas

E silêncios saturados.

O dia a prumo sobre o povo,

Sobre a torrente da sua pressa,

Da sua ânsia, da sua fome,

O dia que me atinge e me torna,

Como torna cada uma destas faces,

Uma gota do povo.

O povo sem deuses e sem sonhos

Que, no entanto, crê em sonhos e em deuses,

O povo que passa no olhar destes versos,

Versos que não são neo -reais

Ou realistas, mas apenas reais.

 

Nuno Rocha Morais




sábado, 6 de junho de 2026

A maldição dos lugares é esta:

São um tempo que acaba,

Prolongando-se em outro.

Porém, aqui, neste lugar, 

Tantos ontens, ainda que residuais,

São audíveis e insistentes assaltam-nos,

Assustam-nos, dilaceram-nos

Com a sua presença de jamais regressarem.

O tempo passado vertebra os lugares,

Percorre-os como uma peste,

Recorda-nos que em nós

O tempo tem de ser extinto

Sempre duas vezes.


Nuno Rocha Morais
 

A tarde compõe-se no céu, Teatral, florida, clara: Espessura de aves do Verão. Mas em mim soam os tambores da chuva, Tantos tambores tentacu...