segunda-feira, 15 de julho de 2019






Dizem que puseram um homem na lua:
Não acredites.
E que tivessem?
O que buscam no minério dos astros?
Quanto tocam do Universo
É sempre o mesmo nada
Perante o Universo.

«Um pequeno passo para mim, um grande passo para a humanidade».
Chegaram à lua.
A única coisa que mudou foi isto:
Pode morrer-se mais alto.

Nuno Rocha Morais (Galeria)
(Faz hoje 50 anos da ida do homem à lua)

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Tango

As pernas alongam-se na dança,
São sombrias, misteriosas como vielas
Onde são gatos.
Dois corpos são um corpo,
O langor, a graça, o desejo,
Mas não sendo carne,
Ou não mais do que as mãos,
Trágicas por conduzirem o destino,
Não mais do que este roçagar,
Esta pele aflante e lábios entreabertos
De que só o tango conhece o segredo,
Para que a tristeza se apague
Sendo dançada.

Nuno Rocha Morais

domingo, 7 de julho de 2019

A M. de Sá-Carneiro
e ao Rui Bacelo
 
Foi sempre o menino exemplar.
Nunca foi além do seu nome,
Nunca correu atrás da luz
Quando ela, com as pombas,
Deixava a sua janela.

Foi sempre o menino exemplar —
Nunca amou mas temeu os vimes
E respeitava ciosamente os muros.
Foi feliz?
Foi sempre o menino exemplar.


Nuno Rocha Morais (Galeria)

sábado, 8 de junho de 2019

(Faz hoje onze anos que o Nuno nos deixou)

Não me procures, não me encontras,
Não estou, nunca estive, não quero estar,
Não sou e não serei, não sei, não vi,
Não pretendo, não persevero, não presumo
Não desistir, mas o facto é que ainda não,
Não me prendo, não me atenho,
Não estimo e não desprezo,
Não pergunto, não respondo, não toco,
Não saio nem entro, não vou, não fico,
Não ando, não atento, não ignoro,
Não conheço, não penso, não recordo,
Mas tão pouco esqueço, não assisto,
Não intervenho, não defendo, não acuso,
Não compro nem vendo, não pago nem peço.

Nuno Rocha Morais 
(Inédito)

quinta-feira, 6 de junho de 2019

DIA D

De um lado, a noite é uma náusea.
Do outro, um frio que degola.
De um lado, ninguém pensa
Em libertar a liberdade.
Do outro, ninguém pensa
Em resistir até ao fim.
Esta noite, Deus é acordado
Em muitas línguas,
Mas as palavras são as mesmas,
A paz que pedem é a mesma.
E nas cartas que escrevem
Ambos os lados prometem
Não morrer.
Estas promessas jazem mortas
Na praia, lado a lado.
A paz é a mesma.
Deus ouviu.

Nuno Rocha Morais (Galeria)

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Uma actriz [ B. B.]








Um mito, veja bem. Um mito.
É esta a crueldade que usam comigo.
Eu, este corpo que se afunda
Na sua decrepitude, sou um mito.
E obrigam-me a assistir, vezes sem conta,
A estas imagens de mim, jovem,
E perguntam-me se tenho saudade
Da minha juventude, que, sei-o agora,
Era já um crepúsculo – magnífico,
Diziam-me, mas já um crepúsculo.
E assim sou um mito e o tempo deve estar a rir-se muito,
Porque um mito é a máscara menos confortável
Para se morrer.
Repare bem, quero ser eu, só eu,
A escrever o meu obituário,
A fazer coincidir o meu canto de cisne,
Como soe dizer-se, com a notícia da minha morte.
Veja bem, fui bela e, agora, sou o oposto dela,
Sou, de ambos os lados do espelho,
A face e o reflexo, que só em aparência
Não coincidem, sou a fábula de um corpo
E a sua moralidade, que não é nenhuma,
Só uma lei natural.
Mas a minha beleza, dizem-me, não era natural,
Era inumana, era eterna.
Estavam enganados e aqui estou, a prova,
Ainda viva, e não sei se estou feliz
Por poder demonstrar-lhes que estavam enganados,
Mas aqui estou, prisioneira de um mito
Que eu própria desminto, embora tarde de mais.
Sou um mito pelo que fui.
Mas só agora sou real.
Não me reconhecem como essa jovem
Ou, então, como a degradação dela,
Como exemplo dessa lepra inelutável,
Dessa justiça tão justamente injusta
Que é o tempo, que nos cobra
O facto de o termos vivido.
Pois veja bem, sou a minha própria cilada,
Sou como o vento a sibilar na folhagem
Para saber que existe,
Para ser sombra nos caminhos.
Sou um mito a desmoronar-se num corpo,
Mas só agora sou real.

Nuno Rocha Morais (Galeria)

domingo, 12 de maio de 2019

















À minha Inglaterra chega-se num verso de Larkin
E a primeira coisa que se vê,
Ainda antes das falésias brancas de Dover
É a rapariga de Cambridge de Ruy Belo.
E a graça dos seus gestos,
Semelhantes aos de Turner —
Leves e cristalizados nas telas,
E o seu canto, o seu inglês
Reverdecem os prados onde o verde
Apodrece em charcos de cinzento
E as cidades vão obscurecendo a luz
E a morte cresce nos dias.
Não procuro a melhor parte de mim
Para a rapariga de Cambridge em inglês:
Serão bastantes um olhar e um silêncio em português.


Nuno Rocha Morais (GALERIA -2016)

Os homens são os anagramas dos deuses; A vida corre naqueles Com a predestinação de desaguar na terra, Na cinza, apenas com promessas Ardend...